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Homens vestidos de Harry Potter e homem da gola rolê: terá futuro a universidade?

Comentários de leitores

5 comentários

...outro caminho não resta senão o desvalor do saber.

L.F.Vargas, LL.M. (Advogado Assalariado - Tributária)

Uma vez que toda a academia converteu-se em justificadora a posteriori da doutrina hegemônica para o Estado, é possível que a causa de sua crise (i.e. da crescente percepção de futilidade da universidade) ultrapasse a pedagogia e a política, alcançando mesmo as raias da ordem metafísica: quando todos os mais apreciados autores de uma época repudiam a realidade (realidade, entenda-se, como valor; não se refere o termo à práxis, ou a técnica, como sói contrapor, mas à possibilidade de contemplação da Verdade, como querida pela filosofia clássica) em favor de programas de reengenharia social os mais lunáticos (pensemos, por ilustração, em um popularíssimo Peter Singer, um Saul Alisnky, nos frankfurtianos - grosso modo - ou na predileção do constitucionalismo por leituras dirigistas da sociedade, o que ainda há pouco via-se no onipresente Canotilho), nada mais natural que a realidade passe a repudiar as organizações onde a loucura de uma minoria é contemplada como lei.
É dizer, em imagem mais direta, entre o traço do Alienista e o estudo de Lobaczewski acerca dos efeitos sociais produzidos pela ação política de regentes psicopatas: uma safra de histéricos tomou conta do hospício e pretende, partindo dele, governar o mundo; mundo que lá a decidiu ignorar. Problema é que os doutos de lá outrora advindos garantiram à instituição, durante eras postas, prestígio que convence ainda muitos dirigentes cá de fora a emular os hábitos e as modas ditadas entre seus muros, como irrefletido mimetismo. Enquanto a dialética de sociopatas e histéricos for a pauta única da universidade, não se poderá falar em reconhecimento sincero de suas virtudes, para além do utilitarismo e da técnica.

Qdo o conhecimento nega a possibilidade mesma de conhecer...

L.F.Vargas, LL.M. (Advogado Assalariado - Tributária)

Brilhante apanhado! Uma das mais admiráveis reflexões já vistas nesta sempre notável revista eletrônica, anoto-o sem lisonja.
Há quem diga que o sistema universitário foi desenvolvido com a explícita intenção de dar aos intelectuais um universo apartado, a fim de que, entretendo-se lá uns com os outros, causassem menor impacto - e menores danos - sobre a sociedade em geral. Fato ou anedota, a teoria efetivamente aplicou-se - quase mil anos após a elevação das primeiras escolas paroquiais de origem carolíngea. E logo no Brasil, quando Golbery pensou prestar grande serviço à nação se, abrindo as portas da academia a pensadores politicamente engajados, permitisse-lhes ali desabafar. "Redução de danos", versão militar. Era a rústica "teoria da panela de pressão", segundo a qual a repressão à militância armada reivindicaria uma válvula de escape no incentivo à militância acadêmica. Como efeito, rendeu-nos as profundas distorções ideológicas que ainda relegam ciências humanas e sociais, no Brasil, à mais radical irrelevância. perante o mundo e à incompreensão absoluta de seu valor - o valor, n'última instância, do conhecimento mesmo - pela sociedade.
Com a massificação do ensino superior, abandonado até mesmo o ideal formador de "elites pensantes" - este sim rastreável ao dito medievo - em favor de uma visão cartorial de universidade, os jargões formulados ao longo das décadas de 1970-80 finalmente converteram as disciplinas humanísticas em rito iniciático de uma religião civil, da qual a administração pública em todos os níveis encontra-se impregnada. Os cursos de Direito formam, aqui, sacerdotes - não necessariamente da Justiça, senão das rubricas litúrgicas dos concursos, donde se ascende ao serviço de governos impregnados de messianismo.

Macacos reprodutores

Nicolás Baldomá (Advogado Associado a Escritório)

Brilhante, Professor. Compartilho das mesmas angústias.
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Sei que precisamos de um ensino técnico forte, menos voltado às questões acadêmicas e mais às práticas. Inclusive, me parece que mais pessoas são melhores nestes termos que em questões acadêmicas. Sem qualquer preconceito, ambas são importantes. O que não pode haver é a "tecnização" e simplificação da academia, que deve se preocupar com soluções para além da prática e do senso comum, enquanto a técnica deve resolver, e bem, problemas práticos para os quais tanto a técnica quanto a academia já tenham encontrado soluções.
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Infelizmente, esta simplificação do direito já nos atinge. O que temos hoje são (advogados) técnicos em reprodução gráfica de teses, não pessoas capazes de pensar o Direito e produzir algo de útil para resolver aquilo para o qual, de fato, o Direito existe: a resolução de conflitos e a distribuição de Justiça.

Leitura Agradável

W.Neto (Advogado Associado a Escritório - Empresarial)

Ótimo texto, bem escrito, poderia estar em outras mídias de maior alcance aos não-operadores do direito.

Parabéns

Fábio L. (Outros)

Parabéns pelos dois anos de Conjur e pela coluna de hoje. Excelente reflexão.

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