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Vítima e algoz

Justiça com as próprias mãos inviabiliza vida em sociedade

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*Artigo publicado originalmente na edição deste domingo (2/3) no jornal Folha de S.Paulo.

Os desmandos expostos diariamente na mídia causam imenso prejuízo à nação. Além do dano econômico, resultam em consequências piores, de ordem imaterial. Geram dor, revolta e desesperança. A insegurança acarreta o medo e, com ele, a descrença nas instituições.

Notícias recentes revelaram a onda de protestos que tomaram as ruas brasileiras. Depredações, pichações, destruição do patrimônio público e privado, incêndios, confrontos, morte. Não faltam motivos para o descontentamento que se percebe. A população tem muito a reivindicar aos poderes públicos, mas assombra-me a opção pela violência. Nosso país enfrenta grave crise, cuja origem está na falta de educação e de valores éticos.

A repetição do comportamento desprezível torna a vítima algoz da comunidade e nivela por baixo os cidadãos. Pretender fazer justiça com as próprias mãos inviabiliza a vida em sociedade e transforma-nos todos em reféns uns dos outros.

Urge o aparecimento de novas lideranças forjadas sobre sólida base ética, focadas no futuro, dispostas a dar o melhor de si em prol do outro, na busca da construção de uma realidade inclusiva, na qual prevaleça o bem-estar coletivo.

Deve-se abandonar a noção individual de sucesso, a fim de entender que a ausência de paz social impede-nos de usufruir até mesmo daquilo que se conquistou com tanto esforço. Há de se ter em mente que a vitória pessoal será sempre pequena quando for dissociada do contexto em que se vive, quando não se reverter em proveito alheio, quando estiver limitada ao ganho financeiro ou à obtenção do cargo público para dele se servir.

Que cada qual busque fazer o bem, utilizando a favor da coletividade os talentos recebidos do alto, compartilhando com o semelhante o conhecimento acumulado e os benefícios auferidos, como maneira generosa de manifestar gratidão pelas oportunidades tidas.

A sociedade paga o preço das escolhas que faz. Descabe insistir na infantil ideia de que as riquezas nacionais são do povo, mas os problemas pertencem apenas aos detentores do poder. É preciso socializar a responsabilidade pela mudança do que não deu certo.

Afinal, o patrimônio inclui os bens e também as dívidas! Cumpre vencer a inércia e assumir a parte que incumbe a cada um. A modificação necessária é a interna, reveladora do engajamento nas causas essenciais ao desenvolvimento, à redução das disparidades econômicas e ao fortalecimento da democracia. E a tanto não se chega quando a visão é míope, de pouco alcance.

Não se deixe enganar. Atalhos que levem ao despenhadeiro moral devem ser evitados. As soluções suficientes a alterar a quadra vivida estarão no curso do caminho estreito e sinuoso da virtude.

O ano é de eleições. Substituo a frase tão usada nas redes sociais — em vez de "vem pra rua", proponho "vem pra urna".

A sociedade brasileira não é vítima. É sim autora — considerados os políticos que se valem do cargo eletivo não para servir ao outro, mas para locupletarem-se. Alfim, quem os escolheu?

Marco Aurélio Mello é ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Revista Consultor Jurídico, 2 de março de 2014, 10h45

Comentários de leitores

1 comentário

Sem Tutela surge o Direito de Autotutela.

Márcio R. de Paula (Estudante de Direito - Previdenciária)

Os desmandos citados neste artigo realmente extrapolam a boa convivencia social, podendo gerar consequencias gravissimas para a sociedade. Ocorre que, quando o Estado deixa de tutelar seus cidadãos, garantindo direitos fundamentais, não resta outra alternativa a essa mesma sociedade senão buscar o direito de autotutela, um direito natural que foi abolido no inicio das civilizações justamente para que fosse possivel a convivencia em grupo. Cabe aos mandatarios da sociedade cuidar para que direitos fundamentais sejam satisfeitos evitando assim que a balburdia se instale. Caso contrario teremos novamente um mandatario autoritario que, com certeza vai suprimir, senão em todo, mas parte desses direitos, sob o fundamento de manter a paz social.

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