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Boutique jurídica

Aos 65 anos, Peixoto e Cury planeja sucessões

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Com quatro sedes e mais de 90 advogados, o Peixoto e Cury Advogados ainda reclama para si o título de boutique jurídica. O temo da moda não é usado por puro modismo — palavra que não combina com a banca, que completou 65 anos em maio deste ano. Com sócios com mais de cinquenta anos de casa, o escritório segue uma linha tradicional — sem buscar crescimentos imprudentes — e tem se preocupado em planejar sua manutenção depois da saída dos mais antigos.

O timão do navio está nas mãos de cinco sócios, todos com bastante tempo de escritório. Quando as questões são mais específicas ou técnicas, a eles se juntam outros oito, esses já de uma “linhagem” mais recente, para tomar decisões. A aproximação entre novo e antigo é uma das batalhas encampadas pelo Peixoto e Cury que, neste ano, criou os “almoços com o doutor [Walter Duarte] Peixoto”.

Nos almoços, Peixoto, o sócio mais antigo da firma, senta-se à mesa com integrantes mais jovens do escritório e conta histórias que viveu em seus 53 anos como advogado da banca. Além de repassar conhecimento, o projeto pretende criar identificação dos advogados com a sociedade.

A identidade do escritório é facilmente percebida em Pedro Jorge da Costa Cury, sócio que também dá nome à banca. Com 43 anos de escritório, Cury está em plena atividade. Em entrevista à revista Consultor Jurídico, na sede do escritório em São Paulo, falou sobre a advocacia, as diferenças geracionais, negócios e contou “causos” do escritório.

Diferentemente da maioria dos advogados, Cury comemora as cisões da banca. Segundo ele, aqueles que saíram para fundar o próprio escritório fizeram uma escolha melhor do que criar disputas internas para mudar a direção do sólido navio.

Leia a entrevista:

ConJur — Como o senhor chegou ao Peixoto e Cury?
Pedro Jorge Cury — Quando eu entrei, o escritório já estava na segunda geração. A primeira geração é do Duarte Pacheco do Canto e Castro, José Bueno Aguiar e Fábio Monteiro de Barros, do Duarte, do Alcides Costa. Depois vem o José Eduardo Peixoto. Tudo começa no fim da Segunda Guerra Mundial, 1947 e 1948. O doutor Pinheiro Neto, doutor Duarte e o doutor Egberto Lacerda Teixeira foram estudar nos Estados Unidos, porque as coisas aqui estavam começando a andar. Os negócios começaram realmente a andar no Brasil com as multinacionais, no tempo do Juscelino Kubitschek. O país tinha três ou quatro grandes escritórios: o França Ribeiro, o Castro e Barros, que hoje é o nosso escritório, o Pinheiro Neto e o Demarest e Almeida. Todos ali no centro da cidade de São Paulo, para atender a clientela que estava chegando. Um tinha [como cliente] a Bridgestone, um outro tinha a Goodyear, um tinha a Chrysler, outro tinha a Ford. E assim foram dividindo.

ConJur — Segurava um escritório inteiro um cliente desses...
Pedro Jorge Cury — Sim, porque você tinha uma advocacia antiga. Eu já cheguei na segunda geração, em que os escritórios já estavam mais ou menos estruturados dentro do padrão americano, pois todo mundo copiou o padrão americano nos escritórios de advocacia. Era uma época em que falar inglês era um diferencial. Qualquer experiência “lá fora” era incrível, porque contribuía muito.

ConJur — E como foi sua chegada?
Pedro Jorge Cury — Eu estava saindo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, muito bem formado, em Direito Civil, em Processo Civil... O Brasil não estava muito acostumado com cliente de multinacional. Eles queriam eficiência, resposta rápida para perguntas como “eu posso vender isso?”, “eu posso capitalizar aquilo?". Estávamos tão pouco acostumados com isso, que as respostas mostravam um advogado praticamente buscando algum pouco conhecimento na área internacional: citando as ordenações Filipinas; depois o código Napoleônico...

ConJur — E como esse conhecimento evoluiu?
Pedro Jorge Cury — Por sorte, muita gente saiu do país para estudar. Para mim já era mais difícil, porque eu já estava casado, mas ainda assim fui.

ConJur — Foi e levou a mulher?
Pedro Jorge Cury — Levei mulher e as duas filhas. Passei dois anos em Nova York. Depois me deram um cursinho rápido lá em Harvard. Depois eu fui estudar um pouco na Universidade do Sul da Califórnia, do Texas, da Southwestern Legal Foundation. Passei lá seis ou oito semanas. E voltei para o escritório, já com um conhecimento diferente. Pensando um pouco como o cliente pensava, o que era que o cliente queria, qual era o resultado daquilo.

ConJur — O escritório pagando sua ida e da sua família?
Pedro Jorge Cury — O escritório pagando.

ConJur — Olha que investimento bacana...
Pedro Jorge Cury — Não só pagando como ajudando o meu pai, que não tinha condições, aqui, e minha mãe. Eu acertei com eles e eles pagavam para os meus velhos o aluguel deles e a coisa toda. Foi muito bacana.

ConJur — Interessante essa relação entre escritório e advogado?
Pedro Jorge Cury — O homem chamado Duarte Pacheco de Canto e Castro foi um pai pra mim. Ele perguntou o que eu precisava para ir e acertou tudo. Eu tinha mulher e filhas, ele se dispôs a montar um esquema para irmos todos. Eu tinha que sustentar meus pais, ele pagou o aluguel deles. Tenho por ele uma gratidão eterna.

ConJur — E o mercado foi mudando com os advogados ganhando conhecimento no exterior?
Pedro Jorge Cury — Os escritórios foram se organizando, montando, crescendo. Nós tivemos no escritório — ainda bem! ainda bem! — três cisões grandes. Saiu, por exemplo, gente para formar o Castro, Barros, Sobral, Gomes Advogados, saiu o Horácio Bernardes, que fundou o Xavier, Bernarde e Bragança...  O que hoje é muito comum, quando aconteceu aqui, há quinze ou vinte anos, não era tão comum assim. O escritório acabou originando outros escritórios, mas, para a sociedade, isso foi muito bom, porque você via uma diferença de opinião muito grande, divergências de como encaminhar o negócio. Tudo aquilo que cresce muito tem que dividir.

ConJur — A relação entre advogados hoje é diferente daquela época?
Pedro Jorge Cury — A diferença é brutal. Hoje em dia, essa meninada tem trinta anos, vinte e oito anos, põe um suspensório bacana, fala inglês ou francês, quer sentar na mesa e ser sócio. Se você não deixar ser sócio, a meninada fica revoltada. Eles batem na mesa e dizem: “O caminho é esse. O caminho é aquele... Você só está há quarenta e três anos aqui”. Mas a gente não pode mudar o escritório completamente porque as pessoas querem tudo mais rápido. Acho que temos um escritório de relativo sucesso, de respeito, de tradição. Tem ministro do Supremo Tribunal Federal que trabalhou aqui [ministro Eros Grau]. Naquela época, não era tão grande assim, mas já havia divergências muito grandes.

ConJur — E na sua época de recém-contratado, como era esse perfil? 
Pedro Jorge Cury — A gente era muito mais tranquilo. Eu voltei, depois de morar nos Estados Unidos, falando inglês, com um bom conhecimento, e demorei seis anos para ser sócio.

ConJur — E o senhor estava com quantos anos quando foi sócio?
Pedro Jorge Cury — Aos trinta e oito é que eu fui ser sócio do escritório e fui, à época, o sócio mais novo.

ConJur — Nossa!
Pedro Jorge Cury — Hoje, você tem a meninada aí com vinte e oito e ele quer te dar aula, te explicar, e quer ser sócio, quer sentar na mesa... Nós, aqui, temos um conselho, somos cinco. A gente decide as coisas mais administrativas. Quando é mais importante ou mais técnica a decisão, a gente traz outros oito. Sentamos os treze à mesa, mas são esses cinco que dão o tom do escritório. A turma vai fazendo a sua composição de acordo com a música que a gente põe. A gente entende que todas as opiniões são importantes, os jovens dão uma arejada na gente, trazem coisas novas. Eles veem nos outros escritórios o que está acontecendo, têm experiência diferente. Tudo isso é muito útil, mas tem que ser filtrado. Você tem que misturar o cabelo branco com a juventude desse pessoal.

ConJur — Tem que misturar...
Pedro Jorge Cury — Essa vitalidade que eles trazem, e tesão que eles têm, com sangue no olho, isso é muito importante para o escritório. Eles são a sequência do escritório. Eu e o [Walter Duarte] Peixoto (foto) já estamos, de uma certa forma, passando para eles a coisa toda. Na última reunião um deles levantou e disse: “Se vocês forem embora, vocês cinco, como é que a gente vai tocar o escritório?”. Aí eu falei que é isso que eu quero fazer. Porque todo mundo tem formação, mas para dirigir teco-teco, avião na ponte aérea... Para pegar esse Boeing 777 eles ainda não estão preparados, mas têm todas as condições.

ConJur — Hoje a disputa por posições é maior?
Pedro Jorge Cury — Tudo hoje é questionado. Na nossa época era “sim, Doutor Duarte”. Não é que eu era um bitolado, mas o jovem seguia uma orientação... Quantas vezes eu ia para o Rio de Janeiro carregando a mala do doutor Duarte. Isso não me causava o menor desprestígio. Eu já era formado. E tinha que levar aqueles contratos todos, aqueles processos todos na mala. O doutor Rubens Gomes de Souza, tributarista, me ensinou muita coisa no avião. Ele ia me dando as dicas todas, conversando comigo. Era uma maravilha.

ConJur — O escritório em si mudou muito nesse período?
Pedro Jorge Cury — O escritório sempre teve uma orientação, além do profissionalismo e do trabalho, de não crescer muito. Há vinte anos nós queríamos ser o que sempre fomos: uma boutique jurídica. Não é para fazer qualquer coisa. Nunca fizemos cobrança, de crédito, nunca fizemos ações de consignação em fórum, nada disso. Nosso cliente senta à mesa e diz: “Eu vou para o Brasil, vou investir no Brasil. Onde é que eu faço? Onde é que eu tenho incentivo? Como é que eu faço com o Banco Central? Como é que eu faço tributação? Como é que eu constituo a empresa? Como é que eu vou entrar nesse ramo de atividade?”. Nossa missão é atender a necessidade das empresas no dia a dia.

ConJur — Há novas necessidades?
Pedro Jorge Cury — Hoje em dia há uma necessidade de estar mais atualizado. O advogado é mais exigido. Porque o cliente manda um e-mail da Austrália e quer saber se a firma que ele vai constituir no Brasil vai pagar ICMS em um produto que ele vai trazer do Mercosul. Temos uma comunicação muito mais rápida, temos a Internet, mas, se você não parar para pensar, faz bobagem. Todos querem que a coisa seja resolvida amanhã cedo.

ConJur — E essa geração Y é mais preparada pra isso?
Pedro Jorge Cury — Ela é preparada. Ela vem com mais motivação, ela é mais rápida. Ela tem comunicação mais fácil. É tudo no computador. Hoje a meninada leva esses laptops nas salas de reunião, fazem a reunião e já saem com a coisa impressa. Isso facilita, mas, de uma certa forma, deixa tudo muito sem profundidade, sem estrutura. A coisa fica muito pela rama. E quando a coisa fica pela rama, na nossa área, é preocupante. Você pode quebrar uma empresa se não tiver profundidade. Tem que ter profundidade naquilo que analisa.

ConJur — Que tipo de dificuldade isso gera?
Pedro Jorge Cury — É a sensibilidade que a gente procura passar que é muito difícil. Quando o advogado senta com o cliente, ouve duas horas de reunião mas, no fundo, interessam cinco minutos ou três minutos do que ele falou. Quando ele vai fazer uma compra, o que importa não é o que ele vai ganhar no mercado, ou se ele vai somar os faturamentos. É a estrutura dele. Como é que ele administra, com que pessoal ele vai contar? Como é que comunica ao mercado? É esse detalhe que de vez em quando essa juventude não pega muito. Eles são muito rápidos, querem ser muito eficientes, resolver o problema, tirar a coisa da frente, mas, às vezes, não é por aí.

ConJur — Mas isso não se dá por causa da quantificação de trabalho, que aparece muito mais, hoje em dia? Departamentos inteiros em empresas quantificam trabalho de seus funcionários. Isso não afeta também a advocacia?
Pedro Jorge Cury — Nós sabemos que alguns escritórios estabelecem horas de trabalho por mês e metas, mas não temos isso aqui. Tem gente que pode trabalhar quarenta horas por mês e fazer um trabalho maravilhoso para o escritório. Eu quero que eles pensem um pouco na instituição, não pensem só em render e conseguir cliente. Como é que funciona esse negócio aqui? Tudo acontece, mas não é em um passe de mágica.

ConJur — Qual é o principal motivo para não atender um possível cliente?
Pedro Jorge Cury — A minha linha de atendimento é de ter ética, de fazer a coisa certa e amanhã não ter problema nenhum nem para o cliente, nem para mim. Esse é o meu negócio. Eu não vou fazer uma operação em que ele vai trazer o dinheiro na mala, ou que tem dinheiro no Uruguai, numa companhia, numa operadora que tem petróleo no Iraque. O negócio aqui é estritamente by the book (pelas regras), não tem jeito. Para darmos uma orientação para o cliente, fazermos um planejamento fiscal ou estrutural, temos que poder defender tudo no tribunal. Para isso, tem coisas que não fazemos. É a identidade do escritório. Tem gente que faz... Escritórios que compram pedras preciosas para garantir débito. Outros que compram precatório. Tem um monte de mágica, porque advogado parece ser louco para fazer mágica (risos).

ConJur — E como é que isso se reflete no mercado?
Pedro Jorge Cury — Isso não é um problema para quem é meu cliente, né. Porque ele sabe que o Peixoto e Cury não trabalha nisso. É um bom nome. Quando o juiz vai despachar uma petição sabe quem a gente é, o que é que a gente está fazendo. São sessenta e cinco anos e nunca precisamos disso. Fechamos todo final de mês. Logicamente há momentos difíceis. Tem hora que a gente tem que retrair um pouco, tem hora que, épocas em que já teve cisão, ocorreram muitas coisas. Nós ficamos sem o pró labore alguns meses...

ConJur — Como foi isso de ficar sem a remuneração?
Pedro Jorge Cury — Tivemos um problema e uma grande perda financeira. Nós, os sócios, pensamos em fechar as portas, mas decidimos pagar com nossas economias, vender casa... Mas o escritório continuou. Nenhum advogado deixou de receber.

ConJur — Como é que está o mercado hoje para conseguir advogados?
Pedro Jorge Cury — É melhor formar aqui dentro do que buscar lá fora. Achar gente boa está muito difícil. Essa geração nova não pensa daqui a dez anos. A maioria dos sócios aqui foram estagiários! Eu fui estagiário. O ministro Eros Grau foi estagiário do escritório.

ConJur — Qual é a área mais importante para o escritório atualmente?
Pedro Jorge Cury — Tem quatro áreas muito importantes: cível, tributária, societária e trabalhista. As outras são paralelas. O equilíbrio é muito grande. Porque tem ação que demora anos e é um trabalho de criação. Mas tem também uma incorporação, por exemplo, que concentra dois meses de trabalho e gera um dinheirão. Logicamente, a hora mais cara é a da área tributária, porque hoje tudo bate na economia, na tributação.

ConJur — A atuação de vocês é mais no consultivo ou mais contencioso?
Pedro Jorge Cury — Com certeza hoje é o consultivo. E quando você adota uma posição destas, que é a nossa posição, você perde a atuação a curto prazo.

ConJur — E a captação de clientes?
Pedro Jorge Cury — Temos clientes tradicionais que trazem outros clientes. A gente também participa de uma associação de escritórios internacionais, presente em cento e quinze países: a State Capital Group. O principal canal de clientes é o relacionamento com clientes antigos.

ConJur — Vocês atuam com pro-bono?
Pedro Jorge Cury — Nós temos atuado para uma associação de auxílio a pessoas com câncer, para o Instituto Ayrton Senna e temos oferecido nossos serviços para o Programa de Aceleração do Crescimento para Pequenas e Médias Empresas (PAC-PME).

ConJur — O advogado ganha pelo pro-bono que ele atua?
Pedro Jorge Cury  — Não. E até mesmo, muitas vezes, o próprio sócio que está lá, encabeçando o pro-bono. Essa é uma obrigação nossa. Não precisa remunerar para isso.

ConJur — O senhor participou da criação do Centro de Estudos das Sociedades de Advogados?
Pedro Jorge Cury — Eu fui o primeiro vice-presidente do Cesa. Éramos eu, o Orlando Di Giacomo, o Thomas Felsberg, o Celso Cintra Mori... A gente sentia, cada vez mais, que a gente não tinha pessoal habilitado para fazer a função dos escritórios grandes, como eles estavam fazendo. A formação técnica do advogado, a experiência internacional. E a Ordem [dos Advogados do Brasil] era um negócio muito velho, muito antigo. A Ordem não defendia os escritórios de advocacia. A Ordem queria defender o cara lá na Quintino Bocaiúva, com sua máquina de escrever. A gente teve que fazer aquilo para mostrar que as sociedades de advogados estavam organizadas, que a gente precisava se apoiar. A coisa é fantástica. Hoje está no Brasil inteiro!

 é chefe de redação da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 13 de julho de 2013, 9h45

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