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Embargos Culturais

Sigmund Freud e o “sonho da monografia de botânica”

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Inserido no capítulo V da Interpretação dos Sonhos (Die Traumdeutung), a análise do sonho da monografia de botânica é fragmento dos textos freudianos que avalia o problema do material e das fontes dos sonhos. Como estrategista nas guerras da verdade, Freud insistia que teoria e terapia eram substancialmente a mesma coisa[1]. E combinava na experiência pessoal estes dois campos, teorizando e praticando, a partir de si mesmo.

Freud apontou e discorreu sobre o material que decorre das experiências da infância, sobre as fontes somáticas da atividade onírica, bem como explorou alguns sonhos que nominou de sonhos típicos. Exemplificou o modelo com sonhos embaraçosos de estar despido, com sonhos sobre a morte de pessoas queridas, com sonhos de exame, com sonhos de voar e cair[2]. E demonstrou de onde colheu material para as avaliações que propunha.

Especialmente, avaliou o impacto de experiências então recentes no conteúdo dos sonhos, e o fez com a análise do sonho da monografia de botânica. Freud trabalhou com o próprio sonho, ainda mais uma vez, comprovando-nos perspectiva de que sua própria experiência lhe era central[3].

Freud afirmou que as fontes do sonho radicam, especialmente,

a) na experiência recente e psiquicamente significativa, diretamente representada no sonho;
b) em várias experiências recentes e significativas, plasmadas no conteúdo do sonho pela menção a uma experiência contemporânea, ainda que irrelevante;
c) em uma experiência significativa interna, estigmatizada no sonho por uma impressão recente, também ainda que irrelevante[4].

Conclusivamente, o sonho da monografia de botânica suscitou a observação de que "um componente do conteúdo do sonho é a repetição de uma impressão recente do dia anterior"[5]. Isto é, a par da realização de um desejo, tal como apontado no sonho da injeção de Irma, outros elementos haveria na definição do conteúdo de um sonho, a exemplo dos resquícios da experiência vivida na vigília.

A análise do sonho da monografia de botânica se inicia com a descrição do referido sonho. Segundo Freud:

Eu escrevera uma monografia sobre certa planta. O livro estava diante de mim e, no momento, eu virava uma página dobrada que continha uma prancha colorida. Encadernado com cada exemplar havia um espécime seco de planta, como se tivesse sido retirado de um herbário[6].

Freud observou que na manhã do dia do sonho vira um livro exposto numa livraria. O livro tinha como título O Gênero Ciclâmen. Tratava-se de uma monografia sobre a planta que leva este nome. O ciclâmen tem folhas que lembram as asas das borboletas. Freud observou que o ciclâmen era a flor predileta de sua mulher. Freud também se lembrou (com pesar) que raramente levava flores para a esposa[7].

Observou que um esquecimento (aparentemente involuntário) seria indicativo de motivo inconsciente, mas real. Mencionou o caso de uma mulher que chorou quando — no dia do próprio aniversário — o marido chegara a casa sem nenhum presente, e revelando que se esquecera de que era a data do aniversário da esposa.

O marido teria dito, então, que sairia imediatamente para comprar flores, o que, para a negligenciada esposa, já não adiantava mais nada. Muito significativo era o esquecimento. Freud observou que aquela mulher havia encontrado sua esposa e que fora também sua paciente[8]. Associava vários fatos num mesmo planisfério do sonho.

Na continuidade, Freud lembrou que havia escrito uma monografia sobre uma planta, a coca, e que estudou as qualidades e as possibilidades do alcaloide que se obtém das folhas da coca. No entanto, por várias razões, registrou que não levou adiante a ideia.

Observou também que comentou sobre as propriedades da cocaína com um colega, Koller, e que mais tarde soube, ao ler uma revista científica, que Koller havia apresentado à comunidade científica uma pesquisa sobre as qualidades anestésicas da coca, como se a investigação fosse de sua autoria e originalidade[9]. A situação o aborreceu muito.

A relação entre Freud e Carl Koller, a propósito das experiências com o uso da cocaína, foi relatada exaustivamente por um biógrafo, que inclusive menciona uma carta que Freud teria escrito para sua cunhada, Minna Bernays, datada de 29 de outubro de 1884, na qual Freud se queixava que os experimentos com a coca lhe trouxeram algum reconhecimento, embora a parte do leão ficara com os outros[10].

Freud observou também que naquele sonho havia uma espécie seca de planta. Lembrou-se então de seus anos de estudante secundarista, quando colaborou na manutenção de um herbário, com os demais colegas da escola. Registrou também que o professor não confiava muito em suas habilidades. Afinal, Freud reconheceu que não havia sido um bom aluno de botânica[11].

Há em seguida uma discussão que Freud encaminhou a respeito da expressão ver diante de mim, que provavelmente se reportava a uma carta que recebera no dia anterior[12].

No que se refere à imagem de uma prancha colorida dobrada, que ocorre no sonho, Freud confessou que adorava estudar por monografias, e que tinha especial deleite no estudo das pranchas coloridas que as monografias continham.

Referiu-se então a uma paixão que não o abandonava: adorava colecionar e possuir livros. Estudar as pranchas nas monografias que adquiria era seu passatempo favorito.

Via-se como uma traça de livros ou como um rato de biblioteca, como diríamos no Brasil. Freud lembrou que aos 17 anos assumira uma dívida muito grande com um livreiro, que não conseguia pagar. Pediu ajuda ao pai. Observou que seu pai teve dificuldade em aceitar a situação, em face do que Freud teria obtemperado que poderia ter havido algo pior[13].

Insistiu que se propunha a ilustrar com um exemplo a relação que inegavelmente haveria entre o conteúdo de um sonho e a experiência vivida na véspera[14]. Tratou, em seguida, do que chamou de conteúdo manifesto de um sonho, especialmente no que se refere a influência que a experiência da vigília nos provoca, isto é, no sonho[15], e não no sono, bem entendido, como Freud fez questão de frisar[16].

Freud observou também que os “sonhos tem preferência em captar detalhes sem importância da vida da vigília”[17]. Assim, afirmou que “nossos pensamentos oníricos são dominados pelo mesmo material que nos ocupamos durante o dia e só nos damos o trabalho de sonhar com as coisas que nos deram motivo para reflexão durante o dia”[18]. Há muitas relações entre o que se vive ao longo do dia e o que sonha pela noite.

Freud mencionou o fenômeno da distorção onírica, isto é, embora a causa do sonho tenha sido uma impressão diurna, pode-se sonhar com algo cuja referencial seja irrelevante.

Resulta da observação a necessidade de se relacionar dois eventos; a exemplo do próprio sonho da monografia de botânica que vinculava o livro visto na livraria com uma conversa que Freud tivera com um oftalmologista. Ilustrando a relação entre circunstâncias distintas Freud citou um trecho de Hamlet, no qual o bardo afirmava que para se dizer que algo fosse supérfluo não seria necessário que um fantasma deixasse a sepultura...[19]

Freud afirmou que o sonho também substancializa a fusão entre grupos distintos de representações, ainda que, admitiu, tal premissa pudesse ser impugnada e acusada de arbitrária e superficial[20]. Além do que, lembra um comentarista, “o sentido de um sonho nunca se esgota numa única interpretação, e isso porque todo sonho é sobredeterminado, isto é, um mesmo elemento do sonho manifesto pode nos remeter a séries de pensamentos latentes inteiramente diferentes”[21].

Suscitou então Freud o que denominou de “deslocamento da ênfase psíquica, no sentido de que (...) o fato de o conteúdo dos sonhos incluir restos de experiências triviais deve [deveria] ser explicado como uma manifestação de distorção onírica (por deslocamento)[22]. De tal modo, (...) a distorção onírica seria o produto de uma censura que opera na passagem entre duas atividades físicas”[23]. Assim, para Freud:

Se durante um único dia tivermos duas ou mais experiências adequadas à provocação de um sonho, ele fará referência conjunta a elas como um todo único: ele é forçado a combiná-las numa unidade[24] .

A questão proposta no sonho da monografia de botânica se centrava na pesquisa da fonte investigadora de um sonho (e não necessariamente no sonho), revelada na análise; isto é, se o fato condicionante deveria necessariamente ser recente e significativo, ou se a origem do material sonhado pudesse ser mera lembrança de fato psiquicamente importante, revelador de experiência interna substancialmente importante[25].

Freud nos ensina que todo sonho contém também a repetição de uma experiência vivida no dia anterior ao sonho[26], argumento que se acrescenta à percepção do sonho enquanto realização de um desejo.

Sonhos refletem condensações e deslocamentos[27], num nicho da existência no qual não há inocência. Para Freud, “os sonhos aparentemente inocentes revelam ser justamente o inverso quando nos damos o trabalho de analisa-los (...) são (...) lobos em pele de cordeiro”[28]. É justamente este abandono de uma inocência cultural e comportamental que qualifica a obra de Freud, como distintamente problematizadora da moral ocidental.

Bibliografia
Freud, Sigmund, A Interpretação dos Sonhos, Rio de Janeiro: Imago, 1996.
Garcia-Roza, Luiz Alfredo, Freud e o inconsciente, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Gay, Peter, Freud, a life for our time, New York: Norton, 1988.
Kramer, Peter D., Freud, criador da mente moderna, Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. Tradução de Rosaura Eichenberg.
Mezan, Renato, Freud, pensador da cultura, São Paul: Companhia das Letras, 2006.
Rieff, Philipp, Freud: The mind of a moralist, Chicago: Chicago University Press, 1979.
Rothgeb, Charlie Lee (coord.), Chaves-resumo das obras completas/Sigmund Freud, São Paulo: Atheneu, 1998. Tradução de Paulo Rzezinski.
Wolheim, Richard, Sigmund Freud, New York: The Viking Press, 1971.

[1] Cf. Rieff, Philipp, Freud: The mind of a moralist, Chicago: Chicago University Press, 1979, p. 102.
[2] Cf. Freud, Sigmund, A Interpretação dos Sonhos, Rio de Janeiro: Imago, 1996, pp. 195-302. Para um resumo, conferir Rothgeb, Charlie Lee (coord.), Chaves-resumo das obras completas/Sigmund Freud, São Paulo: Atheneu, 1998, pp.135-136. Tradução de Paulo Rzezinski.
[3] Cf. Kramer, Peter D., Freud, criador da mente moderna, Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 94. Tradução de Rosaura Eichenberg.
[4] Cf. Freud, Sigmund, cit., p. 210.
[5] Cf. Freud, Sigmund, cit., loc. cit.
[6] Freud, Sigmund, cit., p. 200.
[7] Cf. Freud, Sigmund, cit., loc. cit.
[8] Cf. Freud, Sigmund, cit., p. 201.
[9] Cf. Freud, Sigmund, cit., p. 202.
[10] Cf. Gay, Peter, Freud, a life for our time, New York: Norton, 1988, p. 43.
[11] Cf. Freud, Sigmund, cit., loc. cit.
[12] Cf. Freud, Sigmund, cit., p. 202-203.
[13] Cf. Freud, Sigmund, cit., p. 203.
[14] Cf. Freud, Sigmund, cit., p. 204.
[15] Cf. Freud, Sigmund, cit., loc. cit.
[16] Cf. Freud, Sigmund, cit., p. 211.
[17] Cf. Freud, Sigmund, cit., p. 205.
[18] Freud, Sigmund, cit., loc. cit.
[19] Cf. Freud, Sigmund, cit., p. 206.
[20] Cf. Freud, Sigmund, cit., loc. cit.
[21] Garcia-Roza, Luiz Alfredo, Freud e o inconsciente, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 69.
[22] Freud, Sigmund, cit., p. 208.
[23] Freud, Sigmund, cit., loc. cit.
[24] Freud, Sigmund, cit., p. 209.
[25] Cf. Freud, Sigmund, cit., p. 210.
[26] Cf. Wolheim, Richard, Sigmund Freud, New York: The Viking Press, 1971, p. 70.
[27] F. Mezan, Renato, Freud, pensador da cultura, São Paul: Companhia das Letras, 2006, p. 162.
[28] Freud, Sigmund, cit., p. 213.

 é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela Faculdade de Direito da USP, doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP, professor e pesquisador visitante na Universidade da California (Berkeley) e no Instituto Max-Planck de História do Direito Europeu (Frankfurt).

Revista Consultor Jurídico, 15 de dezembro de 2013, 8h00

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