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O leitor como jurado no mais recente livro de Turow

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Pela segunda vez em pouco mais de 20 anos, Rusty Sabich volta a enfrentar um júri. No primeiro julgamento, acusado pelo brutal assassinato da amante, também promotora pública, como ele, foi absolvido por pouco. Agora, terá de responder pela morte da própria esposa, Bárbara. Nos dois casos, a acusação é comandada pelo ex-colega Tommy Molto, que nunca se conformou com o resultado do primeiro julgamento e finalmente vê a oportunidade para um acerto de contas. Promovido a juiz do Tribunal de Recursos e às vésperas de assumir uma cadeira na Suprema Corte Estadual, Sabich será defendido pelo mesmo advogado, o experiente Sandy Stern, encarregado de tentar desmontar a convincente tese de acusação apresentada aos jurados.

O Inocente, o mais recente título na carreira de Scott Turow é exatamente isso: uma história de tribunal repleta de mistérios e envolta por um intrincado jogo de emoções e disputas pelo poder. O livro é a continuação de Acima de Qualquer Suspeita, lançado em 1988, escrito enquanto Turow, na época recém formado em Direito pela Universidade de Harvard, trabalhava na promotoria de Justiça de Chicago. Ele largou o emprego público e logo entrou na lista dos maiores nomes da literatura policial de todos os tempos, com mais de 25 milhões de livros vendidos em todo o mundo.

Pouco depois do lançamento, Acima de Qualquer Suspeita faria sucesso também no cinema, com Harrison Ford no papel de Rusty Sabich. O Inocente, a continuação, ficará apenas na TV e no mercado de DVDs. Fez sua estreia nos Estados Unidos há poucas semanas e chega ao Brasil ainda neste semestre, pela TNT. O estilo de Turow, por sinal, facilita o roteiro, com uma narrativa repleta de detalhes e que coloca o leitor com espectador privilegiado. É ele, o leitor, mais do que a promotoria ou o advogado de defesa, que tem todos os elementos para condenar ou absolver o réu, mesmo que seja levado a rever suas convicções a cada capítulo, na medida em que novos elementos passam a ser incorporados aos autos.

A abertura é exemplar. Rusty Sabich está sentado na cama ao lado do corpo da mulher. Ficou sozinho na "cena do crime" por 24 horas até finalmente decidir ligar para o filho e dizer que a mãe morrera durante o sono. Nesse período, arrumou roupas no armário, recolocou livros na estante e ajeitou os jornais e revistas na escrivaninha. Não atendeu ao telefone e o seu único contato com o mundo exterior se deu por meio de um e-mail enviado a uma assistente, informando que não iria ao tribunal naquele dia.

Os médicos legistas não encontraram no local marcas de sangue ou hematomas no corpo da mulher. Os exames patológicos sugeriam como causa da morte um ataque cardíaco, provocado por arritmia e possível reação hipertensiva, um quadro compatível com o histórico médico da vítima. A análise do sangue confirmou a presença apenas dos remédios costumeiros tomados por ela, todos por recomendação expressa do seu médico. Morte natural, diriam.

O estranho comportamento do juiz era tudo o que a promotoria tinha e por isso Tommy Molto hesitou, em levá-lo mais uma vez a julgamento. Faltavam não apenas o motivo, mas também o modus operandi. Com o avanço das investigações, Molto passou a acreditar que, finalmente, tinha chances de provar a culpa de Rusty Sabich não só pela morte de Bárbara, sua esposa, como a da amante, 22 anos atrás. Se parecia mais fácil em Acima de Qualquer Suspeita, desta vez ele terá a seu favor não só os "benefícios" da chamada Lei Patriótica, como também o notável avanço da tecnologia ocorrido nas últimas duas décadas. É tudo o que o leitor precisa saber antes de "entrar" no Tribunal da fictícia Kindle County, a cidade criada por Scott Turow para ambientar todos os seus romances.

Serviço:
Título: O Inocente
Autor: Scott Turow
Editora: Record
Edição: 1ª Edição, 2011
Número de Páginas: 434
Preço: R$ 39,90 




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 é jornalista.

Revista Consultor Jurídico, 13 de fevereiro de 2012, 10h31

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