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Ideias do Milênio

EUA precisam mudar comportamento sobre armas

Entrevista concedida pelo economista norte-americano David Hemenway ao jornalista Jorge Pontual, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30. 

A violência no dia a dia, com pessoas mortas e feridas a tiro, é um problema mundial. Nos Estados Unidos, o único país desenvolvido com alto número de vítimas, 85 por dia, a opinião pública exigiu soluções depois da tragédia da escola de Newtown, onde 20 crianças e seis adultos foram mortos a tiros em dezembro por um jovem que tinha livre acesso a armas de fogo. Como enfrentar o problema? O congresso americano está discutindo a adoção de leis mais rigorosas para controlar essas armas, medidas que já foram tomadas antes sem sucesso. O Milênio foi à Universidade Harvard para ouvir o economista David Hemenway, que dirige o principal centro de estudos dos danos causados pelas armas de fogo nos Estados Unidos. Ele diz que a violência deve ser enfrentada como um problema de saúde pública. Todos são atingidos, não só as vítimas diretas. As causas são múltiplas e é necessário uma rede de medidas preventivas. Assim como epidemias são debeladas através da políticas de saúde pública, a violência crônica também pode ser enfrentada com sucesso.

Jorge Pontual — É importante dizer que o Brasil é bem diferente dos Estados Unidos, mas, quando pesquisei o assunto, encontrei vários números, estatísticas recentes sobre os Estados Unidos, que nós não temos no Brasil.
David Hemenway — Nós temos um sistema de banco de dados muito bom. As estatísticas são excelentes. Elas mostram quantas pessoas, incluindo idade e sexo, morreram de câncer, doenças cardíacas, afogamento etc. Mas elas não esclarecem as circunstâncias das mortes. Só sabemos quem morreu e do que morreu. Mas o que interessa, do ponto de vista da prevenção, é entender quais foram as circunstâncias da morte, para que se faça algo a respeito.

Jorge Pontual — O conceito de saúde pública que não visa encontrar culpados. A prevenção quer mudar o ambiente, certo?
David Hemenway — Exato. E eu acho que encontrar culpados dificulta mais as coisas, pois o que vale é o: “A culpa é deles, não preciso fazer nada.” O que tentamos fazer é esquecer os culpados e tentar prevenir. Olhar para trás e pensar como se poderia evitar que essas coisas acontecessem.

Jorge Pontual — É como uma reengenharia.
David Hemenway — Exato. E, muitas vezes, essa é a solução. Muitas vezes, a maneira de melhorar as coisas é melhorando o sistema. Pode ser um sistema de engenharia. Em medicina, muitas vezes, basta dificultar a aplicação do medicamento errado. Hoje, isso é muito fácil, e não é surpresa que as pessoas tomem os remédios errados. Se isso for impossível, ocorrerá com poucas pessoas. Um exemplo são os veículos a motor, algo que nem está ligado à segurança. Antigamente, ao abastecer o carro, você tirava a tampa do tanque e colocava combustível. E, uma vez a cada dez anos, eu esquecia a tampa no posto. E era: “Ah, que burrice!”

Jorge Pontual — Uma vez a cada dez anos? Eu esquecia todo ano ou mês.
David Hemenway — Mas, hoje, isso não é possível, a tampa é presa. Assim, esse erro não acontece mais. Então, em vez de culpar a sua distração, o que fizeram foi resolver o problema. E a saúde pública, na verdade, deve fazer isso. E, muitas vezes, o que se faz é reunir várias pessoas em prol da saúde pública.

Jorge Pontual — Quando aconteceu o massacre de Newtown, nós vimos dois extremos, como de costume. Um lado quer banir todas as armas de fogo, e o outro quer armar todo mundo, pois todos estariam mais seguros se todos tivessem uma arma. Você está no meio porque tem a visão da saúde pública. Conte-nos o que essa visão pode fazer nesta questão.
David Hemenway — Eu vou precisar dar uma resposta comprida, se possível, porque acho que as pessoas entendem analogias. Eu escrevi um livro sobre histórias de sucesso e há muitas histórias de sucesso na saúde pública, por isso somos muito otimistas. A analogia que quero fazer é com os carros, porque temos muitos carros nos Estados Unidos, e, com o tempo, aprendemos a conviver com eles — pelo menos, a conviver melhor. Nós também temos muitas armas e vamos continuar tendo. Temos uma interpretação da 2a Emenda que afirma que todos têm direito de ter armas em casa. Haverá muitas armas, e muitas pessoas gostam de armas. Hoje morremos pelas armas. Queremos aprender a viver com elas. O sucesso com os carros foi este. Na década de 1950, quando eu era criança, a culpa de tudo era sempre do motorista. O motorista era burro, imprudente, bêbado etc. A indústria automobilística dizia o que o lobby das armas diz hoje: “Carros não matam, as pessoas matam.” E o que se resolveu foi educar os motoristas, treiná-los e aplicar as leis do trânsito.

Jorge Pontual — Quanto mais responsáveis são as pessoas, mais seguro fica.
David Hemenway — E, sem dúvida, se todos fossem perfeitos, não haveria acidentes. Mas as pessoas não são perfeitas e nunca serão. Nos anos 1950, os médicos da saúde pública fizeram outra pergunta: não quem causou o acidente, mas o que causou os ferimentos. Eles viram que as pessoas morriam quando o volante batia no peito, pois os volantes não desmontavam. O rosto era todo cortado pelo para-brisa, pois ele não era feito de vidro de segurança. As pessoas eram jogadas do carro porque não havia airbags ou cintos. Se elas perdessem o controle e saíssem da estrada por um segundo, bateriam em árvores ou postes, que ficavam no meio das ruas.

Jorge Pontual — No Brasil ainda é assim.
David Hemenway — As pessoas se perguntaram: “Podemos tornar o carro mais seguro? Deixar as estradas mais seguras? Podemos ter um sistema de emergência médica melhor?” Bem, 60 anos se passaram e ninguém acha que as pessoas dirigem melhor. Ainda podemos dizer que 90% dos acidentes são causados por erro do motorista, e 50% das mortes no trânsito são causadas por infração às leis. Mas as mortes por quilômetro rodado nos EUA caíram mais de 90%. É uma grande história de sucesso da saúde pública. Em vez de ter 34 mil acidentes por ano, poderíamos ter mais de 300 mil, se não tivéssemos melhorado os carros e as estradas. Então, na saúde pública, o que se acredita é na criação de um sistema que dificulte os erros. E nós queremos usar a mesma abordagem com as armas. Nós temos várias armas. O que a sociedade pode fazer o que os fabricantes podem fazer, o que os distribuidores podem fazer, o que os donos de armas podem fazer para fazer a diferença em um país cheio de armas? Como podemos mudar as normas da sociedade? Há muitas coisas que podemos fazer, todas elas com grande apoio da população, dos donos de armas e da maioria dos membros da NRA, a associação nacional de rifles.

Jorge Pontual — Mas ainda há muitos obstáculos. Por que você está otimista?
David Hemenway — Acho que sou otimista porque trabalho com saúde pública e já vi muitas histórias de sucesso. Um dos grande sucessos nos EUA foi contra o tabagismo. Trinta anos atrás diziam para mim e para todos que o lobby mais forte não só nos EUA, mas no mundo todo, era o da indústria do tabaco. Que nunca se poderia fazer nada. Mas, de alguma maneira, ainda não resolvemos o problema, mas ele é muito menor do que era. Basta mudar as normas sociais.

Jorge Pontual — Como se muda uma norma social?
David Hemenway — Nem sempre é fácil. Não é fácil. Há diferentes maneiras, mas ninguém sabe bem. Não há uma literatura ensinando como fazer. O que eu posso dizer é que há vários exemplos de mudanças nas normas sociais. No caso de motoristas alcoolizados, foi a pressão popular. Mães lutando contra isso que disseram: “temos que fazer alguma coisa pelos nossos filhos.” Surgiram grupos propondo programas como o “motorista da vez”. Era algo que se podia fazer. Em um ano, nos EUA, as pessoas entenderam o que era o programa “motorista da vez”, pois Hollywood começou a promovê-lo. Temos a campanha “amigos não deixam amigos dirigirem alcoolizados”. Há toda uma série de ações contra essa prática. Uma das peças-chave é que, em todo acidente com morte, antes, apenas se dizia quem morreu e como foi o acidente, mas, hoje, praticamente todos os boletins dizem que as pessoas usavam cinto e que alguém havia bebido. E se repete que as normas da sociedade dizem para não beber. Se você bebeu, fez algo errado, a culpa é sua, que não deveria ter bebido. Isso mudou tudo. E há várias normas sociais sobre armas que podemos mudar.

Jorge Pontual — Você falou de sucesso. Aqui, em Boston, vocês têm o Boston Miracle, certo? O que foi isso, nos anos 1990?
David Hemenway — Uma das coisas que fizemos foi criar uma boa política de imposição da lei. Foi um trabalho diferente da polícia, que, de antemão, avisou o que iria fazer e o que iria acontecer — o que a polícia normalmente nunca faz. A lei foi imposta a grupos e não a indivíduos, usando o que eu chamo de “estratégia Al Capone”. Al Capone foi um gângster da década de 1930 e ele não foi preso por todas as coisas horríveis que fez, mas por sonegação de impostos. E foi isso que o deixou preso por tanto tempo. O que foi feito rapidamente foi reunir todas as forças policiais para que trabalhassem juntas. Além disso, 5% da polícia se concentraria em crimes violentos com armas cometidos por gangues. Reunimos todas as gangues, com a presença das avós dos membros e de toda a comunidade e explicamos que aquelas eram as novas regras do jogo.

Jorge Pontual — A chave foi o trabalho da comunidade?
David Hemenway — A comunidade e a polícia juntas. E levando a comunidade a confiar na polícia, e vice-versa. O que as novas regras diziam, resumidamente, era: 95% da polícia continuará fazendo o que sempre fez. Mas esses 5% da polícia, os melhores, vão ficar de prontidão até que uma gangue comece a atirar. Não somos contrários às gangues, mas à violência, e, com toda certeza, contra tiros. Os tiroteios precisam parar. Então nós conhecemos e mapeamos todas as gangues, sabemos quem são seus membros. Se uma gangue começar o tiroteio — não importa quem atirou primeiro, nós vamos prender essas pessoas e 5% de todo o efetivo policial irá para cima delas. Essa se mostrou uma estratégia muito eficaz. Em vez de dizer que partiríamos para cima de todo mundo, concentraríamos nossa atenção no grupo que iniciasse o conflito. Assim, qualquer gangue poderia ser alvo da polícia. Depois que aconteceu com a primeira, ninguém quis ser o próximo. Então foi algo muito eficaz. Mas foi eficaz porque a comunidade se envolveu. Quando esses garotos se reuniram com a polícia, também estavam reunidos com suas avós, que diziam: “Não queremos que vocês sejam presos nem se matem. Vocês não estão ajudando a comunidade, só prejudicando.” E acho que foi a primeira vez que alguns deles ouviram aquilo. Eles pensavam que estavam desafiando o sistema branco matando uns aos outros — o que não consigo entender, mas era o que eles pensavam. E isso funcionou extremamente bem. Mas eu acho que o que importa é ter um pensamento inovador. A saúde pública é algo muito maior do que a justiça criminal. Ela envolve a justiça criminal, como parte do sistema, e também a comunidade. Se você confia na polícia e acha que ela faz um bom trabalho, em vez de vê-la como o inimigo, a coisa muda de figura.

Jorge Pontual — Eu conheço pessoas que possuem armas porque dizem se sentir mais seguras tendo uma arma em casa. O que as pesquisas dizem sobre isso?
David Hemenway — As pesquisas mostram que, para algumas pessoas, em algumas situações, elas dão segurança. Se alguém o persegue, você pode estar mais seguro se tiver uma arma. Mas, para as pessoas em geral, as famílias em geral, você está muito menos seguro tendo uma arma. Por que isso? Porque as armas são muito perigosas e letais. Ter uma arma em casa aumenta os riscos de disparos acidentais. Há algumas mortes assim, mas há muitas pessoas atingidas por disparos acidentais que não morrem. As indicações de que ter arma aumenta os riscos de suicídio é impressionante. Porque, se a arma estiver lá e for usada, a taxa de morte é de mais de 90%. Quando se usam métodos comuns, como medicamentos, essa taxa é de 2% ou 3%. Assim, não tendo armas, você praticamente salva uma vida. E a maioria das pessoas só planeja para algumas semanas e pensa: “Eu estava mal, mas agora estou péssimo e não posso fazer mais nada, eu preciso me matar”. E também temos muitas provas de que ter armas aumenta os riscos de morte para as mulheres em casa em qualquer tipo de situação que leve à violência doméstica. Ter armas é tão perigoso porque, em quase 99,99% das vezes, as pessoas não sabem usar a arma direito. Você pode atirar, mas, em termos de segurança, você não sabe usar a arma de forma apropriada. Pode ser que haja uma única chance de você usar a arma direito na vida, mas há provas de que nem sempre você se sairá melhor com elas. Você poderá se defender igualmente com um taco de beisebol ou correndo.

Jorge Pontual — Voltando à analogia com os carros, o que precisa mudar no produto para torná-lo mais seguro, para que as armas sejam mais seguras?
David Hemenway — Os produtores poderiam fazer várias coisas para diminuir a violência e o número de homicídios. Uma delas diz respeito aos números de série. Nossas armas não têm números de série únicos. Eles podem facilmente ser apagados, dificultando tudo. Podemos exigir que os fabricantes deem às armas um número de série único e que não possa ser apagado. Estamos no século 21. As armas podem deixar uma impressão única nos projéteis, como é exigido na Califórnia. Assim, após o disparo, com o projétil e a arma, além de podermos dizer que ele saiu daquele tipo de arma, saberemos se ele saiu daquela arma específica. Seriados de TV como “CSI” serão menos interessantes, mas isso é possível, sem dúvida. É possível produzir o que chamamos de “armas inteligentes”. Muitas vezes, as armas caem em mãos erradas porque são roubadas. Estima-se que cerca de meio milhão de armas são roubadas por ano nos EUA e caem nas mãos de criminosos. Quando eu era jovem e tinha carro, meu rádio foi roubado. Um tempo depois, coloquei um aviso na janela do carro dizendo: “Você pode roubar o rádio, mas ele não vai funcionar”. Nunca mais roubaram meu rádio. Podemos fazer o mesmo com as armas. Quem roubar uma arma não terá nada, pois ela não irá funcionar. Podemos fazer de modo que só o dono consiga usar a arma. Não é nada tão difícil nem usa tecnologia do século 21, mas do 20. Isso tudo ajudaria muito no combate ao crime, mas também reduziria os acidentes com armas. Eu estive recentemente numa reunião da Public Health Association em um restaurante. Alguma coisa caiu no chão, uma pessoa abaixou para pegar, e, do bolso dela caiu um revólver. Era um morador local. A arma caiu no chão, disparou, e duas moças da delegação foram atingidas.

Jorge Pontual — Estava carregada?
David Hemenway — Estava. E nós temos, nos EUA, armas que, ao cair no chão disparam. Não há necessidade disso. Nós precisamos de padrões de segurança.

Jorge Pontual — O lobby das armas diz que cidadãos responsáveis podem ter armas, que não se pode dar armas para os criminosos. Então há dois grupos: os bons e os maus.
David Hemenway — E, infelizmente, nos EUA, muitas vezes, esse à um argumento racista, pois os maus seriam os negros, os bons seriam os brancos. Nem sempre é assim, mas, algumas vezes, isso está implícito. É algo terrível e errado.

Jorge Pontual — E como a saúde pública vê isso?
David Hemenway — Eles veem que existem pessoas de todo tipo. Há pessoas muito más, pessoas muito boas e todo tipo de gente entre elas, que podem tender mais para um lado ou outro. Com pessoas realmente más, não se pode fazer muita coisa além de tentar tirá-las das ruas. Mas queremos fazer com que, para todas as outras, seja mais difícil cometer erros e se comportar inadequadamente. Menos gente se comportará inadequadamente. Se quiser reduzir a taxa de criminalidade no metrô, você coloca a polícia em toda parte, treina a população para agir com civilidade, mas ainda haverá crimes. O que fizeram no metrô de Washington foi tornar quase impossível cometer um crime ali. As pessoas de Washington não são melhores do que as de Boston, Atlanta ou Chicago, mas a taxa de criminalidade no metrô de Washington é aproximadamente 25% menor. Nessas outras cidades, ela é três ou quatro vezes maior do que em Washington apenas porque o sistema do metrô em si é diferente. Eles fazem tudo para impedir comportamentos inadequados. Se fosse fácil roubar um carro, várias pessoas roubariam. Mas é muito difícil. A taxa de roubo de carros nos EUA tem caído muito. É um sucesso enorme. E não porque os jovens, de repente, ficaram melhores. É porque é quase impossível roubar um carro.

Jorge Pontual — O lobby das armas agora culpa a cultura, certo? A cultura da violência.
David Hemenway — Exato.

Jorge Pontual — Estão culpando os videogames, os raps violentos, os filmes de Hollywood... Eles dizem que o problema está ali.
David Hemenway — Sem dúvida, nós precisamos melhorar em tudo. Podemos culpar a pobreza, que é importante, e devemos fazer algo. Existe racismo nos EUA, e devemos acabar com isso. Devemos melhorar a atitude dos pais com os filhos. Sem dúvida, devemos fazer tudo isso. Mas também temos que fazer algo com relação às armas. Nós sabemos que temos grandes problemas com armas se compararmos os EUA com os outros 25 países mais ricos do mundo.

Jorge Pontual — Eles veem os mesmos filmes, jogam os mesmos videogames...
David Hemenway — Eles tem as mesmas taxas de crimes cometidos sem armas de fogo e de atos de violência cometidos sem armas de fogo. Nós somos um país na média em tudo, com exceção das armas. Nós temos, de longe, a pior legislação para armas. Nós facilitamos o acesso a armas por criminosos, terroristas. Não é de surpreender que tenhamos esse problema com as armas.

Jorge Pontual — No seu livro, While We Were Sleeping você mostra história de sucesso na saúde pública, de heróis, pessoas que mudam a maneira como as coisas são feitas mesmo sem uma nova legislação, sem intervenção governamental, apenas com seu trabalho heroico.
David Hemenway — Exato.

Jorge Pontual — E você fala do Milagre de Boston. Como as pessoas de uma comunidade local conseguem mudar as coisas e mudar esse clima de fatalismo que as pessoas costumam ter? — “Não podemos fazer nada quanto a isso. Não tem solução.”
David Hemenway — Um dos motivos que me levou a escrever o livro foi mostrar para as pessoas que sempre há casos de sucesso. As pessoas entendem analogias muito bem. Mostramos que, se tivemos sucessos aqui e aqui, podemos ter aqui também. Não podemos dizer que faremos exatamente as mesmas coisas, mas sempre há maneiras diferentes de abordar os problemas, e às vezes bastam algumas poucas pessoas para animar os outros e realmente fazer a diferença. Com relação aos motoristas alcoolizados, bastou uma mulher para mobilizar várias pessoas.

Jorge Pontual — A organização Mothers Against Drunk Driving.
David Hemenway — Isso. E ela mudou tudo. Às vezes, são os médicos. Em algumas regiões dos EUA, temos esse problema horrível das crianças queimadas com água quente. E alguns pediatras foram estudar maneiras de resolver esse problema. O que eles fizeram foi propor uma lei para que os novos aquecedores de água viessem programados com uma temperatura razoável, não a máxima. Você até pode ir lá e aumentar a temperatura, mas as pessoas não fazem isso. Hoje, as crianças não se queimam. Basta ver a estatística. Nós salvamos várias crianças dessas terríveis queimaduras. Indivíduos podem fazer a diferença, grupos podem fazer a diferença, e eu escrevi o livro para dizer: “algumas pessoas já fizeram isso em várias áreas, e nós precisamos escolher uma área importante e fazer algo”. O livro traz muitas lições, mas uma delas é: “É muito mais difícil do que você imagina”. Você precisa pensar no longo prazo e sempre haverá pessoas contra você. Eu acho incrível que essas coisas aconteçam. Quando as pessoas tentavam salvar os olhos das crianças que jogavam hóquei infantil, crianças de 10, 12 anos, proibindo o taco acima do ombro, algumas pessoas reclamaram: “Não! Eu jogava assim! Fui atingido no rosto, mas está tudo bem hoje”. Sempre haverá pessoas contra você, mas a nossa causa é justa, e nós precisamos lutar, batalhar e não desistir. Você pode fazer a diferença porque é capaz de enxergar. Veja quantas pessoas conseguiram mudar algo. E nós hoje estamos dormindo por isso, porque há pessoas que lutam pelo bem comum e tornam a minha vida e a sua mais seguras. Isso me deixa muito otimista e muito feliz de estar neste ramo. Nem sempre essas pessoas têm formação em saúde pública, mas fazem um trabalho de saúde pública.

Revista Consultor Jurídico, 26 de abril de 2013, 8h00

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