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Diário de Classe

Os simpósios shows e o porquê devemos
mudar o modelo de congressos

Por  e 

Simpósios em vez de solilóquios
Depois de participarmos de tantas palestras e simpósios, pensamos que devemos repensar aquilo que consideramos um modelo ultrapassado de congresso (seja o nome que se dê — simpósio, jornada etc.). O mais comum é a juntada de vários palestrantes, que, em tese, farão discursos sobre um tema genérico, normalmente em que “cabe tudo e todo tipo de palestrante”. Na verdade, são solilóquios. O problema é que só o palestrante fala, sem contestação, sem perguntas, sem debate, enfim, um monólogo.

Por que estamos escrevendo isso? Porque nos acostumamos com algo e já não nos damos conta das falhas ou da necessidade de alterarmos o estado da arte do fenômeno. Observamos os congressos em diversas áreas, aqui e no exterior. Na área de filosofia, por exemplo, cada palestrante expõe seu texto (que é elaborado especialmente para aquela ocasião) e depois sempre é aberto espaço para perguntas. E os palestrantes não fazem como os juristas brasileiros, que falam e vão embora. Os filósofos — e o mesmo se aplica às demais áreas das ciências humanas e sociais — têm o hábito de intervir constantemente.

Assim, temos, de um lado, os congressos de Direito, sem debates. Solilóquios. De outro, no estrangeiro e na filosofia, colóquios. Está aí, na própria palavra, a diferença. Pensamos que devemos alterar esse quadro. Esse modelo “pastor e ovelhas” está esgotado. Duas a três mil pessoas escutando o sujeito dizer qualquer coisa e ninguém pode contestar. Nem os demais palestrantes que, por vezes “obrigados” a assistir na primeira fila (estão esperando a sua vez), podem dizer algo ou fazer perguntas.

Há também pouca preocupação com o aspecto didático-pedagógico nos solilóquios de terrae brasilis.  Reúnem-se professores das mais diversas estirpes e concepções sobre o direito. Em tese, isso parece ser bom, mas, o que tem a ver, por exemplo, professores que querem aprofundar os temas com professores que vão para dar espetáculo tipo-pastor-pentecostal, com discursos tão profundos quanto os calcanhares de uma formiga anã? Um palestrante fala sobre o problema da conceituação teórica dos princípios, os cuidados que se deve ter com os efeitos colaterais do ab-uso principiológico... Logo em seguida, vem outro palestrante, falando algo como “princípios são valores” e um monte de blás, blás, blás repletos de raciocínios raso-pequeno-epistêmicos. E a plateia vai ao delírio. A concorrência com os conferencistas que querem aprofundar os assuntos é desleal...

E o que dizer quando aparece o jovem pentecostal com o kit (neo) carreira jurídica (terno Hugo Boss e chave de seu carro Audi A4 sobre a bancada), trazendo exemplos da sogra, da zona do meretrício ou de algo correlato para explicar o conceito de um determinado artigo do Código Penal?

Vale lembrar de um enorme solilóquio em que o palestrante caminhava em cima do palco feito o missionário Valdomiro Santiago da Igreja Pentecostal Mundial (não confundir com a Internacional do R.R. Soares ou com a Universal do Edir Macedo, embora essa diferenciação não tenha nenhuma importância para esta coluna), falando sobre o divórcio. Um dos signatários desta coluna ficou muito impressionado com a performance do conferencista. Pensava: como é possível fazer tanta reflexão sobre esse tema? Como é possível juntar tanta dogmática jurídica sobre um tema durante cinquenta minutos? E tudo recheado com anedotas sobre parentes, ex-namoradas, namoradas do primo, mulher do padre etc. A plateia adorou. Quando chegou a vez do signatário falar, disse ao público: “— Fiquei tão encantado com o tema “divórcio” que, agorinha mesmo liguei para dona Rosane, minha mulher, e lhe disse: “Descobri minha vocação: vou me divorciar! O divórcio deve ser uma coisa maravilhosa. Como é possível que até hoje não tenhamos nos divorciado?”. Muitos não entenderam a piada, sequer entendem o grau de ironia sobre o alcance da própria ironia...

Assim como necessitamos mudar o ensino jurídico e a bibliografia usada nas salas de aula (cujos efeitos deletérios se podem notar nas práticas jurídicas cotidianas), também devemos mudar a form(ul)a de nossos Congressos, já que há milhares sendo realizados em todos os anos do norte ao sul do Brasil. A principal alteração deve ser no tocante à institucionalização dos espaços para questionamentos dos participantes. Claro que isso implica a diminuição do número de palestrantes. Mas, cá para nós, não dá mais para aguentar essa overdose de conferências.

Atualmente, os congressos se fragmentaram tematicamente. Se o tema é “Direitos Humanos e Democracia”, cabe tudo. E lá vem o palestrante para falar sobre “direitos humanos e consumidor”. E haja anedota sobre a compra de artigos no sex-shop. Claro. Cabe tudo. Pensamos que as temáticas devem ser mais específicas. Não dá para abraçar o mundo em um Congresso. O proveito de cada participante diminui na medida em que aumenta o número de conferências. E vamos parar de dar uma canseira nos partícipes, “tipo” início 8h30min (na verdade, ninguém vai; só inicia às 9h15min); e não marcar na programação uma sequência de eventos sem aguardar o tempo sequer de desfazimento das mesas. Por vezes, há mais gente do lado de fora dos congressos que assistindo ao palestrante.

Outra coisa: não misturar alhos com bugalhos. Ou pelo menos fazer uma distribuição de tribos nos painéis. Não dá para colocar no mesmo espaço um jurista do porte do Tércio Ferraz Jr. e o jovem professor de cursinho que está-lá-para-vender-seu-novo-livro-direito-penal-mastigado-ou-algo-similar. Por vezes, fica constrangedor ver o palestrante fazendo discursos sobre a “ponderação” (este é só um exemplo), fazendo gestos como se “pegasse” um princípio para sopesar com outro e, na mesma mesa, um professor crítico desse tipo de vulgata da teoria jurídica. Vejam: se ele fizer cara feia (falo do professor crítico-que-está-obrigado-a-ver-aquilo), passa por mal-educado; se depois falar contra isso, por certo vai sacrificar parte de sua palestra. De todo modo, como dissemos, congressos não devem fazer esse tipo de (con)fusões. A menos, é claro, que ponham dois ou três palestrantes que tenham posições diferentes sobre um determinado tema e isso gere um bom debate. Mas, insistimos: devemos pensar seriamente em institucionalizar os debates entre a plateia e o palestrante e, da mesma forma, entre os próprios palestrantes. Sacrifica-se no número de palestrantes, mas se ganha na qualidade do colóquio, que deixa de ser solilóquio.

Outra dica, agora dirigida a quem vai ao congresso: procure se informar sobre os palestrantes, se ainda não os conhece. Um congresso é como uma peça de teatro. Procure ler algo sobre os palestrantes. Como pensam, sobre o que escrevem... Falem com os colegas. Peçam informações. E, quando o palestrante está expondo, fiquem atentos. Desliguem o celular. Usem a internet apenas para, rapidamente, ver no Google o que o palestrante quis dizer com “temos de combater o solipsismo” ou “quem foi Oskar von Büllow”. Mas, de certo modo, se você se informou sobre o palestrante, já deveria saber sobre as palavras chaves de seu pensamento. Conferencistas de verdade são como os artistas de teatro. E conferências são como grandes aulas. Ou deveriam ser. Não devem ser simplificadas. Quem quer simplificar subestima a plateia, mesmo que, de fato, parte dela não vá entender um ovo do que está sendo exposto. Nivelar sempre por cima: isso demonstra respeito para com o estudante e o profissional presentes.

Se os livros cada vez mais vêm sendo escritos “no-modo-facilitadinho-mastigadinho-resumidinho”, isso não quer dizer que uma palestra em um colóquio (e não solilóquio) tenha de seguir esse mesmo padrão-calcanhar-de-formiga-anã. O Direito é um fenômeno complexo, repetimos pela milésima vez. Sempre que o simplificarmos, estaremos dando um tiro no pé.

Certa vez Einstein foi expor sua teoria da relatividade para um grande público e, ao terminar, ninguém havia entendido. Então, uma senhora levantou a mão e disse: “Professor, não entendi nada. O Senhor pode ser um pouco mais simples?” E Einstein expôs de forma mais simples. E a mulher continuou a não entender. Pela terceira vez, Einstein simplificou a simplificação. E a senhora disse, aliviada: “Obrigada, finalmente entendi”. Ao que Einstein respondeu: “ Pois é. Só que isso que contei agora já não é a minha teoria”.

 é doutor em Direito, professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da IMED e advogado.

 é jurista, professor, doutor e pós-Doutor em Direito. Assine o Facebook.

Revista Consultor Jurídico, 4 de abril de 2015, 8h00

Comentários de leitores

6 comentários

Conhecimento sobre o assunto ?

Mário Sérgio Ferreira (Procurador Autárquico)

Muitos palestrantes de congressos e seus congêneres não dão espaço para perguntas, pois sequer têm conhecimento mais profundo para respondê-las. Pousam de POPSTAR, mas no fundo se borram de medo das intervenções. Acabada a palestras, saem correndo para que não sejam inquiridos pelos atrevidos ouvintes, que estão ali unicamente para expô-los ao vexame público.

Ausente

Luiz Alberto Gomes (Advogado Autônomo - Administrativa)

Caros Professores,

Já faz um tempo que eu evito de ir para Congressos e congêneres, pois ando sem paciência para ser usado como vaso sanitário e ter que escutar qualquer coisa "calado".

Essa cultura, como falou o comentarista Felipe Pessoa, vem de muito tempo. Quem não lembra do "PACTO DE MEDIOCRIDADE" nos colégios quando os alunos apresentam algum trabalho em grupo, ou seja, desde daquela época ficou claro que NÃO SE DEVE FAZER PERGUNTAS AOS COLEGAS, para evitar constrangimentos etc, pois se perguntar vai ter RETALIAÇÃO NA APRESENTAÇÃO de quem perguntou!

Então, esse é um tema que os professores terão que exercitar a LEER (STRECK, 2014) diversas vezes para tentar mudar a situação.

Parabéns pela coluna, de excelente nível como sempre!

Mercantilização

DCdeS (Juiz Federal de 1ª. Instância)

Outro problema maior é a falta de espaço nesses Congressos/Simpósios/Whatever para produção. Também curso Filosofia e vejo uma grande diferença em relação ao espaço dado à produção: em praticamente todos os Seminários de Filosofia há possibilidade de envio de trabalhos de estudantes para apresentação. Submete-se o trabalho e após a aprovação o aluno pode apresenta-lo e discutir o tema. No Direito isso é algo raríssimo, não há espaços para a produção acadêmico. Os Congressos viram um grande cenário das vaidades, onde o convidado fala e vai embora. Os valores cobrados são exorbitantes só pra ouvir alguém falar, sem possibilidade de intervenção ou estímulo à produção - alguns chegam a R$ 800,00 o ingresso. Melhor gastar o valor do dinheiro comprando um livro ou ir assistir ao filme do Pelé.

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