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Cezar Peluso, o juiz

Meu pai é um exemplo também para os netos

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Em nossa casa, o local onde podia encontrar meu pai mais facilmente era em seu escritório. Lá, ao entrarmos, o víamos sempre absorto em processos e livros, escrevendo em sua máquina elétrica, rodeado de muitos livros, estantes abarrotadas. Talvez preparando aulas, escrevendo o texto de uma palestra ou estudando os processos. A lembrança que tenho é da enorme dedicação ao seu trabalho, que se estendia inclusive nas noites e nos finais de semana.

No trabalho, assim como nas outras áreas de sua vida, sempre foi muito rigoroso e detalhista. Até hoje brincamos que é um típico “virginiano” (às vezes até em excesso!).

Claro que também havia os períodos de lazer: ouvir música (sambas de Beth Carvalho ou Paulinho da Viola, música clássica), tocar violão ou praticar esportes, sendo que os preferidos eram futebol e tênis. Corintiano, meu pai gostava de assistir os jogos ao vivo no Pacaembu, acompanhado das filhas mais velhas (eu e minha irmã Luciana). Já nos dias atuais, prefere torcer por seu time no conforto do sofá da sala. Os tempos são outros.

O prazer pela boa mesa, pelos bons vinhos veio um pouco mais tarde em sua vida. E rendeu uns bons quilinhos que lhe caíram bem, deixando-o com a aparência mais “saudável”.

Casou jovem com aquela que logo viria a ser mãe de seus quatro filhos, além de companheira inseparável de todos os momentos (a pessoa absolutamente FUN-DA-MEN-TAL na vida dele). Eu e minha irmã Luciana nascemos em Santos e depois vieram os outros dois filhos (Vinícius e Glais), nascidos em Igarapava, onde meu pai trabalhou como juiz. De lá, viemos para São Paulo, também devido ao trabalho do meu pai. Eu tinha 5 anos nesta época.

Atualmente, sendo mãe de dois meninos, consigo ter alguma idéia de como deve ter sido conviver com quatro crianças com pouquíssima diferença de idade... cada um com suas incontáveis necessidades, preferências, seu temperamento peculiar. O barulho constante, a preocupação com a educação, com as infindáveis contas a pagar...

Bem, em meio a isso tudo, a carreira de juiz de meu pai continuava progredindo, as promoções iam acontecendo. E como resultado de uma longa trajetória profissional de dedicação, competência e firmeza em seus princípios e valores acabou indo para Brasília em 2003, ser Ministro do Supremo Tribunal Federal.

No início, apesar do orgulho que sentia e da alegria que todos compartilhamos pela conquista de algo tão desejado, estranhei ver meu pai na mídia (ele que sempre foi tão discreto!). Suas fotos publicadas com tanta frequência no jornal, sempre ouvindo comentários dos conhecidos: “Vi seu pai na tevê!”. Ele tinha virado uma pessoa pública.

Aos poucos fui me acostumando, principalmente por saber como ele estava muito satisfeito com a nova função. A meu ver, a vida em Brasília parecia agradável na companhia de minha mãe, apesar da distância do restante da família. Logo fizeram novos amigos e pareciam estar gostando da rotina brasiliense. São Paulo, só quinzenalmente nos finais de semana.

No decorrer destes últimos anos passados no Supremo Tribunal, as pressões, cobranças e desafios em sua vida profissional foram inúmeros, mas sempre enfrentados por meu pai com firmeza e determinação. Pude confirmar que seus princípios e valores em nada se abalaram e que sua conduta continuava sendo um exemplo de coragem, honestidade e coerência a ser seguido.

Agora que se despede do cargo máximo que ocupou em sua vida profissional, tenho a certeza de que tem tranquilidade para seguir em frente, ainda como Ministro ou em outras atividades que venha a desempenhar no futuro. Energia e vontade de trabalhar, meu pai continua tendo de sobra.

E os filhos hoje têm suas próprias famílias, seu trabalho, seus filhos (no total são 6 netos e mais um ou uma a caminho). Tenho certeza (e sei que meus irmãos também têm) de que tentamos ao máximo transmitir aos nossos filhos os valores aprendidos e vividos em nossa educação. Um dia, os netos pequenos poderão conhecer outra parte da vida do “vovô Antonio”, e entender quem era o “Cezar Peluso”.

O mais importante nisso tudo é que, independentemente do cargo importante, do sucesso e do reconhecimento que tem em sua vida profissional, sempre será um pai muito querido e amado.

Érica de Toledo Piza Peluso é psicóloga e filha do ministro Cezar Peluso

Revista Consultor Jurídico, 19 de abril de 2012, 13h32

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