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Cigana, mãe e juíza

Ainda fora do dicionário, palavra tem carga histórica

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Um povo sem território, sem escrita, sem religião “oficial”. Um povo que se reconhece pela língua e pelo que restou de suas tradições. Marcado pela alegria imotivada, pela musicalidade e espiritualidade, somos poucos e tantos, hoje agregados a sociedade que antes nos marginalizou. Não nos sentimos aviltados pela descrição do verbete do dicionário Houaiss.

Se tivéssemos dicionário, por certo que no verbete “gajo” (não cigano), descreveríamos, sob a rubrica “pejorativo”, os termos “perseguidor”, “racista”, e “cruel”, termos que há séculos nossos antepassados usavam para descrever os que, aproveitando-se de nossa então ignorância quanto às leis, tiravam nosso ouro, derrubavam nossas tendas, nos obrigavam a calar e mudar de país. Aqueles que nos perseguiram, alguns de nós até a morte, pela nossa aparência, pelos nossos costumes, por nossas crenças ou pela ausência delas. Faríamos isso hoje, rodeados pelos “gajês” que são nossos amigos, que nos acolheram em suas vidas, que são nossos cônjuges e filhos, certos de que um povo não se define exclusivamente por palavras em seu significado pejorativo.

Não se apaga a carga histórica que a língua falada carrega retirando-a do dicionário. Cabe-nos lutar para manter as poucas tradições que restaram e que guardam um mínimo de compatibilidade com nosso dia a dia. Cabe-nos manter nossa língua “romanês”, que ainda nos identifica, ensinando-a a nossos filhos e netos. Cabe-nos explicar o verbete, narrando nossa verdadeira história. Cabe-nos assumir quem somos à sociedade, como ouso fazer. Sou cigana, mãe e juíza do Trabalho. Nessa ordem.

 é juíza substituta, coordenadora do Juízo Auxiliar em Execução e presidente da Comissão de Hastas Públicas do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, pós-graduada em Processo Civil pelas FMU e pós-graduanda em Administração Judiciária pela Fundação Getúlio Vargas.

Revista Consultor Jurídico, 15 de março de 2012, 16h48

Comentários de leitores

1 comentário

Bravura com ternura...

pauline (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

Ler o texto me fez pensar que, assim como os ciganos,vários outros povos, etnias e classes, também já passaram pelo "nivelamento" de todos os seus membros pelo comportamento de alguns. Até mesmo entre nós, operadores do direito, vemos isso acontecer diuturnamente. Portanto, ver uma representante do povo cigano, defendê-lo com tanto orgulho e altivez, independente dos rótulos ou definições que lhe são atribuídos, me fez sentir que ao fim esquecemos de quem realmente somos: seres humanos, e irmãos em Cristo. Parabéns doutora, pela bravura terna de suas palavras.

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