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Direito & Mídia

Cristina Kirchner e a TV: falar sem nada dizer

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Na quarta-feira, 6 de junho passado, véspera do feriado de Corpus Christi aqui no Brasil, estava almoçando em um pequeno e simpático restaurante de pastas em Buenos Aires, que serve uns belos sorrentinos. A um canto do estabelecimento, no alto, o aparelho de televisão mostrava a presidente Cristina Fernández de Kirchner numa transmissão em cadeia nacional. Tratava-se, pela legenda fixa, do anúncio da criação do Ministério do Interior e Transporte. Como o som estava cortado, ficou a curiosidade pelo longo tempo da cerimônia, o grande público de funcionários graduados que aplaudiam a todo instante (algo entre 150 e 200 pessoas, quase todos senhores engravatados) e, sobretudo, pelo momento (7 minutos) em que a mandatária do país mostrava uma foto colorida ampliada, contrastando-a depois com outra imagem menor, em preto e branco. E a seguir Cristina mostrava um livro, de que leu alguma passagem.

No dia seguinte, a leitura dos diários não foi de grande ajuda. Clarín, vítima de uma tenaz campanha movida pelos dois últimos governos argentinos, noticiava que “A presidente Cristina Fernández anuncia em cadeia nacional a ‘pesificação’ de seu prazo fixo em dólares”. Segundo o jornal, o montante do prazo fixo da senhora supera os 3 milhões de dólares.

No concreto da vida de um turista, na sexta-feira, dia 8, todas as casas de câmbio amanheceram fechadas. Num almoço no sábado, com duas amigas com quem trabalhara na metade dos anos 1990, na Editorial Primavera, quando dirigi aquela empresa (hoje extinta) sucessora da antiga Editorial Abril, berço do Grupo Abril brasileiro, fiquei sabendo um pouco mais. Por exemplo, que a compra de dólares estava proibida, e as duas ex-auxiliares não sabiam como ficaria a questão de compra de divisas para os argentinos que fossem viajar. Fato que continua até agora. Soube também que a presença da presidente nas telinhas da TV é uma constante. Quase todo dia há uma inauguração, mas nem sempre a cobertura acontece rede nacional, usa-se para tanto a emissora estatal. 

Feita essa introdução, passo a refletir sobre os muitos “rizomas”, para usar a expressão de Giles Deleuze, que essa cena suscita. 

A primeira é a excessiva exposição de Cristina Fernández nos meios televisivos e sua absoluta recusa de conceder entrevistas à imprensa e, sobretudo, de prestar contas e informações sobre seu governo – no que repete a postura dos dois mandatos de seu falecido esposo. 

Naquele dia 6 de junho, em cadeia nacional, a chefe de Estado falou durante 41min42s. Na véspera (desta vez não em cadeia nacional, mas pela TV estatal ATC), falou durante 44min52s, por motivo da comemoração do 90º aniversário da criação da YPF – a empresa petroleira argentina, recentemente estatizada. Um pouco menos do que os 48min46s da transmissão em cadeia da festa-comício ocorrida na cidade de Bariloche, celebrando a Revolução de 10 Maio (marco inicial da independência argentina, em 1810, detonador de um processo somente finalizado quase quatro décadas depois). 

Cristina gosta (ela mesma o diz) de aparecer na TV e, sobretudo, de ser apresentada pela locutora oficial como a “presidenta dos 40 milhões de argentinos” – sim, lá também se usa presidenta, chefa de Estado e outras abobrinhas de gênero. Vestida com um terninho entre o azul marinho escuro ou preto, longos cabelos, pequeno colar de pérolas, broche de diamante, aneis vistosos e um relógio idem, unhas longas e bem pintadas, Cristina tenta seguir, na medida do possível, o visual Eva Duarte. Não por acaso, o cenário em que se apresenta nesta transmissão em cadeia nacional, no Salão das Mulheres, da Casa Rosada, mostra à esquerda a bandeira da pátria e à direita o emblemático e feio prédio da esquina das avenidas Belgrano e a 9 de Julho, com o grafite da imagem da Eva Perón. 

Foi ali que ocorreu a histórica manifestação de 22 de agosto de 1952 (o Cabildo Abierto, ou prefeitura aberta) em que Evita Perón anunciaria sua candidatura à vice- presidência, tentativa abortada pelas forças armadas. De fato, María Eva, já debilitada pelo câncer, pronunciou o discurso de renúncia pelo rádio em 31 de agosto, as eleições aconteceram em 11 de novembro e ela faleceu em 26 de julho de 1952. Não houve a cena da renúncia no balcão da Casa Rosada, como mostram o filme e o musical. 

Ao longo de sua fala, neste 6 de junho, Cristina Fernández discursava com gosto, usando linguagem informal, recheada de expressões típicas do lunfardo portenho. Cumprimenta a platéia, fala do frio (“Ele adorava o frio”, comenta, certamente se referindo ao falecido marido). Parecia uma animada professora secundária, jogando piadas para a plateia, que sorria descontraída, respondendo a suas interpelações. Garantiu que se “esforça um montão, mas não me peçam o impossível”, citou descontraída o escritor Pío Baroja (1872-1956) e seu comentário sobre os “sete tipos de espanhois” (e ela como filha de galegos, como muitos argentinos, se disse incluída) – sintomaticamente, provoca risos ao citar os três últimos tipos tipos: os que aparentam saber; os que triunfam sem saber e os que vivem graças ao que os demais não sabem.    

Após o anúncio da integração dos Transportes (antes ligado ao Ministério do Planejamento) ao Ministério do Interior, Cristina discorre sobre temas diversos, enquanto faz movimento com os cabelos, afasta uma mecha rebelde com as mãos, coloca os óculos, retira-os, procura papeis, comenta em tom mais baixo algumas ironias. Exatamente como fez, nos festejos da Revolução de Maio, em Bariloche, quando, diante dos aplausos dignos de uma Xuxa ou de uma Ivete Sangalo, declarou: “Nos sentimos irmãos de todos os países do mundo [onda de aplausos]... até daqueles que não querem negociar” (clara referência à Grã-Bretanha e à questão das Malvinas). 

O restante do comunicado de 41min42s daquela quarta-feira 6 de junho foi dedicado a um particular acerto de contas. Cristina, que em diversos momentos se referia indiretamente a reportagens e jornais, cita o El Popular, periódico em que teria lido a carta de um avô que entrara na Justiça contra a proibição de comprar os 10 dólares com que pretendia presentear um neto. Utilizando o palavreado popular, a presidente chama o “abuelito” Julio Cesar Durán de “medio amarrete”, ou seja, um avozinho meio pão-duro. E faz uma digressão de que se lembra do nome do avô reclamante por causa de um velho amigo de escola, também chamado Julio Cesar. Dizendo que também é advogada e sabe das boas condições de vida desses profissionais, afirma que, se fosse ela, teria feito um “esforcinho” para dar mais dinheiro ao neto.

Diz que gostaria de conhecer esse avô avarento, mas afirma que mais gostaria de conhecer o avô de uma garota, Micaela Lisola. E pede à assessora: “Traga-me a foto” (“tráeme la foto nena”). E inicia o elogio a essa estudante de 16 anos que, contrariando as orientações da professora, ameaçou discursar numa cerimônia escolar sobre o significado do dia 24 de março na Argentina, o Dia Nacional da Memória pela Verdade e a Justiça, no que foi dissuadida pela professora. Falasse apenas o que estava em pauta. No relato de Cristina, após discursar sobre o combinado, a estudante valentemente acrescentou: e tem mais, hoje é o dia nacional da memória… E teve o microfone retirado abruptamente pela reitora, Maria Isabel Larrauri, recebendo como punição 24 admoestações. O que depois foi anulado pelo Ministério da Educação. 

Cristina mostra longamente a foto em que a menina aparece num grupo, a imagem colorida e ampliada que havia chamado a atenção no restaurante. Emociona-se quase às lágrimas ao narrar o fato, em que até o ministro da Educação teve de intervir. Depois, mostra em contraponto outra foto antiga, em branco e preto, de uma cerimônia em que a professora e filósofa Maria Isabel Larrauri, a que retirou o microfone da mão da menina, reitora da Universidade Católica de Cuyo (que recebe subsídios estatais, esclarece a presidente) é vista num grupo de autoridades, entre eles o ex-presidente general Jorge Rafael Videla (1976-1981), hoje em prisão perpétua. 

A presidente dedicou a Micaela 7 minutos de sua fala, lembrando que também ela foi aluna de escola confessional (e a freira e professora “Rosita deve lembrar-se de mim”). Essa fala continua com a indicação de um livro do general Enrique Mosconi, Dichos y Hechos, de 1938, que recebera de presente. E Cristina esclarece que recebe muitos presentes. Lê um trecho do livro, dedicado à juventude da Argentina, que discorre sobre não desistir da luta e elogia a atitude persistente. Enrique Carlos Alberto Mosconi, o autor do livro, informa o Google, foi pioneiro na exploração de petróleo na Argentina e o primeiro presidente da estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales – a YPF, recentemente retomada pelo governo. 

Na sequência, a senhora De Kirchner menciona suas diatribes com jornalistas, mas esclarece que há alguns que lê com atenção. Cita um artigo econômico do jornal Pagina 12 e passa a elogiar outro grande jornalista e o movimento virtuoso criado por ele. Trata-se agora de Víctor Hugo Morales, que segundo informa a Wikipédia é um locutor futebolístico nascido no Uruguai e desde os anos 80 atua nos meios de comunicação portenhos, sendo considerado o “narrador esportivo por excelência da fala hispânica”. 

A chefe de Estado diz que foi incitada pelo amigo jornalista Víctor Morales a aderir à campanha criada por ele para que todos os argentinos coloquem suas poupanças em pesos e não em prazo fixo em dólares (algo desde sempre permitido na Argentina). E declarou que ela faria o mesmo com suas aplicações em prazo fixo, desafiando aos funcionários dos ministérios e participantes da Frente pela Vitória a fazerem o mesmo. Concluiu com uma brincadeira dirigida a Aníbal Fernandez, seu chefe de gabinete (e ex-titular dos Direitos Humanos, do Interior e outros ministérios): “Fernández, vos vas primero, con un bonete”. Fernández teria discordado das medidas da presidente nesse combate à poupança em dólares. Há risos gerais na concordante platéia. 

Resumo: ao reunir quase duas centenas de altos funcionários para aplaudir sua fala em rede nacional, embora falando diversas vezes em um governo mais eficiente, parece que Cristina Fernández crê que reunir a claque é um modo de levar eficácia a sua administração. Simula transparência quando diz apenas o que quer, negando-se a enfrentar as visões dissidentes. Que Dilma Roussef não imite a nossa vizinha.

 é jornalista, professor da Faculdade Cásper Líbero e editor da revista diálogos & debates.

Revista Consultor Jurídico, 21 de junho de 2012, 14h47

Comentários de leitores

1 comentário

Observação

Rafael Petrone (Advogado Assalariado - Civil)

Texto muito interessante, porém com informações equivocadas. A histórica manifestação se deu no ano de 1951, bem como a renúncia e as eleições de 11 de novembro. Mas pelo gabarito do escritor, acredito ter sido apenas um erro de digitação. Fica então a oportuna retificação.

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