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Direito & Mídia

Irineu Marinho, belo presente de Natal

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Caricatura: Carlos Costa - Jornalista [Spacca]Embora quase todos digam previamente “O importante é a sua presença”, os sorrisos se abrem quando os presentes se acumulam numa festa de aniversário ou em datas como o Natal — ou o Dia dos Reis, em países de tradição hispânica, onde não é o papai Noel, mas são os três Magos que trazem as surpresas. Dar presente não é algo tão simples. Quando ganho livro, fico constrangido de festejar o “mimo” nesses tempos de obras de auto-ajuda ou ficção meia-boca, que saem em séries de até oito continuações.

Foi mais ou menos com essa prevenção que desembrulhei o luxuoso Irineu Marinho, Imprensa e Cidade, da historiadora Maria Alice Rezende de Carvalho. Editado pela Globo Livros na coleção “Memória Globo”, aí é que o pé-atrás foi ainda mais para trás. De início, relacionei o livro com a hagiografia cometida por Pedro Bial, Roberto Marinho (2004), para a mesma coleção. Pedro Bial tem um texto bom de ler, mas o tom deslumbrado de funcionário da emissora de TV criada pelo filho de Irineu não pode ser levado a sério, meio como os contos da carochinha. Faz lembrar algumas “vidas de Lutero” escritas por seus seguidores e analisadas por Lucien Febvre (Martinho Lutero, um destino): o menino não mamava nas sextas-feiras, segundo esses biógrafos, em homenagem à morte de Cristo. No livro de Bial, bem mais raso, há um ocultamento de fatos, lapsos imperdoáveis e sobretudo uma tentativa de tornar apenas brilhante um personagem que escreveu também passagens cinzas, para não dizer tenebrosas.

Mas o trabalho de Maria Alice Rezende de Carvalho é farinha de outro saco. O livro Irineu Marinho, Imprensa e Cidade (R$ 40,00 no site da Saraiva) é resultado de uma pesquisa profissional de historiadora, com o suporte do acervo não apenas da Globo, mas de outras instituições, como a Casa de Rui Barbosa e a Biblioteca Nacional, além de cartas, documentos, fotos, certidões do criador do jornal A Noite. O prefácio do historiador José Murilo de Carvalho, um dos bastiões da Academia Brasileira de Letras, é um aval de peso. Escreve ele: “Irineu Marinho encarnou um exemplo de ascensão de portugueses, ou seus descendentes, no Rio de Janeiro, baseado em grande esforço próprio, mas contando sempre com boa ajuda dos patrícios. No caso de Irineu, a ajuda se fez presente na fundação de seu primeiro jornal, A Noite, em 1911”.

O texto de Maria Alice Rezende de Carvalho é um dos trunfos do livro. Com clareza e concisão, ela vai desenrolando seu novelo narrativo. Começa com “Uma história plausível”, em que dialoga sobre o trabalho: uma análise do jornalismo praticado no início do século XX que se baseia na trajetória de Irineu Marinho e do seu jornal A Noite. “Não é uma biografia, embora contenha informações sobre sua vida, tampouco uma história da imprensa daquela época, ainda que também aborde esse tema. Trata-se de um olhar sobre o jornalista e sua atividade. Irineu Marinho será aqui apresentado pelo que fez e não exatamente por quem foi, imaginou ser ou lhe coube socialmente representar”, escreve a autora no primeiro parágrafo do capítulo inicial.

A historiadora vai contando essa análise em capítulos de pouco mais de uma dezena de páginas, criteriosamente ilustradas (fotos de família, certiões, passagens de navio, máquinas impressoras, o close de uma máquina de escrever Royal, uma charge, um cartaz de cinema, reproduções de periódicos, com destaque para as primeiras páginas de A Noite).

Professor de História da Comunicação, sabia relativamente muito sobre o personagem, que iniciou na prática jornalística ainda no colégio em Niterói, editando O Ensaio (o livro reproduz a capa do número 4) e seguiu como revisor de importantes jornais da época, como a Gazeta de Notícias. Intuindo que os tempos mudavam, conseguiu levantar investimento para lançar o seu inovador A Noite — inspirado na matriz americana do jornalismo popular, feito para o povo e não para a elite. Uma das inspirações de Irineu foi o jornal popular francês Le Matin, graficamente moderno, de que tirou algumas ideias e elementos decorativos que diferenciaram seu jornal. Imagens, textos, linguagem acessível.

“A fórmula traduzia, à perfeição, o que William Hearst, magnata norte-americano das comunicações, consagrara como o novo jornalismo: a associação entre notícia e entretenimento. Na síntese estampada em A Noite: ‘Prazer de ler – satisfação de ver’”, escreve Maria Alice Carvalho.

Perseguido por Hermes da Fonseca (teve de se esconder na Embaixada da Argentina em 1914), preso em 1922 por Epitácio Pessoa, passando uma temporada de quatro meses na Ilha das Cobras, que abalou profundamente sua saúde desde sempre débil, Irineu partiu para o auto-exílio na Europa durante a presidência de Artur Bernardes. Seu jornal, voltado para o povão, não deixava de se engajar na discussão de um país que ele torcia para ver mais moderno.

Foi durante essa viagem para a Europa, realizada com toda a família e agregados em 1924, que Irineu frequentou as estações de águas de Montecatini, buscando se recuperar de uma cirurgia complicada da pleura, realizado no início do ano — uma das heranças da temporada de prisão na Ilha das Cobras. Quando o ano chegava ao fim, levou um tombo aplicado pelo sócio Geraldo Rocha, com que fizera um pacto verbal, transferindo-lhe temporariamente o controle acionário do jornal — numa negociação que nunca foi devidamente esclarecida. Traduzindo em miúdos, o jornal deixara de ser seu: 17 de março de 1925 foi a última vez que seu nome saía na capa de A Noite.

O que faltava saber sobre esse jornalista que marcou o primeiro quartil do século passado? Que ele iniciara como repórter ainda nos tempos de revisor da Gazeta de Notícias, de que chegou a ser diretor financeiro. Trabalhou na Tribuna com um dos ícones do jornalismo da época, Alcindo Guanabara. Como se disse, ele vislumbrou que a imprensa começava uma fase nova em todo o mundo, buscando atingir leitores e viver com a venda de seu produto, e não dependendo de dotações governamentais ou de partidos. Irineu bebeu na fonte do modelo americano dos jornais populares. A Noite tratava de política e de futebol, crimes, fait divers. Dava prognósticos da loteria, criava campanhas, apostava na participação do público.

No início de A Noite, lançara muitas campanhas. A primeira delas, “Melhoremos os subúrbios”, foi seguida pela da criação do Aeroclube do Brasil (1911), e da Casa do Artista, idealizada por Leopoldo Froes (1915). Seguiu-se, em parceria com a Revista da Semana, a escolha da “Mulher mais bela do Brasil” (com participação de jornais de todo o país, venceu a santista Zezé Leone). Publicou grandes reportagens: “Como é fácil roubar”; “Duas semanas entre mendigos”; “Entre as fazedoras de anjos” (contra o aborto); e “A sensacional história de um faquir”, de 1915, a mais famosa delas.

Nesse mesmo 1915, inicia a publicação em folhetim do romance Numa e a Ninfa, de Lima Barreto, ao longo de 52 edições do jornal. Para a versão em livro, criou a editora Romances Populares, que lançou diversos autores. Apadrinha o grupo musical Os 8 Batutas, liderados por Donga e Pixinguinha, que viajam pelo país e o exterior, com estrondoso sucesso em Paris, num embrião da consciência da cultura nacional que 40 anos depois desembocará na bossa nova, de apelo internacional.

Em 1917, cria a Veritas Film, produtora cinematográfica que realizou “películas espetaculares sobre crimes e outros sintomas da vida carioca”. A Quadrilha do Esqueleto, filme de estreia, teve participação do mitológico ator teatral Procópio Ferreira no papel de um repórter, e continha cenas de perseguição nos cabos do bondinho do Pão de Açúcar. Uma proeza.

Com a perda do jornal, Irineu, com a saúde em situação cada vez mais crítica, reuniu forças e apelou para seu longo arsenal de estratégias. Dois meses depois, lançava um concurso popular para escolher o nome de seu novo jornal. Em 14 de julho, distribui como brinde a partitura do fox-trote O Globo, o nome escolhido para a nova publicação, que chega às ruas dia 29 de julho de 1925. Morre 23 dias depois, em 21 de agosto, de um enfarte fulminante.

“No caso de Irineu, seu triunfo final — a criação do jornal O Globo, apenas quatro meses após perder A Noite — será também uma das causas do seu esquecimento, pois o sucesso da nova empresa a projetará para frente, para o futuro, apagando involuntariamente seus rastros, sua pré-história”, escreve a autora. Um mundo terminava no Brasil de então. Irineu foi um homem de seu tempo. E morreu com ele, finaliza Maria Alice Carvalho.

O livro traz ainda um encarte, na contracapa: um facsímile da edição da segunda-feira, 3 de março de 1924. “Está na hora” é a manchete desta edição carnavalesca. Realmente, essa é uma das obras de que se pode afirmar: “Imperdível”.

 é jornalista, professor da Faculdade Cásper Líbero e editor da revista diálogos & debates.

Revista Consultor Jurídico, 2 de janeiro de 2013, 8h00

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