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Advogado pode se retirar se juiz se atrasa demais

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Hoje em dia não é raro que advogados sejam submetidos à seguinte situação: embora eles compareçam com pontualidade britânica a audiências aprazadas pelo Poder Judiciário, por vezes têm que aguardar por – literalmente – horas a fio, até o início do ato processual.

Caso o advogado tenha outro compromisso, em horário bem posterior àquele marcado para a audiência, fica refém da boa vontade do juiz para adiá-la. Isso porque tal adiamento é interpretado – erroneamente, como se demonstrará – como mera liberalidade do magistrado, e não direito do advogado.

Curioso notar que nas hipóteses de atraso do advogado para comparecer à audiência, ou de sua retirada do recinto após indeferimento do pedido de adiamento do ato, ele fica sujeito a diversas sanções: nomeação de defensor dativo ad hoc, encaminhamento de representação ético-disciplinar à OAB etc. O maior prejudicado é o próprio acusado, que tem o seu direito de defesa cerceado devido à freqüente natureza decorativa da assistência jurídica dativa no País.

Por outro flanco, longos atrasos para o início de audiências hoje se encontram tão arraigados na cultura e nas práticas forenses que são assimilados com assombrosa naturalidade, e destituídos de qualquer sanção. O fundamento jurídico dessa nefasta conjuntura é a interpretação equivocada que vem sendo feita da prerrogativa do advogado de “retirar-se do recinto onde se encontre aguardando pregão para ato judicial, após trinta minutos do horário designado e ao qual ainda não tenha comparecido a autoridade que deva presidir a ele, mediante comunicação protocolizada em juízo” (artigo 7º, XX, do Estatuto da OAB).

Não obstante, é teratológica a seguinte interpretação desse dispositivo: desde que a autoridade esteja presente na sede do Juízo, o Advogado não pode retirar-se em quaisquer circunstâncias, inclusive de excessivo e injustificado atraso após o pregão para a sua audiência.

Isso porque é imprescindível interpretação lógico-sistemática do Estatuto da OAB – cujo principal vetor hermenêutico deve ser o cariz público e indispensável à administração da Justiça dos serviços prestados pelo advogado. Nesse sentido, o âmbito de proteção normativa da prerrogativa profissional de receber tratamento com consideração, respeito e compatibilidade com a dignidade da advocacia (artigo 6º do Estatuto da OAB) a toda evidência abrange a pontualidade das audiências, dentro de parâmetros mínimos de razoabilidade.

Na perspectiva das relações sociais cotidianas, é inquestionável que qualquer atraso excessivo e injustificado para compromisso assumido denota clara falta de consideração e respeito pela dignidade do próximo. Não há qualquer fundamento lógico ou jurídico para não se estender esse mesmo raciocínio às relações forenses travadas entre Juízes e Advogados.

Decerto há razões de ordem administrativa, que por vezes podem até explicar atrasos nas audiências: a qualidade da administração judicial da pauta (aprazamento de várias audiências para o mesmo horário, ou de audiências com intervalo de tempo insuficiente entre elas); a cumulação de órgãos por magistrados; a dificuldade logística no transporte e apresentação de acusados presos etc.

Entretanto, tais mazelas administrativas não são atribuíveis aos advogados nem têm qualquer primazia, em termos de importância, sobre o tempo e os demais compromissos profissionais dos Advogados. Bem ao contrário, à míngua de qualquer relação de hierarquia ou subordinação entre juízes e advogados, estes não estão à disposição permanente dos eventuais atrasos daqueles, pois também têm outras audiências, causas, compromissos profissionais etc.

É lícito concluir que a menção feita pelo artigo 7º, XX, do Estatuto da OAB ao não comparecimento da autoridade que deve presidir a audiência é meramente exemplificativa, pois a razão legislativa (ratio legis) dessa norma é proteger o advogado de quaisquer atrasos excessivos e injustificados. Assim, o comparecimento da autoridade, mas para cuidar de outros afazeres que não a audiência apregoada, na perspectiva dessa prerrogativa advocatícia equivale ao seu não comparecimento. É intuitivo.

Logo, a norma a ser extraída do texto do artigo 7º, XX, do Estatuto da OAB é a seguinte: “o advogado tem direito a retirar-se do recinto onde se encontre aguardando pregão para ato judicial, após trinta minutos do horário designado, quando não tenha a autoridade que deva presidi-lo condições de iniciá-lo por qualquer motivo, mediante comunicação protocolizada em juízo.”

Ao retirar-se nessas condições, o advogado não comete infração ético-disciplinar, e sim exerce a sua prerrogativa de exigir dos magistrados tratamento com consideração, respeito e compatibilidade com a dignidade da advocacia (artigo 6º do Estatuto da OAB), o qual engloba a pontualidade das audiências, dentro de parâmetros mínimos de razoabilidade. Nessas circunstâncias, é imperativo o adiamento da audiência, sob pena de nulidade processual absoluta (vulneração ao núcleo essencial da cláusula da ampla defesa).

 é é professor da UERJ e da FND/UFRJ

Revista Consultor Jurídico, 30 de setembro de 2011, 6h56

Comentários de leitores

7 comentários

Coragem

Ruppert (Servidor)

Mas acontece é que é preciso verificar o lado em que se está.
Se o cidadão é Advogado de defesa criminal e a audiência atrasou mais do que o deteminado em lei, VÁ EMBORA. Se o juiz tumultuar o processo, ingresse com medidas cabíveis.
E por aí vai.

Realmente Francisco Mazza

Ruppert (Servidor)

É um grande equívoco essa briga entre Advogados e magistrados.
Os Advogados deveriam ter mais paciência que os juízes, promotores, etc.
Os Advogados deveriam entender que não é fácil ter que ler MILHÕES DE PROCESSOS, TER QUE FAZER AUDIÊNCIA PRATICAMENTE TODO DIA e receber 20 mil por mês (dinheiro que um Advogado recebe para uma ou no máximo 4 causas).
É complicado, mas os Advogados precisar ter mais paciência e entender que a estrutura está falida no Estado, e que os juízes, promotores, etc, trabalham como condenados para receber por mês o que o Advogado ganha em 4 causas, aproximadamente.
Mas confesso que não é fácil aguardar audiência (mas confesso que para quem precisa ler milhões de processos por ano, a sensação de mandar é um gostinho que os Advogados poderiam dar, para que os juízes e demais funcionários burocratas se sintam melhor).

O judiciário e os advogados.

Francisco Mazza (Juiz Estadual de 1ª. Instância)

É um grande equívoco pensarem advogados e Magistrados que um atacando o outro poderá melhorar a instituição da qual fazemos parte integrante. Só se concebe o valor real de de um/uma advogado(a)quando nos deparamos em situações deveras difíceis e que só um advogado pode nos confortar, defender nosso direito. Aí nessa hipótese, se vê a beleza do trabalho desses profissionais. Tenho orgulho de dizer que tenho alguns como meus amigos e que já me representaram judicialmente. Todavia, não se pode olvidar do papel do Magistrado, obrigado a presidir audiências que as vezes extrapolam os limites do tempo razoável de duração em face das nuances e entraves colocados pelas próprias partes e seus advogados. É bem verdade precisamos repensar o judiciário, e só poderemos melhorar unindo forças e exigindo do executivo um tratamento respeitoso, para que só assim, possamos melhor atender aos jurisdicionados e as relações entre advogados e magistrados. Não sei se utopia, mas entendo que esse é o caminho que termos de seguir, de mãos juntas, com um único ideal, a solução dos conflitos de toda natureza. Aos advogados o meu reconhecimento de seu papel extraordinário no aprimoramento da democracia. E se me permitem um conselho, cobrar do executivo efetivar as condições necessárias para o bom atendimento a "clientela" judicial. Aos juízes, paciência, transparência e o olhar respeitoso aqueles que representam o interesse de milhões de pessoas sequiosos e sedenta de JUSTIÇA.

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