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Exposição perigosa

Menores são proibidos de ir a show, mesmo com os pais

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O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo manteve decisão que proibiu a entrada de menor de idade em show de Rock, mesmo que acompanhado dos pais ou responsáveis legais. Os desembargadores decidiram pela proibição com base no princípio da proteção integral previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, já que nas edições anteriores do evento foi constatada a venda e consumo de bebidas alcoólicas e drogas ilícitas.

A decisão de primeira instância determinou o pagamento de multa de R$ 10 mil por cada criança ou adolescente que tivesse a entrada permitida no show João Rock, que acontece em Ribeirão Preto (SP) e é um dos maiores do país.

O recurso foi proposto pelo Ministério Público, que não concordou com a exclusão, do polo passivo do processo, dos sócios da empresa que realiza o evento. Em resposta ao recurso, os sócios aproveitaram para pedir a anulação da decisão que consideraram abusiva ao proibir a presença de qualquer criança e adolescente, independentemente da idade.

Alegaram os organizadores do evento que teriam adotado medidas de organização em favor do público jovem, que as eventuais falhas ocorridas na organização são proporcionalmente diminutas em relação ao público presente ante a dimensão do evento, e que os incidentes ocorridos também aconteceram em eventos parecidos, sem que a mesma proibição fosse imposta.

Por fim, a defesa dos empresários alegou que a decisão de proibir o acesso dos menores deveria se ater apenas ao evento realizado no ano de 2009, sendo que a extensão da decisão para eventos futuros configurava abusividade da proibição genérica, ilegalidade e inconstitucionalidade.

Responsabilidade solidária
Ao acatar o pedido de inclusão dos sócios no polo passivo, o TJ-SP entendeu que “não se eximem os organizadores do evento, pessoas físicas, de sua responsabilidade, que é solidária, juntamente com a pessoa jurídica, nos termos do artigo 258 do Estatuto da Criança e do Adolescentes, que impõe observância às normas de proteção tanto ao ‘responsável pelo estabelecimento’ quanto ao ‘empresário’, vale dizer, o proprietário. Isso porque o termo 'empresário' deve ser entendido em sua acepção mais ampla alcançando não apenas a sociedade empresária nos contornos estabelecidos pelos artigos 966, caput, 981 e 982, caput, do Código Civil, mas também a pessoa física.”

De acordo com o acórdão, a aglomeração já gera, por si só, uma periculosidade presumível inerente ao agrupamento de pessoas em um dado local. E a soma de fatores como baixa faixa etária, patrocínio de indústrias de bebidas alcoólicas, música de pop/rock, induzimento ao consumo de bebidas e outras drogas ilícitas, descumprimento de normatizações previstas nos alvarás, ausência de segurança específica ao público estimado e escassez no cuidado das instalações leva a crer na possível existência de riscos de graves incidentes.

Para os desembargadores, ficou comprovada a incapacidade dos sócios e da empresa de adotar medidas eficazes e suficientes para evitar danos aos jovens, que estariam em um ambiente onde o consumo de bebidas alcoólicas e drogas como maconha e cocaína é característica marcante. “Ainda que os maiores de 16 e menores de 18 anos sejam proibidos de beber, somente o exemplo franco do consumo é altamente prejudicial ao desenvolvimento dos adolescentes”.

“Entre optar pelo lucro enquanto máxima absoluta a orientar a atividade econômica e priorizar a condição de crianças e adolescentes como consumidores de diversão, de um lado e, de outro, plantear uma sociedade mais sadia, com diminuição do álcool e drogas na infância e adolescência, é de se ficar com a segunda até mesmo como homenagem à defesa da dignidade humana”, concluiu o desembargador Martins Pinto ao relatar o acórdão.

Clique aqui para ler a decisão.

 é repórter da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 18 de março de 2012, 10h02

Comentários de leitores

2 comentários

Omissões do Estado

Marcos Alves Pintar (Advogado Autônomo - Previdenciária)

Também se vendem bebidas alcoolicas em supermercados (inclusive "cerveja gelada", para consumo imediato), e nem por isso os pais são impedidos de levar crianças a esses locais. Agora, quando ao consumo de drogas "ilícitas", a proibição seria justificável temporariamente, até que os agentes policiais encarregados da repressão ao trafico ilícito de entorpecentes sejam punidos, e o estado passe a cumprir seu papel impedindo os crimes nesses locais. Resolvidas as omissões do Estado, não se pode impedir que os pais levem seus filhos em eventos culturais. Esse apego que os magistrados paulistas possuem no sentido de tentar a todo custo impedir o desenvolvimento cultural e intelectual do indíviduo deve ser coibido.

Os paladinos da "inocência"...

Ademilson Pereira Diniz (Advogado Autônomo - Civil)

Não é virando o rosto para o outro lado, que se vai conseguir desfazer a fei paisagem...ela persistirá mesmo que não a queiramos olhar. Assim, não é escondendo dos adolescentes que existe droga, prostituição, crimes, etc., que estes inexistirão e influenciarão, de qualquer forma, as "crianças"...Essa DECISÃO é o ápice da obtusidade dos paladinos da inocência! Além de ineficaz do ponto de vista pedagógico (hoje já não mais segredos relativamente a drogas e as bebidas) é uma decisão ilegal. O TJ colocou o ECA (aliás o ECA, não, senão que uma mera interpretaçao desse estatuto)acima da CONSTITUIÇÃO!!! Por que não coibior, no local do show, o uso de drogas e alcool? Isso, sim, é LEGAL! Agora proibir que um adolescente (digamos, com 16 ou 17 anos, que já pode discernir -- como aliás já discerne as coisas: só não vê isso os "idiotas da objetividade" que apoiam a aplicação do ECA) de ir a um espetáculo que, queiramos ou não, se trata de um evento CULTURAL (ou só um conserto de violino o será? que critério poder-se-á usar para se distinguir dentre eles? ou se for uma apresentação de música MPB, poderá a criança assisti-la? -- não é isto um odioso ato de censura artística?). O regime DITATORIAl JÁ ACABOU, mas parece que agora se insinua uma DITADURA ainda mais perversa: a da interpretação dos textos da LEI, que, fazendo inverter aquilo que veio em favor do cidadão, aplica o preceito contra suas liberdades.

Comentários encerrados em 26/03/2012.
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