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Ideias do Milênio

Capitalismo tem problemas, mas é o melhor sistema

Entrevista concedida pelo economista e professor de Cambridge Ha-Joon Chang, ao jornalista Silio Boccanera, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30.

Em meio às torres medievais da Universidade de Cambridge, no mesmo prédio onde um dia deu aulas o reverenciado economista britânico John Maynard Keynes, trabalha hoje o sul coreano Ha-Joon Chang, pesquisando e orientando alunos de pós-graduação em economia. Ele é autor de dois best-sellers nesta área de conhecimento: Derrubando a Escada e 23 Coisas Que Não Nos Contam Sobre o Capitalismo. O primeiro livro já lançado no Brasil, o outro a sair este ano. Chang é o que se costuma chamar de economista heterodoxo. Não segue a cartilha habitual de reverência ao chamado mercado livre, que ele compara a teologia católica na Europa Medieval, quer distância dos conceitos que sustentam o neoliberalismo. Ele acredita em política industrial e diz que todos os países ricos a adotaram com vigor na fase de ascensão e continuam a adotá-la disfarçadamente. Chang critica até sua própria especialidade de economista, recheada de tantos fracassos que, como ele diz em tom de piada, mas nem tanto, se fosse outra profissão, já teria sido banida e seus praticantes enforcados.

Silio Boccanera — Como sabemos, houve várias tentativas de explicar a crise financeira que atravessamos, e parece haver pelo menos duas teorias: uma que diz que o sistema falhou completamente, que ele não funcionou. A outra diz que o sistema capitalismo, que o livre mercado, funciona. Ele funciona, só precisa de retoques aqui e ali, de um pouco de regulamentação. O que você acha? O sistema está deteriorado ou ainda é o bom sistema?
Ha-Joon Chang —
Nem uma coisa nem outra. Eu acredito que o capitalismo tem muitos problemas, mas, como sistema, ele é, pelo menos até agora, o melhor sistema econômico inventado pela humanidade. Mas o tipo de capitalismo praticado nas últimas três décadas, esse capitalismo neoliberal de livre mercado, esse fracassou. Precisamos tomar medidas para endireitar isso. Também há certo problema em afirmar que o sistema em si é bom, só as regulamentações é que não funcionam. Porque, no final das contas, as regulamentações é que definem o sistema. Até 1888, no Brasil, era perfeitamente legal comprar e vender seres humanos.

Silio Boccanera — A escravidão.
Ha-Joon Chang —
Ao introduzir a regulamentação impedindo que isso aconteça, você termina com o mercado de escravos. Da mesma forma, pode-se argumentar que havia muitos derivativos financeiros complexos que eram problemáticos. Eles davam muito dinheiro àqueles que os negociavam, mas eram prejudiciais ao resto da sociedade. Poderíamos afirmar que deveríamos extinguir tais mercados, o que também seria regulamentação, mas você estaria mudando o sistema com essas regulamentações. Nós precisamos aceitar que o sistema fracassou, mas precisamos compreender o quê, exatamente, fracassou: o capitalismo em geral ou este capitalismo de livre mercado que tem sido praticado nos últimos 30 anos?

Silio Boccanera — Nos seus textos e palestras, você diz que esse tipo de capitalismo que se desenvolveu nos últimos anos é obcecado com a maximização dos lucros de curto prazo para os acionistas, que ele se concentra muito em dar dividendos a esses acionistas. A cada trimestre é preciso examinar os lucros e tudo o mais. Você critica o sistema dizendo que isso é extenuante. Mas não é isso que as empresas privadas fazem?
Ha-Joon Chang —
Nos disseram que se trata disso, mas essa vertente do capitalismo, conhecida como “capitalismo dos acionistas”, baseada na ideia de que os investidores são os donos da companhia e os administradores devem fazer de tudo para agradá-los, é relativamente nova. Nem mesmo nos EUA, onde surgiu essa ideia de capitalismo dos acionistas, as companhias davam tanto de seus lucros aos acionistas até a década de 60. As empresas americanas distribuíam 40%, talvez 50% de seus lucros aos acionistas na forma de dividendos ou compra das próprias ações. Nos últimos anos, as empresas americanas distribuíram 90%, 95% de seus lucros aos acionistas, então restou pouco dinheiro para ser investido, eles ficaram para trás em avanços tecnológicos e perderam competitividade. O melhor exemplo é a General Motors. As pessoas não se dão conta, mas o colapso da General Motors pode se equiparar ao colapso da União Soviética. Em 1995, todos os fabricantes de carros do Japão juntos — eram uns 10 ou 11 na época — produziam 70 mil automóveis. No mesmo ano, a GM produziu 3,5 milhões de carros. Como um gigante desses declara falência? E, ao redor do mundo, vários países criaram mecanismos para evitar isso. Por exemplo, no Japão, existe um sistema de participação cruzada entre empresas amigas. Sempre, de 30% a 50% das suas ações pertencem a companhias com quem você negocia ou ao seu banco, à sua empresa de seguros. Existe uma estabilidade na distribuição de ações, e as empresas estão menos suscetíveis a pressões de curto prazo. Na Alemanha, eles introduziram um sistema de gerenciamento em dois níveis, no qual as decisões mais importantes, como fusões e takeovers precisam ser aprovados por um conselho de fiscalização formado meio a meio por executivos e sindicatos.

Silio Boccanera — No seu novo livro, que está vendendo muito bem, e será publicado em breve no Brasil, 23 Things They Don't Tell You About Capitalism... Você já nos contou algumas dessas coisas, mas diga mais sobre o que ninguém nos conta acerca do capitalismo.
Ha-Joon Chang —
Certo. Uma coisa que se relaciona ao que estamos conversando é que, no livro, chamei o capítulos de “coisas”. Claro que é um jogo de palavras. O capítulo 22, a “coisa” 22, diz que os mercados financeiros precisam ser menos eficientes, não mais eficientes. O que quero dizer com essa declaração paradoxal é que os mercados financeiros se tornaram muito eficientes: as informações circulam em instantes, há uma gigantesca rede mundial acerca do mercado financeiro etc. Mas essa eficiência é em causa própria, não beneficia o resto da economia. O problema é que, agora, o fluxo de capitais é tão rápido que, cada vez mais, a verdadeira economia é voltada para o curto prazo. É preciso desacelerar o mercado financeiro...

Silio Boccanera — Torná-lo menos eficiente.
Ha-Joon Chang —
Exato. Foi o que James Tobin — ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1984 — quis dizer quando afirmou que precisávamos “jogar areia” nas rodas do mercado financeiro. Outro tópico que discuto no livro tem muita relação com um tema brasileiro: muita energia foi despendida para controlar a inflação, que é apenas um dos indicadores da estabilidade da economia. É a estabilidade dos preços, mas e a estabilidade de produção, a estabilidade de empregos, a estabilidade financeira? Se olharmos os dados de todos os países, não só do Brasil, embora a inflação tenha diminuído, estamos atravessando mais crises financeiras, e elas são cada vez maiores. E também há uma grande flutuação na produção. Eu tento expor que o foco estrito e excessivo nos preços pode nos fazer perder de vista outros fatores importantes que criam o conceito de estabilidade macroeconômica.

Silio Boccanera — Isso nos leva a outra parte de suas teorias, seus livros, seus artigos. Você afirma que, em algum ponto, todos os países desenvolvidos, os países ricos de hoje, praticaram protecionismo e política industrial de forma bem ampla. Embora agora digam aos outros para não fazê-lo, eles fizeram.
Ha-Joon Chang —
É isso que quero dizer com “chutando a escada”, que é...

Silio Boccanera — É o seu livro anterior.
Ha-Joon Chang —
Isso, o que foi lançado em 2002. Meu primeiro livro que foi traduzido para o português. Ao longo da História, todos os países utilizaram a proteção alfandegária e outros tipos de proteção: subsídios por parte do governo, investimentos do governo em infraestrutura, criação de empresas estatais, regulamentação de investimentos estrangeiros. Todas essas medidas visavam promover seu desenvolvimento econômico.

Silio Boccanera — As pessoas não se dão conta de que, embora a internet tenha possibilitado iniciativas pessoais e tudo o mais, ela foi criada pelo Estado.
Ha-Joon Chang —
Com certeza.

Silio Boccanera — É uma demonstração da influência do Estado na sociedade mais capitalista de todas.
Ha-Joon Chang —
Fico muito feliz que você tenha tocado nesse ponto porque as pessoas não se dão conta do quanto o governo americano está envolvido no desenvolvimento da economia americana. Logicamente os americanos espalham esse mito de que os EUA são o país do mercado livre e da mínima interferência do governo, mas, desde o começo, no século 19, os EUA eram a economia mais protecionista do mundo. Quais eram as taxas de importação quando o Brasil tentava praticar a substituição de importações? Eram entre 30% e 40%. Nos EUA, no século 19, na maior parte do tempo, a taxa era de 40%, 50%, ou até mais. Mesmo no final do século 20, quando os EUA se tornaram a maior potência industrial e não precisavam dessas medidas para desenvolver as chamadas “indústrias nascentes”, o governo americano se empenhou muito em promover a inovação tecnológica e as novas indústrias com o financiamento de pesquisas na área de defesa e saúde. Se você pensar nas indústrias em que os americanos são intencionalmente competitivos, quase todas elas foram criadas pelas forças armadas. Você falou da internet. O computador foi desenvolvido inicialmente para o Pentágono, os semicondutores foram, inicialmente, custeados pela Marinha americana. Mesmo em áreas como a economia da saúde, a bioengenharia. O governo americano ainda financia 30% da pesquisa farmacêutica. Portanto...

Silio Boccanera — E usa GPS na força aérea.
Ha-Joon Chang —
Com certeza. Não dá para contar nos dedos todas elas.

Silio Boccanera — Muitos no Brasil dizem que o rumo que a Coreia do Sul tomou é o que nós deveríamos ter tomado. Você concorda que poderia haver um paralelo, que as lições poderiam ser aprendidas ou são situações completamente diferentes?
Ha-Joon Chang —
Os dois são muito parecidos. No entanto, há duas diferenças fundamentais. Uma delas é que o Brasil não se preocupou tanto com as exportações quanto a Coreia do Sul. Como resultado, quando a economia começava a crescer, vocês se deparavam com o desequilíbrio da balança comercial. Como país em desenvolvimento, vocês precisavam importar muitas máquinas, novas tecnologias...

Silio Boccanera — E petróleo.
Ha-Joon Chang —
E, logicamente, na época, petróleo. Quando você começavam a crescer, se deparavam com o desequilíbrio da balança comercial. A Coreia do Sul não esteve totalmente imune a esses problemas. Quando o Brasil enfrentou a crise financeira, a Coreia do Sul escapou por muito pouco. Na época, ela era a quarta maior dívida externa do mundo, depois de Brasil, México e Argentina. Mas a Coreia do Sul criou muitas indústrias de exportação, portanto teve mais facilidade em financiar as suas importações. Todos estavam dispostos a emprestar dinheiro ao país porque sabiam que eles podiam exportar. O Brasil, de certa forma, negligenciou as indústrias de exportação, o que, repetidamente, criou problemas macroeconômicos e acabou na hiperinflação.

Silio Boccanera — E o outro fator?
Ha-Joon Chang —
O outro fator foi...

Silio Boccanera — A educação.
Ha-Joon Chang —
Não, não... Isso é o que todo país deve fazer, mas a diferença interessante é que a Coreia controlou o investimento estrangeiro com muito mais afinco do que o Brasil. O Brasil, por exemplo, ao desenvolver a indústria de alta tecnologia trabalhou, basicamente, com a Ford e a Fiat. Não houve a ambição de se criar uma indústria automobilística nacional. No caso da Coreia, nós também começamos com joint venture com a Ford, Fiat e General Motors. Mas, num certo momento, para ser mais preciso, no início da década de 1970, o governo anunciou que, daquele ponto em diante, queria que as empresas automobilísticas desenvolvessem seus próprios modelos. Qualquer empresa que não estivesse disposta a fazer isso teria a licença cancelada. No final da década de 1980, a Coreia havia se tornado o 6º ou 7º país do mundo capaz de projetar seus próprios motores. Ela agora opera basicamente com sua própria tecnologia. Essa foi uma diferença fundamental. Claro que, no início, é melhor usar tecnologias estrangeiras, porque são superiores. Mas, em algum ponto é preciso fazer alguma coisa. Exato. E o Brasil não fez isso. Em alguns setores, sim, mas em muitos outros, não fez. Essa foi outra diferença fundamental que tornou o Brasil que era 50% mais rico que a Coreia do Sul na década de 1960... Agora a receita da Coreia é mais do que o dobro da do Brasil.

Silio Boccanera — Estamos falando sobre a Coreia do Sul rica, mas você escreveu recentemente que os sul-coreanos estão muito insatisfeitos a ponto de cometerem suicídio.
Ha-Joon Chang —
Exatamente. Infelizmente.

Silio Boccanera — Por quê?
Ha-Joon Chang —
Em 1995, nosso índice de suicídios estava abaixo da média da OCDE. Hoje ele é o triplo da média da OCDE. Desde a crise financeira asiática de 1997, nós fomos forçados pelo FMI e levados por partidários internos do neoliberalismo a adotar políticas neoliberais em grande escala, criando uma enorme quantidade de problemas. Em primeiro lugar, elas expuseram as empresas a essas pressões de curto prazo do mercado de ações, o que reduziu os investimentos, a criação de novos empregos, o crescimento global. Além disso, fez com que as empresas fossem mais cruéis com os trabalhadores. Na verdade, os capitalistas nunca foram célebres por tratarem bem os trabalhadores, mas agora...

Silio Boccanera — Está piorando.
Ha-Joon Chang —
Isso. Agora, eles precisam gerar lucro de curto prazo. Como se faz isso? É preciso demitir todo mundo e recontratar algumas das pessoas das quais precisam, como trabalhadores temporários, sem garantias, benefícios, nada, com metade do salário dos empregados contratados. Agora nós temos o maior índice de trabalhadores sem contrato de trabalho da OCDE. 60% dos nossos trabalhadores não são contratados. Eles sofrem enorme pressão. Por isso, estão insatisfeitos.

Silio Boccanera — Consequentemente, os suicídios. Você acha que um pouco disso principalmente os suicídios, parecem estar aumentando na Europa sob esses programas de austeridade.
Ha-Joon Chang —
Com certeza.

Silio Boccanera — Seria um fenômeno parecido?
Ha-Joon Chang —
Um pressuposto lamentável nesse momento econômico padrão é que os seres humanos são como qualquer outra mercadoria. Supostamente, com mais pressão, eles produzem mais. Mas nós não somos assim. Quando as pessoas não têm segurança, em vez de um desempenho melhor, elas ficam deprimidas, infelizes, e sua produtividade cai. Isso é uma consequência lamentável, tratar seres humanos como mercadorias, como carros.

Silio Boccanera — Você diz que, em qualquer outra profissão, esse baixo desempenho seria punido.
Ha-Joon Chang —
É verdade.

Silio Boccanera — Essa prática. Segundo você, se qualquer outra profissão tivesse criado 80 milhões de desempregados, as massas caçariam os culpados, os enforcariam e esquartejariam. Fico feliz que muitos de nossos amigos tenham sido poupados desse destino. Mas você acha que é tão ruim assim?
Ha-Joon Chang —
Acho. Nos últimos 30 anos, apesar da afirmação de que agora nós encontramos a solução perfeita, o capitalismo de livre mercado, o capitalismo dos acionistas, o neoliberalismo, pense na quantidade de crises financeiras — sem falar na instabilidade no trabalho, nos suicídios. Quantas crises financeiras nós atravessamos? A crise financeira do Terceiro Mundo de 1982, a crise mexicana de 1994, a chamada “Tequila”, a crise asiática de 1997, a crise brasileira de 1998, a crise russa, a crise de 2002 na Argentina. Agora, a mãe de todas as crises financeiras: a crise de 2008. É um histórico lamentável. Sob todos os aspectos, a doutrina do livre mercado fracassou. Mas a maioria das pessoas nem sabe que ela fracassou tão completamente, já que a economia de mercado se tornou a ideologia reinante da nossa época. Eu digo, meio de brincadeira, que o papel do livre mercado hoje em dia se compara à teologia católica na Europa medieval. Aconteça o que acontecer, a doutrina está certa. Se algo deu errado, a culpa deve ser do país.

Silio Boccanera — Como resultado dessas três décadas de fracasso, deveríamos seguir a sua sugestão e enfocar todos os economistas?
Ha-Joon Chang —
Eu não sou a favor de medidas tão drásticas. Apesar de toda a minha crítica, há alguns aspectos úteis na teoria econômica padrão. Eu acredito muito na diversidade intelectual. Keynes compreende muito bem... Ele nos ajuda a compreender muito bem os problemas de macroeconomia de curto prazo, mas não falou muito a respeito do desenvolvimento do capitalismo de longo prazo. Schumpeter disse coisas muito mais interessantes a esse respeito, mas tinha uma visão inadequada de macroeconomia. O problema é que o mundo é complexo demais. Nenhuma teoria é capaz de explica tudo. E, na verdade, a arrogância dos economistas que defendem o livre mercado, que acham que podem explicar tudo, é parte do problema. Precisamos ser mais humildes, precisamos aceitar que o mundo é complexo, precisamos aceitar que uma única teoria não é capaz de explicar tudo, e precisamos de várias teorias complementares para sermos capazes de ter um entendimento maior e mais profundo de nossa vida econômica.

Silio Boccanera — Você nos ajudou a ter um entendimento mais profundo de nossa vida econômica. Eu agradeço.

Revista Consultor Jurídico, 21 de setembro de 2012, 8h00

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