Consultor Jurídico

Notícias

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Tribunal do Júri

Advogado deve endurecer com cliente para interrogatório

Por 

Todo o trabalho da defesa, por melhor que seja, pode ficar comprometido por um mau desempenho do réu. Por isso, uma das etapas mais importantes na fase que antecede o julgamento é preparar o cliente adequadamente para o interrogatório. Nessa preparação, o advogado tem de deixar de lado a cortesia, as gentilezas, a camaradagem e os bons tratos. Há de endurecer, tanto quanto puder, o "treino" para o interrogatório. 

De preferência, o treinamento do cliente tem de ser mais duro do que o interrogatório real, no dia do julgamento. Depois da sessão, o cliente tem de comentar que o interrogatório não foi tão difícil, afinal, como ele pensava que seria. Mas, no início do treinamento, o cliente pode espernear. Pode perguntar de que lado você está. Pode dizer, irritado, que não o contratou para maltratá-lo. Pode sugerir que prefere contratar outro advogado, diz o professor de Direito Elliott Wilcox, editor do TrialTheater

Nessa hora, uma das coisas que o advogado pode fazer é citar uma declaração célebre do técnico de futebol americano Paul "Bear" Bryant: "Não basta a vontade de ganhar; a vontade de se preparar para ganhar é o que faz a diferença". Os técnicos de futebol americano, por sinal, consagraram a frase: "Treine como se fosse um jogo". Para eles, não existe essa ideia de que "treino é treino, jogo é jogo". No treino, mesmo depois que o jogador já está cansado, não há condescendência. Continua treinando, até a exaustão. Assim, não vai se extenuar no final do próximo jogo. 

Os técnicos esportivos entendem, de uma maneira geral, que aplicação de qualquer atleta no treino determina o seu nível de sucesso nas competições, diz Wilcox. Se o técnico dispensar o atleta quando decorreram apenas três quartos do treino, porque ele já está muito cansado, essa falta de disciplina vai prejudicar todo o time na competição. Se, ao contrário, ele forçar o atleta a dar duro durante todo o treino, ele vai desenvolver hábitos fortes, que vão assegurar vitórias. "Os únicos atletas ou jogadores que preferem técnicos "bonzinhos" são aqueles que não se importam com derrotas", diz o professor. Os ganhadores preferem técnicos que os forçam a chegar a seus limites nos treinos, porque a competição, por comparação, lhes parecerá mais fácil. 

Outra imagem que pode socorrer o advogado na hora de convencer o cliente a se aplicar "excessivamente" no treinamento é a do "sargentão" do exército. O sargento não odeia os recrutas porque os obriga a fazer exercícios bem acima do que parece razoável. Ao contrário, ele entende a função de uma boa preparação do soldado: a de salvar sua própria vida — e talvez a de outros — em situações estressantes de combate. 

A frase "treine como se fosse um jogo" é tão boa para o Tribunal do Júri, como para qualquer atividade esportiva, diz Wilcox. Isso significa que o advogado deve preparar seu cliente para o interrogatório com a dureza que ele espera encontrar no julgamento. Treiná-lo com meia força ou três quartos de força não é suficiente. É preciso confrontar o cliente de uma forma tão dura — ou, melhor ainda, mais dura — do que a que vai encontrar no tribunal. 

"Não seja ‘legal’ com o cliente durante o treinamento. Se você o respeita, não mostre a ele um respeito que não lhe será mostrado pela outra parte no julgamento. Jogue duro. Mais duro do que a outra parte possivelmente poderá jogar. O interrogatório mas difícil que ele deve enfrentar é o que vai ser realizado em seu escritório — ou onde for possível", aconselha. "Se você não for ‘terrível’ no treinamento, vai prestar um grande desserviço a seu cliente", adverte. É muito ruim para o advogado quando o cliente, depois do interrogatório, reclama que não estava preparado para tal situação. 

Mudando a célebre frase de Che Guevara, há que endurecer e também perder a ternura. Pelo menos até que o interrogatório do cliente seja bem-sucedido, graças a seu bom trabalho. "Talvez o cliente não lhe agradeça por isso. Normalmente, eles só agradecem depois que você ganha a causa. Mas sua satisfação profissional vai compensar o esforço", diz Wilcox.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 29 de julho de 2012, 7h00

Comentários de leitores

2 comentários

Tratamento pessoal

Gilberto Strapazon - Escritor. Analista de Sistemas. (Consultor)

Eduardo R., sobre ser legítimo ou não eu acrescento, por diversas vezes ter ocorrido comigo ou observado com outras pessoas, ser comum certos "advogados" conversarem com a outra parte de forma arrogante, presunçosa e francamente hostil. Em diversas situações precisei conversar com algum destes, em que eu estaria mais do que coberto de razão e que, além do mínimo respeito necessário, poderia ter sido uma conversa formal para uma solução objetiva, tornaram-se desde a primeira frase um festival de agressões e falta de capacidade para lidar com seres humanos. Conheço ótimos advogados que sabem conversar "como gente", mas infelizmente, o desprazer de lidar com tantos que desde o início assumem uma postura agressiva e descaradamente passional a favor de seu cliente para tentar forçar na marra uma situação (prova de incompetência), fazem com que nem sempre possamos ter boas impressões da categoria. Aos que tem civilidade todo meu respeito. Infelizmente parece que "tirar vantagem a qualquer custo" e "ausência de boas maneiras" tem sido o tipo de aprendizado que recebem nos seus cursos ao invés de aprenderem valores mais elevados.

Importante

Eduardo R. (Procurador da República de 1ª. Instância)

Os artigos desse articulista são muito importantes para toda comunidade juridica pois expõe a forma como a advocacia é conduzida nos EUA, onde a justiça é realmente tratada de forma desportiva (ganhar e perder). Atuo na acusação - na esfera federal - e não sabia que era consirado legítimo tratar o réu de forma que fizesse parecer não ter respeito por ele, ou dito de outra forma, que a comunidade jurídica espera que a acusação não tenha respeito pelos réus.

Comentários encerrados em 06/08/2012.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.