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Ideias do Milênio

"Em passos lentos, caminhamos para economia verde"

Entrevista concedida pela médica e ex-primeira-ministra da Noruega Gro Brundtland, ao jornalista Silio Bocancera, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30.

Se o mundo debate hoje desenvolvimento sustentável, como na Conferência Rio+20, isso se deve em grande parte a Gro Brundtland. Ela chefiou um grupo da ONU que estudou o assunto nos anos 80 e produziu o relatório Brundtland, usado como base para as discussões da Rio 92. Até hoje ela participa de estudos da ONU sobre meio ambiente, desenvolvimento, igualdade social. Nunca cessou de promover seus ideais de uma sociedade com mais consciência ecológica, menos diferenças de classe e gênero. Isso a transformou no alvo principal do assassino em série, o norueguês Anders Breivik, extremista de direita, que confessou ter buscado matá-la durante uma visita a um encontro político de jovens numa ilha da Noruega. Ela escapou porque ele se atrasou ao fazer explodir antes uma bomba em Oslo. Quando ele finalmente chegou armado à ilha, Brundtland já tinha discursado e deixado o local. Breivik então optou por matar dezenas de jovens. Em tempos recentes, Brundtland juntou-se a um grupo criado por Nelson Mandela, com o nome de The Elders, os mais velhos, ou veteranos ex-chefes de governo. De Fernando Henrique Cardoso a Mikhail Gorbachev, de Mary Robbins a Jimmy Carter. Correm mundo, avaliam problemas internacionais e oferecem conselho com base em sua experiência e sabedoria. Ex-primeira ministra da Noruega, ex-diretora da Organização Mundial de Saúde, médica, 73 anos, pôs na agenda internacional há mais de 30 anos o conceito de desenvolvimento sustentável, que implica avanço econômico com atenção ao meio ambiente. Brundtland veio ao Rio para um encontro de seus colegas líderes veteranos com um grupo de jovens a fim de discutirem juntos temas ligados a Rio+20.

Silio Boccanera — A senhora está indo para uma reunião com o grupo mais jovem “The Elders and the Youngers”. Sabemos que os jovens são muito impacientes, naturalmente, querem resultados rápidos a qualquer custo. O que a senhora vai dizer para eles, já que estão tão impacientes com relação a resultados sobre questões ambientais?
Gro Brundtland Acho que os jovens com quem conversamos nos veem como pessoas que podem ajudá-los a chegar aos que estão no poder agora. Então, nós, ao convidarmos os jovens para esse diálogo, estamos tentando amplificar suas vozes para que tenham força, habilidade e autoconfiança suficiente para trazer essa mensagem para aqueles que estão no comando. É o papel que temos agora.

Silio Boccanera — Mas quando dizem para a senhora “Nossa, faz 20 anos desde a Rio 92 e os resultados não foram bons o suficiente...” O que a senhor diz a eles? Calma...
Gro Brundtland Não, na verdade não. Levante suas vozes, contem a todos sobre suas preocupações. É o seu futuro. É isso que temos que dizer aos jovens. Eles não devem ser pessimistas e pensar que aqueles que são da geração anterior que devem fazer mais... tomar controle e decidir em seu nome. Eles têm que ser suficientemente autoconfiantes para se parte da solução e reivindicar pelas mudanças que considerem necessárias.

Silio Boccanera — Em todos esses anos, lidando com essa questão, quais seriam os pontos de resistência? São os políticos, o setor privado? Quem está criando obstáculos?
Gro Brundtland Com certeza, tem sido grande parte do setor privado. Sem dúvida. Se olhar no mundo inteiro, empresas, grandes ou pequenas, não estão liderando as demandas por mudança. Não estiveram, mas, entre elas, sempre houve algumas que são mais progressivas, de olho no futuro, que pensam mais no futuro e em que tipos de investimento serão importantes daqui a uma década para estarmos na liderança. Felizmente, houve companhias que foram bons exemplos e que podem inspirar outros. Eu acho que esse movimento está aumentando, porque, cada vez mais, líderes de empresas percebem que se não seguirem as tendências de agora...

Silio Boccanera — Eles perderão dinheiro.
Gro Brundtland Não é que eles perderão dinheiro. Eles vão entender que a mudança está chegando e querem fazer parte desta mudança e fazer os investimentos corretos e não continuar no método tradicional.

Silio Boccanera — Na política, a senhora acha que há uma falta de liderança?
Gro Brundtland Com certeza há uma falta de liderança, mas, quando pergunta sobre setor privado e políticos é claro que, em muitos países, empresas privadas e investidores têm muito poder. Eles influenciam a política e quando você vê toda a discussão sobre mudança climática — nos últimos 10 ou 15 anos — houve muito esforço e dinheiro investido para contrabalançar a realidade e os fatos dos cientistas. Eles têm gasto dinheiro para evitar que a mensagem seja passada.

Silio Boccanera — Lobbies fortes...
Gro Brundtland Lobbies fortes, mas, de novo, as empresas principais, mesmo as dentro da indústria do petróleo, estão percebendo que não é a coisa correta a ser feita. Há uma divisão entre empresas diferentes que costumavam apoiar os argumentos contrários e criando o plano de fundo para os negadores da mudança climática. Está melhor agora, porque algumas companhias perceberam — algumas grandes — que isso não está funcionando e não é o futuro. As coisas estão, gradualmente, caminhando em uma direção positiva no setor privado.

Silio Boccanera — Para contrabalançar o efeito destas pessoas da pressão e da influência que elas têm quão eficazes a senhora considera medidas como boicotes, embargos, pressão contra empresas e governos que não seguem certas diretrizes, não comprar seus produtos, esse tipo de mudança. Acha que são eficazes?
Gro Brundtland Acho que a sociedade civil, consumidores, indivíduos, pessoas que se organizam para esperar transparência e responsabilização também do setor privado, podem fazer muita diferença ao exigir que o produto que compram explicite a pegada ecológica, os produtos químicos usados na fabricação, etc. Então, há muito esforço sendo feito pela sociedade civil para exigir do mercado que seja mais transparente e mais responsabilizável, porque são responsáveis pelos produtos que fazem.

Silio Boccanera — E, caso contrário, sofrerão as consequências.
Gro Brundtland Sim. Acho que o ativismo dos consumidores é grande parte de como criar pressão suficiente.

Silio Boccanera — Há 20 anos atrás, você estava na vanguarda do grupo dizendo que temos que acabar com essa obsessão com o crescimento econômico que, agora, parece ter chegado à superfície. Muito mais pessoas estão falando sobre isso. Os cínicos podem dizer “tem que começar tudo de novo?” toda vez que tem uma conferência importante. Você já disse isso há muito tempo.
Gro Brundtland Basicamente, quando eu leio recomendações do “Nosso Futuro Comum” de 25 anos atrás, eu poderia repetir as mesmas recomendações hoje. Então, o conceito de desenvolvimento sustentável, a mensagem é que a necessidade de mudança é tão relevante como era há 25 anos atrás. Na história humana, quando olha para ela em uma perspectiva de longo prazo, claro que 25 anos não é tanto tempo. Sem falar em 20, desde quando o pedido por mudança está em pauta, para realmente fazer as mudanças. Isso significa que, neste momento, muito mais pessoas — muito mais, ao redor do mundo — estão cientes das mensagens que foram ditas há 20 anos. Então, espero que consigam se unir mais e progredir nos compromisso para a mudança.

Silio Boccanera — Acha que faltou coragem política para fazer as coisas andarem mais rápido?
Gro Brundtland Acho que houve compromisso suficiente entre os países na época da Rio 92. A Agenda 21, a Convenção do Clima, a Convenção da Biodiversidade, é um resultado maravilhoso de uma grande conferência, apenas cinco anos depois do “Nosso Futuro Comum”. É fantástico, mas, no que se refere à implementação das corretas conclusões da conferência do Rio, há 20 anos atrás, o ritmos das implementações foi lento. No meio da década de 90, crises financeiras começaram a aparecer e houve empecilhos. Como estamos, em parte, na mesma situação hoje, muitos países estão lutando e com problemas econômicos e financeiros, entretanto não podemos evitar fazer mudanças...

Silio Boccanera — Não podemos usar essa desculpa.
Gro Brundtland Não podemos.

Silio Boccanera — Como a senhora mencionou, a crise, por exemplo, estamos passando por uma série de crises financeiras. A Europa é um exemplo perfeito para isso. Em uma época assim, quando pega a mensagem que a senhora estava promovendo, há 20 anos atrás, e agora mais pessoas estão promovendo de reduzir essa obsessão com crescimento. Não é uma mensagem difícil de passar agora?
Gro Brundtland Eu não acho... Eu nunca disse para reduzir a obsessão com o crescimento. Eu sempre disse, mesmo em 1992, falei sobre desenvolvimento sustentável e crescimento, a qualidade do crescimento e o conteúdo e os padrões de crescimento. Essa ainda é a mensagem. O crescimento é bom se os padrões e o conteúdo desse crescimento é o correto e tem um caminho sustentável no futuro. Isso pode ser feito. Você pode economizar energia tão facilmente em tantos tipos de sociedade, em muitas companhias e pessoas de visão estão fazendo isso, porque é benéfico para o meio ambiente e benéfico para a economia, se olhares apenas dois ou três anos no futuro, porque economizar energia ou outros recursos no processo produtivo ajuda os resultados econômicos e os ambientais.

Silio Boccanera — Acha que devemos mudar nossos padrões de consumo, da maneira que parece existir em algumas sociedades mais ricas? Uma obsessão com comprar e comprar?
Gro Brundtland Esse é um aspecto importante, mas as ligações entre os padrões de produção e consumo, a propaganda e mesmo a transparência sobre os produtos que queremos vender, tudo isso é parte de uma mudança nos padrões de produção e consumo ao redor do mundo. Isso é necessário, porque esses padrões estão não apenas nos países ricos, mas também nos países em desenvolvimento. Entre os ricos nos países em desenvolvimento, algumas vezes, é ainda pior. Então, não é apenas uma questão de países ricos e pobres. É uma questão de grandes desigualdades dentro dos países também e de consumo exagerado.

Silio Boccanera — Não dá para ter os chineses consumindo nos padrões dos noruegueses ou dos americanos...
Gro Brundtland Com certeza não no dos americanos, mas mesmo no dos noruegueses, sim.

Silio Boccanera — O planeta não consegue lidar com isso.
Gro Brundtland Mas eu acho que os chineses estão cientes. Enquanto estavam protestando — se voltarmos alguns anos — protestando contra um acordo global, eles estavam, ao mesmo tempo, passando políticas progressistas sobre energias renováveis, fazendo as mudanças que achavam necessárias mesmo para a China, para o continente da China, porque veem os recursos naturais sendo degradados, veem as consequências da desertificação e da poluição sobre a saúde humana nas cidades. Fizeram mudanças não porque a comunidade internacional pediu, mas porque sabem que é necessário para seu próprio futuro.

Silio Boccanera — Nessa linha, a senhora vê o mundo caminhando para o que muitos grupos defendem, para uma economia mais verde? A senhora vê indo nesta direção?
Gro Brundtland Está indo em muitos lugares. Algumas das ações que são feitas na China — e também na Índia — são parte deste padrão. Há pequenos passos que estão sendo tomados que vão tornar as economias mais verdes em muitos lugares, mas não é o suficiente e o ritmo é muito devagar. Precisamos aproveitar a ocasião aqui no Rio e nos comprometer sobre aumentar o ritma da mudança.

Silio Boccanera — Ao mesmo tempo temos medidas. No Brasil, agora, adotaram alguns incentivos para a indústria automobilística e a explicação é que há muitos empregos envolvidos. Precisamos da indústria automobilística porque há muitos empregos. Claro que a indústria automobilística representa muita poluição, muitos problemas.
Gro Brundtland Mas eles estão exigindo que esses carros sejam feitos de maneira diferente?

Silio Boccanera — Ainda não. É aí que o mecanismo deve mudar.
Gro Brundtland Então, eles deveriam. Não há nada errado em investir em carros, porque as pessoas precisam, mesmo no futuro, além de ter sistemas de transportes urbanos, que são públicos, carros serão usados. A questão é: que tipo de carros? São pequenos, eficientes energeticamente, poluem pouco e têm altos padrões em energia, dentro do contexto de energia e poluição? É possível fazer isso.

Silio Boccanera — Então, não é contraditório.
G
ro Brundtland Então, por que deveriam... espero que não estejam investindo ou fazendo incentivos para continuar a fazer linhas de carros que poluem, porque isso não é um pensamento muito progressista.

Silio Boccanera — Falando sobre pensamento progressista, a senhora foi uma defensora dos direitos das mulheres como uma contribuição para um desenvolvimento sustentável apropriado. Isso não é apenas em países ricos. É no Paquistão, na África, em qualquer lugar. O que a senhora acha que as mulheres podem contribuir para o desenvolvimento sustentável? Por que as mulheres?
Gro Brundtland As mulheres, primeiro de tudo, quando você discrimina e abusa de grande parte da população, elas não estão recebendo a oportunidade de fazer parte dessa sociedade produtiva, e isso está atrapalhando parte da resposta sobre como fazer um futuro próspero. Isso é uma coisa que afeta diretamente as oportunidades econômicas. Então, basicamente, as mulheres são tão centrais para a família e para a vida em sociedade que, se você educa e empodera as mulheres para serem capazes de planejar suas famílias, para decidir o espaço entre cada filho, em saúde reprodutiva e planejamento familiar, reduziremos... ou melhor, melhoraremos a saúde das crianças, das sociedades e diminuiremos o fardo de crescimento populacional descontrolado que agrava os problemas. Se um país tem um crescimento populacional enorme, altos níveis de pobreza e tem grande necessidade de educação e sistemas de saúde, para infraestrutura de todos os tipos, de água a saneamento, você está apenas piorando a situação e dificultando, ao criar empecilhos às ações responsáveis das mulheres. É por isso que a saúde das mulheres e o direito ao planejamento familiar é um aspecto tão essencial.

Silio Boccanera — A senhora tem uma experiência interessante na Noruega, o caso específico da Noruega pode ser muito útil para a experiência brasileira, porque, de repente, petróleo no mar. É exatamente o que está acontecendo no Brasil agora. A senhora lidou bem com isso. Qual é a sua recomendação? Com o que deveríamos ter cuidado, já que exploraremos o petróleo?
Gro Brundtland Primeiro de tudo, o ambiente político norueguês, naquela época, final da década de 60 e início dos anos 70, teve sabedoria suficiente. A maioria do parlamento norueguês e do governo norueguês olhou para isso como um recurso que iria ser para o benefício da população norueguesa, para todos, e para proteger o meio ambiente porque isso é importante para todos. Isso significa ter uma política pública que crie segurança e preocupações ambientais com relação à extração do recurso e, também, na medida em que o recurso rendeu lucros, poupar boa parte desses lucros para gerações futuras. Não os gastando e criando inflação e benefícios de curto-prazo para a população atual e não pensando no futuro. Tivemos uma polícia, desde o começo, de pensar em longo-prazo. Tivemos esse fundo soberano enorme. Um fundo soberano que hoje tem cerca de US$ 600 bilhões. Isso aconteceu porque tivemos uma política que, mesmo com a mudança do governo, o respeito por essa maioria...

Silio Boccanera — Um acordo comum...
Gro Brundtland Prevaleceu. O Brasil com certeza não deveria entrar nisso, gastar todos os recursos e correr o risco de dano ambiental. Tem que ser feito, mas acho que está sendo feito nesses termos, temos que pensar no longo prazo ao invés de usar nossos recursos com um pensamento de curto prazo.

Silio Boccanera — A senhora tem viajado por todo o mundo e lidando com questões ambientais por tantos anos, o que a senhora viu que a animou? O que a senhora viu que diria “uau, isso é interessante”?
Gro Brundtland Acho que há muitos exemplos, mas nos últimos anos, os tipos de atenção para melhorar as condições de comunidades pobres, combinando a capacitação de mulheres, melhorando a saúde das crianças e dando acesso à eletricidade para famílias e comunidades pobres. Isso permite que as crianças leiam à noite sob uma lâmpada e evita que as mulheres fiquem ao fogão à lenha, com poluentes entrando no seu corpo e com o bebê nas costas, tendo consequências para a saúde de todos. Ao trazer eletricidade para uma comunidade pobre e ao deixar as mulheres serem decisivas em como isso acontecerá, você consegue melhorar muito as condições das comunidades e empoderar as pessoas para terem renda, educação e para sentir que são parte de um futuro próspero. Ilustra que em certas áreas-chave como energia, agricultura e produção alimentar as comunidades pobres podem sair da pobreza ao pensar na combinação destes aspectos-chave do futuro de qualquer comunidade. Isso foi fascinante de ver, na Índia, onde eu vi essas coisas acontecerem, e é muito impressionante.

Silio Boccanera — Muito obrigado. Foi muito esclarecedor.
Gro Brundtland Obrigada.

Revista Consultor Jurídico, 29 de junho de 2012, 8h00

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