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Execução penal

A nova lei de detração na sentença penal condenatória

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Em novembro de 2011, o governo federal lançou o Programa Nacional de Apoio ao Sistema Prisional, com repasse de R$ 1,1 bilhão aos estados e ao Distrito Federal para zerar o déficit de vagas femininas em presídios e reduzir a quantidade de presos provisórios em delegacias [1].

Apresentado em 25 de novembro de 2011, o projeto de autoria do Poder Executivo teve tempo de tramitação recorde e, depois de aprovado nas duas Casas Legislativas, foi sancionada pela presidente da República a Lei 12.736, de 30 de novembro de 2012.

Dentre as medidas propostas, algumas tiveram caráter legislativo. Uma delas levou ao Congresso Nacional projeto de lei para alterar o Código de Processo Penal e estabelecer que o juiz, por ocasião da sentença penal condenatória, deverá ajustar o regime de cumprimento da pena privativa de liberdade ou de internação ao tempo de prisão provisória ou medida de segurança já cumprido pelo sentenciado.

Com o propósito de racionalizar o sistema de execução penal, fornecendo mecanismos eficazes ao reconhecimento célere de direitos e benefícios, e evitar o encarceramento desnecessário de pessoas cuja situação jurídica já lhes permite maior aproximação da liberdade, a nova legislação funcionará como mais um mecanismo de acesso à Justiça da população carcerária.

A detração consiste no cômputo da prisão provisória no tempo de cumprimento de pena ou de internação, no caso de medida de segurança, antes do início da execução e se fundamenta no princípio da equidade e na vedação ao bis in idem [2], a nova legislação autoriza o juiz do conhecimento a efetuar o desconto já na sentença penal condenatória e ajustar o regime inicial de cumprimento da pena, permitindo que o indivíduo — cujo direito somente seria reconhecido meses depois pelo juiz da execução penal quando já protocolada a guia de recolhimento - possa dele desfrutar imediatamente.

Significa dizer que a recente lei antecipa o reconhecimento de direito legalmente assegurado sem a necessidade de esperar a burocracia do sistema de justiça, porquanto do sentenciado será, forçosamente, descontado o tempo de prisão provisória ou de internação, reforçando a garantia fundamental de individualização da pena, presente no artigo 5º, inciso XLVI, da Constituição Federal.

A abreviação deste tempo tem especial impacto na realidade prisional brasileira, infelizmente marcada por todas as deficiências já rotineiramente conhecidas que se espraiam por quase todo país. Não se trata de ampliação de qualquer benefício, mas de viabilização do reconhecimento de direito que será concedido em momento posterior. A nova lei nada mais é do que mero catalisador do instrumental judiciário, guardando estreita relação com o Programa Nacional de Apoio ao Sistema Prisional do governo federal, que o originou, e servindo para correção de situações manifestamente injustas.

Imbuída do racional espírito facilitador do reconhecimento de direitos, a nova legislação, no entanto, vem recebendo idêntica interpretação restritiva a que se deu à Lei 12.403/2011, conhecida como Nova Lei das Cautelares. Aqui e ali, a intenção projetada pelo legislador de fornecimento de instrumentos e mecanismos para evitar o desnecessário encarceramento tem surtido efeito oposto, em razão de interpretações absolutamente equivocadas.

A nova Lei de Detração não reduz ou suprime competência do juiz da execução penal [3]. Tão somente tem o objetivo, como já dito, de permitir ao condenado a adequação do regime de cumprimento de pena ao tempo de prisão provisória ou internação já cumprido, evitando disfunção do sistema de execução penal, que somente autoriza a operação, por força do artigo 107 da Lei 7.210/1984 (Lei de Execução Penal), quando já houver sido expedida guia de recolhimento meses depois. A diferença é que, a partir de agora, a competência será concorrente.

Ademais, aos que compreendem a inovação como progressão de regime, lembramos que a natureza da prisão cautelar eventualmente decretada não se confunde com a da prisão em regime fechado, esta decorrente de sentença condenatória. Ao juiz do conhecimento não caberá a análise de requisitos subjetivos para eventual progressão porque não se trata de concessão de nenhum benefício, senão de ajuste do tempo de pena já cumprido e cujo desconto apenas será antecipado. Por exemplo, se o indivíduo estiver preso provisoriamente há um ano e for condenado a seis anos em regime semiaberto, bastará ao juiz descontar o tempo de pena já cumprido e estabelecer o regime inicial adequado, qual seja, cinco anos em regime aberto. Outro exemplo, se este mesmo indivíduo, no momento da sentença, já não mais estiver preso provisoriamente, mas já tiver cumprido idêntico período, não há questionamento sobre requisito subjetivo, cabendo ao juiz a mesma operação.

Evita-se, assim, que o sujeito, cuja condenação foi menos gravosa do que a prisão cautelar tenha que, por força do artigo 107 da LEP, se recolher ao regime semiaberto e, no mesmo dia, efetuar pedido de detração e, consequentemente, ajustar o regime.

A interpretação segundo a qual a nova lei fornece ao juiz do conhecimento competência para concessão do benefício de progressão de regime reflete a equivocada intenção de seus defensores de confundir prisão cautelar e pena e, bem assim, reforçar entendimento de que aquela caracteriza antecipação desta, o que, sabemos, viola o princípio constitucional da presunção de inocência.

A interpretação desejada pelo legislador é a de fornecer ao juiz mais um instrumento para racionalização do processo de execução penal e tornar céleres os mecanismos de obtenção e eficácia de direitos, cujo resultado dependerá, sem dúvida, da boa interpretação jurisprudencial, através da qual poderemos ofertar à população melhores condições de acesso à justiça e à própria cidadania.

[1] BRASIL. Presidência da República. Ministério da Justiça lança Programa Nacional de Apoio ao Sistema Prisional. Disponível em: http://www2.planalto.gov.br/imprensa/noticias-de-governo/ministerio-da-justica-lanca-programa-nacional-de-apoio-ao-sistema-prisional. Acesso em 08 jan 13.
[2] FRANCO, Alberto Silva, BELLOQUE, Juliana. Codigo Penal e sua interpretação. 8ª Ed. São Paulo: RT, 2007, p.277.
[3] V. SILVA, César Dario Mariano da. A nova disciplina da detração penal II. Disponível em: http://www.midia.apmp.com.br/arquivos/pdf/artigos/2012__nova_disciplina.pdf. Acesso 10 jan 2013.
 

 é secretário de Assuntos Legislativos do Ministéro da Justiça. É também mestre em Direito Processual Civil.

Revista Consultor Jurídico, 22 de janeiro de 2013, 20h52

Comentários de leitores

6 comentários

equívocos

Prætor (Outros)

Esta inovação é natimorta. Logo logo será rechaçada pelo Poder Judiciário porque é flagrantemente inconstitucional, permitindo tratamento díspar a pessoas nas mesmas condições penais, mas que, por razões processuais, tenham respondido (ou não) o processo recolhidas.
Por outro lado, é evidente que há invasão de competência do juízo da execução.
Mais ainda, técnica e praticamente, não é possível unificar a pena (para fins de fixação de regime) no momento do sentenciamento, pois sequer se sabe, naquele momento, se a pena será esta mesmo ou se será modificada com eventual recurso da defesa ou acusação.
A sanha da impunidade no Brasil (e do descompromisso do Executivo Federal na área penal) é tão avassaladora que estas leis pipocam diariamente com um único objetivo: deixar livres os bandidos para assassinarem e roubarem as pessoas de bem.

equívocos

Prætor (Outros)

Esta inovação é natimorta. Logo logo será rechaçada pelo Poder Judiciário porque é flagrantemente inconstitucional, permitindo tratamento díspar a pessoas nas mesmas condições penais, mas que, por razões processuais, tenham respondido (ou não) o processo recolhidas.
Por outro lado, é evidente que há invasão de competência do juízo da execução.
Mais ainda, técnica e praticamente, não é possível unificar a pena (para fins de fixação de regime) no momento do sentenciamento, pois sequer se sabe, naquele momento, se a pena será esta mesmo ou se será modificada com eventual recurso da defesa ou acusação.
A sanha da impunidade no Brasil (e do descompromisso do Executivo Federal na área penal) é tão avassaladora que estas leis pipocam diariamente com um único objetivo: deixar livres os bandidos para assassinarem e roubarem as pessoas de bem.

equívocos

Prætor (Outros)

Esta inovação é natimorta. Logo logo será rechaçada pelo Poder Judiciário porque é flagrantemente inconstitucional, permitindo tratamento díspar a pessoas nas mesmas condições penais, mas que, por razões processuais, tenham respondido (ou não) o processo recolhidas.
Por outro lado, é evidente que há invasão de competência do juízo da execução.
Mais ainda, técnica e praticamente, não é possível unificar a pena (para fins de fixação de regime) no momento do sentenciamento, pois sequer se sabe, naquele momento, se a pena será esta mesmo ou se será modificada com eventual recurso da defesa ou acusação.
A sanha da impunidade no Brasil (e do descompromisso do Executivo Federal na área penal) é tão avassaladora que estas leis pipocam diariamente com um único objetivo: deixar livres os bandidos para assassinarem e roubarem as pessoas de bem.

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