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Segunda Leitura

Crise não deve desanimar jovens advogados e estudantes de Direito

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O cenário brasileiro não é dos mais animadores. As notícias de corrupção batem recordes de frequência e de valores, mas há quem diga que o futuro nos reserva casos maiores. A economia caminha para a recessão, com todas as suas más consequências, como desemprego, descumprimento de contratos, aumento da criminalidade e outras tantas.  A classe política atinge seu mais alto grau de descrença, com dezenas de investigações no Supremo Tribunal Federal. De sobra, o noticiário internacional bombardeia a todos com atentados que superam qualquer exercício de imaginação sobre a maldade.  

Além de sofrer este tipo de pressão, outra recai sobre os jovens estudantes ou recém-formados: a cobrança da família. É constrangedor ter que explicar e repetir aos pais e à tia professora que os concursos têm milhares de candidatos e que dificilmente se passa na primeira prova. Ou ao primo engenheiro que o sucesso na advocacia não é consequência de ser aprovado no exame de Ordem, mas resultado de muitos anos de trabalho.

Neste quadro inicial, comum a milhares de jovens, como reagir?  Como planejar o futuro? Como lidar com a cobrança? Até onde más notícias podem levar à descrença ou o excesso de cobranças à gastrite ou às drogas?

É fácil (e também errado) dizer que a nova geração não quer estudar, escreve mal e que não adianta querer ajudá-los. Na verdade, a chamada geração Y é diferente das que a antecederam, porque seus representantes foram criados em outro mundo. A começar pelo ambiente que os cerca. Refugiaram-se em suas casas, porque o mundo exterior é perigoso. Foram levados a trocar as brincadeiras de rua por jogos eletrônicos. Poucos conhecem o prazer simples de um banho de cachoeira.

Nascendo e vivendo no mundo digital, com certeza os jovens de hoje têm prejudicada a comunicação, não só escrita como oral. Mas isto não significa falta de interesse nos estudos. Há, sim, muitos alunos dedicados e querendo aprender. Participam de projetos de pesquisa, preparam com cuidado suas monografias e, quando formados, empenham-se em colocar-se profissionalmente.

Se nós, das várias gerações antecedentes, fôssemos jovens hoje, seríamos melhores? Não, evidentemente. A crise atual, que não é só econômica, mas também de valores, pode levar um jovem da área jurídica a três tipos de reação. E alguns mais velhinhos também. A primeira é a de largar tudo. A segunda, de mudar-se para o Canadá, Austrália ou outro país promissor. A terceira é ir à busca de seu espaço.

Largar tudo pode significar desistir, abandonar os sonhos, curvar-se ao medo de não dar certo, de ser avaliado negativamente. É óbvio que esta não é uma boa opção. Os que a adotam têm tendência à baixa autoestima, a evitar contato com os amigos, a isolar-se.

Todavia, muitas vezes o largar tudo significa encaminhar-se para uma atividade fora do Direito. E daí a situação é, evidentemente, menos grave. Em alguns casos é a única saída. Por exemplo, se a pessoa não passa no exame da OAB após várias tentativas. Fora do Direito poderá, inclusive, encontrar plena realização. Não que em outra área seja mais fácil. Por exemplo, é preciso coragem e determinação para comprar produtos na China e vender no Brasil. Mas este pode ser um bom meio de vida. E o curso de Direito poderá ajudar a aumentar as  chances de sucesso.  

A segunda opção é sair do país. Atualmente, é a adotada por muitos jovens, inclusive os  que já chegaram aos 40. Mas é preciso cuidado e ponderar que: a) no país adotado será sempre um estrangeiro e, de uma forma ou de outra, excluído de boas oportunidades; b) os países que recebem os jovens (como o Canadá) preferem os de formação técnica e não da área jurídica; c) não há cláusula de felicidade eterna, portanto, países ricos e organizados podem, a qualquer momento, passar a ter problemas com mais frequência (como a França, com atentados terroristas); 4) perder as raízes (família e amigos de infância), sempre gera um prejuízo emocional.

A terceira opção, evidentemente, é a melhor. Não se pode dizer que é a mais fácil. Conquistar espaço profissional demanda sacrifícios pessoais, investimentos, luta permanente.

Foi mais fácil no meu tempo de estudante universitário. A economia era estável e o mercado de trabalho mais aberto. Os concursos tinham menos candidatos. O que fiz para promotor em São Paulo, em 1970, tinha 1.119 inscritos. Existiam cidades pequenas sem nenhum advogado e, os que nelas se estabeleciam, em poucos anos enriqueciam. Nas cidades de médio ou grande porte havia espaço para advocacia especializada. Em Curitiba, nos anos 1980, não chegavam a três os escritórios especializados em Direito Tributário. Em Direito Previdenciário, havia apenas um.

Agora, evidentemente, a concorrência é muito maior. No entanto, as dificuldades podem ser superadas com uma boa dose de estratégia e dedicação. A autoconfiança, sem arrogância, é o primeiro passo para o sucesso. Ir para uma entrevista achando que não vai conseguir é meio caminho andado para não conseguir. O pensamento negativo direciona para o mau resultado.

Em tempos de crise surgem também as oportunidades. Grandes empresas, em especial empreiteiras, vêm dispensando seus empregados. Estas dispensas, muitas vezes, exigem negociações, e o profissional do Direito não é preparado para tal tipo de atividade. Assim, capacitar-se em negociação pode ser uma boa forma de conseguir posição de destaque, seja em um sindicato, seja em uma empresa, pois este tipo de profissional aproxima os interesses e evita a discussão na Justiça.

O ensino superior é um campo em plena ascensão. As universidades seguem o rumo da profissionalização. Pertence ao passado o ensino do Direito por profissionais de grande experiência prática (como um promotor do júri), que relatavam casos concretos e despertavam o interesse nos alunos. Agora a atividade é mais técnica e as faculdades querem pessoas com titulo de mestre ou doutor, aliado à disposição de publicar artigos e promover pesquisas.  Aí está aberta uma porta aos jovens, uma profissão interessante e com salários em alta.

O Direito de Família torna-se mais complexo e abrangente, de modo a incluir pessoas que se unem, através de vínculos diversos, sob o mesmo teto. Novos conflitos surgirão, para os quais as soluções terão que ser criadas. Isto exigirá profissionais especializados.

As novas fontes de energia serão cada vez mais fortalecidas em razão da crise da água. Temos advogados preparados para as questões que envolvem energia elétrica, solar ou eólica? Não está aí um novo campo de trabalho? E a força econômica do agronegócio, responsável maior do PIB nacional, não merece profissionais especializados? Será que os antigos escritórios de advocacia comercial atendem bem esta nova realidade, que exige conhecimentos do Direito Internacional, Agrário, Ambiental, Civil e Administrativo, aliados às práticas de comércio exterior?

Sintetizando, se o cenário político e econômico não é dos melhores, nem por isso se deve submergir em um baixo-astral. É preciso direcionar os olhos para os bons exemplos existentes no serviço público e na área privada, gente que cumpre seu dever com dignidade e eficiência. Manter a calma, capacitar-se, estabelecer prioridades são metas a serem perseguidas.

Aí estão, em breves linhas, algumas anotações sobre a atual realidade e o posicionamento dos jovens nas profissões jurídicas. Do que foi dito, a conclusão  é que enfrentar a situação, aqui no Brasil, ainda parece ser a melhor solução. No mais, é respirar fundo, olhar para a frente com confiança e, como diz a música de Renato Teixeira e Almir Sater,  ir “tocando em frente”.

 é desembargador federal aposentado do TRF da 4ª Região, onde foi corregedor e presidente. Mestre e doutor em Direito pela UFPR, pós-doutor pela Faculdade de Saúde Pública da USP, é professor de Direito Ambiental no mestrado e doutorado da PUC-PR. Presidente eleito da "International Association for Courts Administration - IACA", com sede em Louisville (EUA). É vice-presidente do Ibrajus.

Revista Consultor Jurídico, 5 de abril de 2015, 8h00

Comentários de leitores

9 comentários

Nunca se roubou tão pouco

L. Nascimento (Outros)

Providencial o texto do lúcido articulista. Mas é bom que se pondere: NUNCA SE ROUBOU TÃO POUCO NO BRASIL, como nos últimos doze anos. Durante o regime de exceção (asquerosa ditadura militar), a corrupção grassava. Muitas organizações que hoje defendem o impedimento da legítima presidenta da República começaram seus bons negócios entre 64 e meados dos anos 70 (organizações Globo, por exemplo). Após a abertura política e nos anos 90 (Centrão, Sarney, Collor e anos FHC) a corrupção nunca foi fortemente apurada e investigada: tudo ia, celebremente, para debaixo do tapete, com algumas exceções raras. Collor foi pego por uma ninharia. Não havia ambiente político para sustentá-lo, tampouco ele tinha laços firmes com movimentos sociais (não tinha base social forte, como tem Dilma, ao contrário do que apregoa, falsamente, a mídia, hoje).
A mídia precisa de urgente e firme regulamentação econômica. Não pode uma única televisão ter a força que tem. Os tentáculos da Rede Globo cobrem todo o país, mesmo com o avanço da globosfera (blogs independentes, que furam o bloqueio da grande mídia). A União Europeia recomenda aos seus membros que façam a regulamentação da mídia, para que a democracia não fraqueje diante do poder de corporações de comunicação - como é o caso, cá entre nós, da família Marinho, entre outros cinco famílias.

Por fim, entre outras tantas observações que poderiam ser feitas, temos que o Procurador_Geral da República vem sendo indicado pelo Chefe do Executivo Federal de forma republicana: indicado pelos próprios pares (membros do MPF). Não há mais no Brasil Engavetadores-Gerais da República, desde 2003. Isto é de extrema relevância!
Que se apure toda corrupção. Toda ela. Egressa de TODOS os partidos, sem exceção!

Nunca se roubou tão pouco

L. Nascimento (Outros)

Providencial o texto do lúcido articulista. Mas é bom que se pondere que NUNCA SE ROUBOU TÃO POUCO NO BRASIL, como nos últimos doze anos. Durante o regime de exceção (asquerosa ditadura militar), a corrupção grassava. Muitas organizações que hoje defendem o impedimento da legítima presidenta da República começaram seus bons negócios entre 64 e meados dos anos 70 (organizações Globo, por exemplo). Após a abertura política e nos anos 90 (Centrão, Sarney, Collor e anos FHC) a corrupção nunca foi fortemente apurada e investigada: tudo ia, celebremente, para debaixo do tapete, com algumas exceções raras. Collor foi pego por uma ninharia. Não havia ambiente político para sustentá-lo, tampouco ele tinha laços firmes com movimentos sociais (não tinha base social forte, como tem Dilma, ao contrário do que apregoa, falsamente, a mídia, hoje).
A mídia precisa de urgente e firme regulamentação econômica. Não pode uma única televisão ter a força que tem. Os tentáculos da Rede Globo cobrem todo o país, mesmo com o avanço da globosfera (blogs independentes, que furam o bloqueio da grande mídia). A União Europeia recomenda aos seus membros que façam a regulamentação da mídia, para que a democracia não fraqueje diante do poder de corporações de comunicação - como é o caso, cá entre nós, da família Marinho, entre outros cinco famílias.

Por fim, entre outras tantas observações que poderiam ser feitas, temos que o Procurador_Geral da República vem sendo indicado pelo Chefe do Executivo Federal de forma republicana: indicado pelos próprios pares (membros do MPF). Não há mais no Brasil Engavetadores-Gerais da República, desde 2003. Isto é de extrema relevância!
Que se apure toda corrupção. Toda ela. Egressa de TODOS os partidos, sem exceção!

Muito providencial!

Kris Reis (Funcionário público)

Extremamente providencial este texto. É com sentimento de privilégio que fiz a leitura, logo agora que retornei para terminar o curso de direito que havia começado em 2002. Obrigada por compartilhar tão importante sentimento, que nos faz refletir e "ter bom ânimo" (como diz certa passagem bíblica). E obrigada ao meu prof. de dir. penal por nos guiar nesta caminhada.

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