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Mereça a moça

“O que menos importava era o importante: as crianças”

Por 

— A senhora, então, chama as crianças e elas vão contar tudo.

— O senhor acha mesmo que eu vou ter coragem de pedir para seus dois filhos de 6 e 8 anos entrarem aqui, olharem para mim, uma desconhecida, e pedir que eles me contem se a mãe deles se embriaga e fica roçando – não foi isso que o senhor falou? – em tudo quanto é homem que passa?! No dia que eu fizer isso, o senhor fica autorizado a procurar o promotor e pedir pra interditar a juíza que ficou maluca!

O tom veemente com que eu me dirigia a Welington era absolutamente inadequado para a situação. No entanto, há quase duas horas eu tentava fazer o casal compreender que, mesmo separados, os filhos eram definitivos e não se podia, a cada final de semana, expor as crianças ao comparecimento em delegacias, ao fórum e ao conselho tutelar da cidade. Eles até pareciam entender, mas, logo, recomeçavam as provocações intermináveis.

Viveram juntos por 12 anos, com seis interrupções pelo caminho. Todas essas vezes entraram na Justiça com processos de guarda, alimentos e visitação dos filhos que foram arquivados a cada reconciliação dos dois.

Morando em casas separadas há apenas dois meses, Silmara foi impedida de buscar os filhos de volta, no domingo à noite, porque Welington achou que ela chegou muito tarde. Se quisesse as crianças, procurasse a Justiça.

Recebi, na segunda-feira, um pedido de busca e apreensão. Um procedimento que tenha esse nome não pode ser boa coisa, principalmente se você é a parte mais fraca que vai ser buscada e apreendida.

Consigo contar nos dedos de uma mão o número de vezes em que autorizei a medida sem ouvir a outra parte. Só quando alguma criança corre riscos, caso permaneça na situação que se encontra. Caso contrário, faço como neste processo: marco uma audiência especial para o dia seguinte, com a presença do casal.

Para Welington e Silmara, o que menos importava, ali, era o mais importante: as crianças. Como em quase todos os casos envolvendo guarda e visitação, o que os dois queriam era a possibilidade de um reencontro para o acerto de contas, na única área que os unia para sempre: a prole.

Passaram um longo tempo da audiência ocupados em se acusarem mutuamente. “Vagabunda” e “frouxo” foram os adjetivos mais carinhosos que trocaram na ocasião. Imaginei, de todo modo, que se os deixasse falar das mágoas e ressentimentos, poderíamos chegar a um bom termo para facilitar a vida dos meninos.

Quando tudo se encaminhava para a compreensão, ela o provocava e, mascando chicletes, o encarava, testando sua capacidade de sedução. Welington caía em todas as armadilhas que ela espalhava pelo caminho, até perder a razão e, desesperado, apelar para a interferência dos filhos, como seus patronos de angústia, coisa que eu não podia permitir.

Respirei fundo, mais uma vez, e, serenamente, elogiei o papel que ambos representavam como pais. Afinal, as crianças, apesar de tudo, estavam bem cuidadas, tinham bom desempenho na escola e eram dóceis e afetuosas com ambos.

Foi a deixa para que ele se desarmasse. No começo, Silmara era boa em tudo. Boa mãe, boa mulher. Sempre com aquele jeito debochado e provocante, que ele acreditava que podia, com o tempo, consertar. Welington gostava dela e não tinha lugar onde fossem que alguém não o invejasse pelo temperamento bem humorado da mulher. Ela só precisava entender que era uma mulher casada, tinha filhos. Não era possível viver em bares, bebendo e vivendo uma vida de solteira.

— Da outra vez, doutora, ela me traiu com o vizinho da frente, um frangote de 24 anos e eu perdoei.

Olhei para Silmara que, disfarçadamente, piscou o olho para mim, buscando cumplicidade. Segurei o riso.

Silmara não era uma mulher bonita. Nem interessante. Se havia alguma ponta de beleza ou de charme, ela cuidou de esconder direitinho por baixo dos cabelos alisados e quase brancos pelo uso excessivo de tinta. Uma blusa muito apertada deixava a mostra um pedaço de tatuagem borrada. A alça encardida e puída do sutiã completava a moldura daquela moça, que pouco mais de 30 anos tinha vivido, tempo suficiente para estorricar a pele no sol e experimentar todos os produtos contraindicados para qualquer pele sensível. Ainda assim se sentia poderosa, sedutora e tinha o controle total de Welington, encolhido no uniforme dos Correios e pronto para mais outra tentativa.

— Olha pra mim se tu é homem! Diz que não tá louco pra voltar pra casa.

Welington estava. Sem nenhum pudor, pediram mais um arquivamento do processo. Ainda há quem reclame da lentidão da Justiça.

Há fetiches mais duradouros e mais lentos...

Esta crônica faz parte de uma experiência literária da juíza Andréa Pachá que, junto com outros textos, se transformará no livro “A vida não é justa”, que será lançado em novembro pela Editora Nova Fronteira.

 é juíza de Direito em Petrópolis (RJ) e ex-conselheira do Conselho Nacional de Justiça.

Revista Consultor Jurídico, 21 de agosto de 2012, 12h28

Comentários de leitores

2 comentários

É verdade

N_F (Outros)

Realmente, "o que menos importa é o mais importante: as crianças". E escrito por uma juíza, fica melhor ainda. Retrata o nosso Poder Judiciário. Se realmente o mais importante fossem as crianças, os juizes não se negariam a sentenciar a guarda compartilhada e também não se negariam a, se necessário, dar a guarda ao pai. Pois bem, é só olhar as estatísticas sobre as guardas no Brasil (vide IBGE) para saber que essa é a mais pura verdade do Poder Judiciário: "o que menos importa é o mais importante: as crianças".

É uma barbaridade mesmo!

Richard Smith (Consultor)

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Como perito e consultor, muito raramente chegam às minhas mãos casos "de Família", mas quando gerenciei um escritório de advocacia societária, no final dos anos 80, tive a oportunidade de observar uns poucos casos de separação, geralmente de algum sócio das empresas-cliente.
E era uma coisa absolutamente de louco! Eu era casado há pouco tempo e depois de um namoro de mais de cinco anos e ficava absolutamente escandalizado de como pessoas que um dia se amaram, se reuniram diante de um altar e dos amigos, podiam ser tão ferinas e cruéis. E mesquinhas...
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Houve um caso de um casal já um tanto idoso, no qual a mulher, meio que oprimida por um marido mandão (havia sido capitão dos COMMANDOS ingleses durante a Guerra!), aproveitou o "folêgo" do processo de separação para esvaziar um bem fundo e recheado "saco de maldades", com requintes de fazer inveja ao famoso Barba Azul! No que foi amplamente reciprocada, diga-se de passagem!
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Hollywood já tratou do tema, desde o famoso "A Guerra dos Roses", com Michael Douglas e Kathleen Turner, até um inclusive sob a ótica de um advogado especializado em separações (George Clooney) e autor de um famoso e renomado "contrato 100% blindado", mas que termina casando-se com uma recém divorciada (Catherine Zeta-Jones - também!) no filme "Até Que o Amor os Separe!".
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Mas o ali relatado é absolutamente "fichinha" ante às situações e armações que eu tive a oportunidade de tomar conhecimento com aqueles poucos casos!
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Mesmo do "alto" dos meus bem-vividos 52 não deixo de me espantar (e horripilar!) com certas atitudes de seres humanos aparentemente comuns e pacatos. Que coisa!
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