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Ideias do Milênio

"O aeroporto é o modelo da cidade contemporânea"

Entrevista concedida pelo sociólogo John Urry, ao jornalista Silio Boccanera, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30.

Da expansão do número de automóveis num país ao uso crescente de telefones celulares, internet e redes sociais, alterações se acumulam e abalam a maneira de viver das pessoas. Para melhor ou para pior. A mobilidade das pessoas aumenta viagens pelo mundo, estimula o turismo e a imigração, a forma de lazer e consumo. Entender o impacto dessas mudanças sobre indivíduo, grupo e sociedade é trabalho de sociólogo. Como o britânico John Urry, professor da Universidade de Lancaster na Inglaterra, autor de inúmeros artigos, livros e conferências pelo mundo, inclusive no Brasil há alguns meses, num esforço de explicar algumas das complexidades na sociedade em mutação acelerada. O Milênio foi encontrar John Urry em Lancaster, no interior da Inglaterra.

Silio Boccanera — Se pensarmos na cultura do automóvel, como ela se expande... A China é o exemplo perfeito no momento. Falamos sobre a mobilidade das pessoas. Na China, as pessoas estão indo do campo para as cidades. Mas, ao mesmo tempo, temos no mundo todo um processo de migração que sempre existiu, mas que se acelerou tremendamente. A ONU tem alguns números. Eles calculam que 190 milhões de pessoas no mundo todo vivem fora de seu país de origem. Isso tem um impacto.
John Urry Isso tem um impacto tremendo, já que não significa apenas a viagem inicial. Quando as pessoas estão em outros lugares, elas retornam de tempos em tempos ao seu local de origem, e há muitos parentes e amigos que vão visitá-las, vindo de seu local de origem, além de rotas complicadas envolvendo educação, cursos superiores. De forma geral, níveis elevados de turismo derivam do fato de pessoas terem se deslocado e estarem morando em locais diferentes daqueles onde cresceram. Alguns chama isso de “turismo disperso”.

Silio Boccanera — Você falou em turismo. Essa é outra área de estudo. Na verdade, um de seus livros foi traduzido para o português como O Olhar do Turista. Qual é o título original?
John Urry The Tourist Gaze.

Silio Boccanera The Tourist Gaze. Você se centra no estudo sociológico do significado do turismo. O que o turismo significa? Se for possível resumir o livro.
John Urry Uma das coisas que tentei fazer no livro foi mostrar as formas pelas quais... Para as pessoas irem aos lugares, é preciso haver algo que elas veem lá que os torne diferentes. Como se criou essa coisa de ver os lugares? Eu me interessei pelo surgimento disso, que se deu no final do século 18 na Europa Ocidental, em particular na área vizinha a onde estamos agora. Foi desenvolvido o “turismo cênico”, a ideia de se ver algo era importante. Na época, havia guias turísticos, inicialmente feitos de palavras impressas, mas, rapidamente, entraram as fotografias. E 1840 é um momento muito interessante, em que o olhar do turista começa em escala significativa. Foi mais ou menos na época em que a fotografia foi inventada. O primeiro guia turístico surgiu em 1839. O transporte ferroviário se desenvolvia na Inglaterra, e, em 1841, aconteceu o primeiro pacote turístico, organizado por Thomas Cook. Ele foi interessante por mostrar às pessoas o que olhar, o que elas deveriam ver quando fossem aos lugares. Daquele momento em diante, o olhar do turista...

Silio Boccanera — Se tornou massivo.
John Urry Massivo e difundido.

Silio Boccanera — Um dos fatores que estimula isso é a mídia. As pessoas ficam sabendo do que acontece no mundo todo. Os perigos em outros lugares se tornam próximos. Isso gera um clima de medo?
John Urry De forma geral, houve um grande aumento no anseio das pessoas de irem a outros lugares. Elas desejam ir e, pelo menos até 2008, tinham dinheiro para ir. Mas é verdade que existem temores bem específicos ao mesmo tempo. O que a indústria faz... o que as indústrias do turismo fazem é criar sistemas para, de certa forma, aplacar o medo. Há vários tipos de mecanismos para tornar mais fácil que as pessoas viagem. Eu mencionei Thomas Cook em 1841. Ele era brilhante em desenvolver sistemas para que as pessoas viajassem com segurança no meio da Era Vitoriana, mesmo que estivessem indo para locais inesperados e desconhecidos naquela época.

Silio Boccanera — Você acha que, usando o exemplo deste país, que nos é mais próximo, existe uma manipulação política do medo, seja pela mídia mais conservadora, que quer dar a impressão de que este país está desmoronando? Existe uma manipulação política?
John Urry Com certeza, é uma característica de um mundo mais globalizado: um senso de possibilidade e oportunidade por um lado, e medo de todo tipo de invasões, de perigos adentrando a sociedade ao mesmo tempo. Deve ser uma característica... Com certeza, é. A Grã-Bretanha tem esse medo do perigo. Mas esse medo existe em muitos outros países, incluindo países como a Dinamarca, que tinha um governo de direita até bem recentemente. O que também incitava... Mas a maioria das pessoas pensa na Dinamarca como uma sociedade com índice criminal extremamente baixo.

Silio Boccanera — Ao mesmo tempo, olhando o outro lado disso, se deixarmos de lado o Primeiro Mundo, a Dinamarca, a Escandinávia, e as sociedades pacíficas, temos regiões pobres do mundo. A forma como a população reage —  não ao medo produzido, mas ao medo real —  é criando formas de proteção: condomínios fechados... Obviamente, só os ricos podem fazer isso. Isso tem um impacto terrível na sociedade, essas comunidades protegidas.
John Urry Tem. Uma das características mais marcantes dos últimos 20 a 30 anos foi o aparecimento dos condomínios fechados mundo afora. E novas formas de sistemas de segurança. Creio que, de certa forma, a cidade contemporânea tem por modelo o aeroporto. Os sistemas do aeroporto se expandiram para campos maiores de segurança: para condomínios fechados e para dentro das casas das pessoas etc. O que possibilitou o aparecimento de empresas de segurança muito poderosas e abrangentes, que se especializaram nesse fenômeno novo dos circuitos fechados de segurança.

Silio Boccanera — Você criou essa metáfora do aeroporto como símbolo desse fenômeno que você mencionou. Outro símbolo da sociedade de hoje é o shopping center. Esses enormes shoppings que se transformaram em paraísos na Terra para as pessoas. Elas querem gastar, querem comprar para sentirem que realmente existem. Eles também se desenvolveram na sociedade com mais intensidade nos últimos anos.
John Urry É verdade. E há paralelos muito interessantes entre shoppings e aeroportos. Ambos têm os mesmos sistemas para organizar o fluxo de pessoas, para monitorar esse fluxo. Eles também tendem a ficar fechados por certos períodos. Eles são controlados de forma semiprivada. São espaços públicos, mas são, de certa forma, privatizados, com muitas das mesmas coisas. Os aeroportos em si são grandes shopping centers. São shopping centers com algumas pistas de pouso, como dito por alguém ao descrever Gatwick.

Silio Boccanera — É como uma minissociedade à parte funcionando ali. Ideal, segundo os objetivos dos que a construíram. Você está protegido, conta com segurança, você compra. E, ao comprar, você existe.
John Urry Exato.

Silio Boccanera — É como eles nos fazem sentir.
John Urry E, com tudo isso, retornamos à China. Que produz a maioria dos bens vendidos nos aeroportos, nos shoppings etc. Tudo isso depende de enormes navios de contêineres, que são uma característica muito importante do mundo contemporâneo. “O mundo globalizado”, pensamos em aviões e... Na verdade, são esses navios enormes que se movem lentamente. Novos navios de carga estão sendo projetados para levar 10 mil contêineres. Num único navio. E eles levam todas as commodities do mundo. Todas as mercadorias para o mundo, que serão vendidas, como você disse, nos shoppings. Eles são interessantes porque vendem essa imagem de Paris, Milão, Rio ou Londres. Eles se apresentam como centros internacionais de produtos da moda, o que os conecta aos centros da moda, quando a maioria dos produtos vêm da China nesses enormes e pouco glamourosos contêineres.

Silio Boccanera — O que me leva a outro foco da sua pesquisa e dos seus escritos que é a questão da “mobilidade”. Se pudesse nos dar uma ideia do que você quer dizer e das implicações.
John Urry O que eu tentei fazer foi “mobilizar” o estudo das sociedades. Em vez de pensar nas sociedades como arraigadas ou fixas, e, até certo ponto, imutáveis, me pareceu crucial pensar nas maneiras em que há movimento no centro de todas as sociedades. Obviamente nos últimos 30, 40, 50 anos, durante esse período. O movimento não é apenas movimento de pessoas, sobre o qual estamos falando até agora, mas também o movimento de objetos, sobre o qual falamos de passagem, o movimento de imagens, o movimento de ideias e informação. Quando pensamos em algum padrão, grupo, grupo social, instituição social, o que quero dizer é que eles precisam ser estudados analisando-se essas várias “mobilidades” que se encaixam produzindo padrões de vida diferentes, modificados, acelerados.

Silio Boccanera — Diferentes impactos em diferentes sociedades?
John Urry E em diferentes grupos dentro da sociedade. Uma movimentação maior de algumas pessoas corresponde a uma movimentação menor de outras. Não quer dizer que todos tenham se acelerado. Trata-se da taxa diferencial do movimento, mas não apenas de pessoas. Como eu disse, de objetos, informação, ideias etc.

Silio Boccanera — O que vai acontecer com as pessoas qualificadas para realizar trabalhos que estão desaparecendo? Eles não existem mais. Se você é mineiro de carvão na Grã-Bretanha, não vai ser fácil encontrar um emprego, não é?
John Urry Não. Embora tenha sido assim há cerca de 25 anos. O tema dos recursos naturais é interessante. Deve haver mais pessoas empregadas agora na mineração de carvão do que 25 anos atrás na Grã-Bretanha.

Silio Boccanera — Com as novas tecnologias?
John Urry Isso. O que é um grande problema para a mudança climática. Mas o desenvolvimento de energia como um todo... A energia é uma área muito importante ao se pensar as sociedades. É também muito importante para os empregos. Construir extensas fazendas de vento, por exemplo, é um novo campo interessante de empregos. Que países dominam os painéis solares, as fazendas de vento, a produção de veículos elétricos, baterias para...

Silio Boccanera — Há muito potencial na chamada “economia verde”?
John Urry Existe uma questão séria quanto à energia, quanto às novas tecnologias, novas maneiras de organizar o sistema energético. Parece um pouco com o que aconteceu no início do século 20, quando o automóvel, a eletricidade, o petróleo e a mobilidade aérea estavam se desenvolvendo. Há algo parecido acontecendo no mundo todo. Vai haver uma mudança. Como ela vai se processar, onde, e que serão os beneficiados ainda não está nem um pouco claro.

Silio Boccanera — Como você se alinha diante do perigo representado pela mudança climática? Alguns dizem que é um exagero, que não vai acontecer. Você se alinha com o que acham que ela é iminente?
John Urry Há provas irrefutáveis de que as temperaturas estão aumentando e tem havido um aumento na emissão de gases do efeito estufa, e de que há uma relação entre os dois. À medida que a emissão de gases do efeito estufa aumenta, em que há mais emissões na atmosfera, isso certamente fará com que a temperatura aumente. Isso custará sérios... Em parte, as pessoas vão fugir da elevação dos oceanos em regiões costeiras, e haverá maiores variações nos padrões climáticos, das quais há provas incontestáveis. Mas também a desertificação de vastas regiões, inclusive de partes do norte da China, voltando à China. A China está ciente de que tem um problema sério. A área em que sua agricultura historicamente se situava se tornou, em grande parte, um deserto.

Silio Boccanera — Você retorna à questão ambiental porque ela é inevitável. Uma de suas áreas de pesquisa e estudo recentemente tem sido essa, que inclui meio ambiente, mobilidade, transporte, carros, e, fundamentalmente, o petróleo. O que o preocupa com relação a ele?
John Urry O petróleo é um recurso muito interessante. É um recurso muito rico. Depois do sol, ele tem o maior teor energético de todos os recursos naturais que utilizamos. Sua utilização praticamente começa em 1901, quando o primeiro poço de petróleo foi descoberto no Texas. E, o século 20, uma espécie de século móvel, dependeu em larga escala do petróleo. Pelo menos 95% dos transportes utilizam o petróleo como combustível. E 95% dos alimentos do mundo precisam do petróleo de uma forma ou de outra. Praticamente todos os produtos manufaturados também utilizam em parte o petróleo. O que aconteceu nos século 20 foi uma dependência interessante. Primeiro por parte dos EUA e da Europa Ocidental, depois do resto do mundo, de um único recurso. Dizem que a maior estupidez com relação ao petróleo, esse recurso incrível, foi queimá-lo. Mas os humanos o queimam, e o queimaram. E não só usaram pelo menos metade do petróleo do mundo como geraram emissões de gases do efeito estufa, que parecem estar mudando o clima de forma irreversível. O problema do petróleo é que as reservas não são infinitas. Obviamente, ele não é sustentável, surgiu há centenas de milhares de anos, existe uma quantidade finita. A Agência Internacional de Energia, que é bem confiável nessa área, diz que a produção mundial de petróleo chegou ao auge em 2006. A produção dos EUA chegou ao auge em 1970. Muito importante. Há 40 anos eles vêm furando o mundo inteiro em busca de petróleo, com um custo para o planeta. E a China já está fazendo o mesmo. Para manter as “mobilidades” de que estávamos falando, o turismo mundial, viagens, padrões de amizade, de vida etc...

Silio Boccanera — O preço vai aumentar incrivelmente, ou vamos ter que mudar para outra forma de combustível.
John Urry Com certeza. Provavelmente, os dois. O preço já subiu. Ele aumentou 15 vezes desde o final dos anos 1990 até metade da década de 2000. E foi um fator no colapso dos subúrbios americanos que foram pagos com hipotecas de alto risco.

Silio Boccanera — De que forma?
John Urry Porque esses subúrbios foram construídos distante do centro das cidades. A única forma de se chegar até eles era de carro. Quando o preço da gasolina nos EUA subiu assustadoramente, várias pessoas pararam de pagar suas hipotecas. Elas não podiam mais arcar com o custo de se deslocar dos subúrbios para o centro das cidades. Elas, literalmente, entregaram as chaves.

Silio Boccanera — E se mudam para onde? Para o centro das cidades?
John Urry Quando podem, claro.

Silio Boccanera — Se estiverem empregadas.
John Urry Se tiverem empregos. Exatamente. Quando podem, elas se mudam. Já se nota que a utilização do automóvel nos EUA diminuiu de forma acentuada. As pessoas começaram a falar não só do auge da produção do petróleo, mas também do auge da utilização do automóvel na América do Norte e Europa Ocidental. Logicamente, haverá mais carros na China, como já discutimos. Mas, possivelmente, as pessoas vão tentar não utilizar os carros. Deve haver uma redução de viagens por bastante... Para os mais pobres.

Silio Boccanera — Transportes públicos?
John Urry O transporte público é bom na Europa. Não é bom na América do Norte...

Silio Boccanera — Ou no Brasil.
John Urry Na maior parte do mundo, ele não é bom.

Silio Boccanera — Mas é possível uma mudança de política. As pessoas vão se dar conta... Se o que está dizendo sobre o petróleo se tornar realidade, é melhor desenvolver o transporte coletivo, porque as pessoas não vão poder andar de carro.
John Urry
Exato. Eu ainda não estive em Curitiba, mas li muito sobre os ônibus, sobre o transporte público lá. Entre os pesquisadores do transporte, ela é considerada uma cidade modelo, que desenvolve uma forma alternativa de oferecer transporte. Acredito que Curitiba tenha altos índices de qualidade de vida, provavelmente altos índices de felicidade. Eu ainda não vi.

Silio Boccanera — Nesse tom, os moradores de Curitiba vão ficar felizes de saber, os outros espectadores vão ficar com inveja de Curitiba, mas gratos pela sua análise.
John Urry Certo.

Revista Consultor Jurídico, 24 de agosto de 2012, 8h00

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