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Uma Pena!

Viver da competência é o concurso diário do advogado

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Origem pobre, meu pai dizia. Não de classe média, pobre mesmo, completava. Não era bem assim. Com um carro simples, colégio particular e conforto em casa, não era bem pobre e sim de uma classe média empobrecida. Portanto, o sonho da minha família era a aprovação, um passaporte para a vida tranquila. Um salário certo, uma aposentadoria garantida e outras vantagens: o sonho de consumo da classe média.

O despertador tocou e minha mãe me derrubou da cama. Iria fazer o concurso do Ministério Público. Fiz e não passei. Faria de novo e não passaria. Mesmo que tivesse sido o melhor aluno de minha classe, desde os vestibulares que prestei, incluindo da universidade federal. Ainda assim, não passaria por não ter estudado. E não passaria tantas vezes quantas fizesse, considerando que o concurso não contava com compadrios.

Bem, não tinha saída. Fui ser advogado. Advogado e professor. Mais animado com o magistério, a advocacia foi acontecendo. Vi que era bom, as coisas foram se encaminhando. Vi liberdade na profissão. Fazer o próprio horário, escolher os clientes e as causas, cobrar o que pretende justo como honorários e, por fim, viver e sobreviver não de cargos estáveis e sim da própria competência. Esse sim é o concurso diário do advogado! Dormir depois do almoço, de pijama e cortina fechada. Isso sim é liberdade (além de questionável costume ibérico).

Prosperar advogando é enobrecedor. Não ter costas quentes, apadrinhamentos, esquemas ilícitos, gastar a sola de sapatos por corredores de repartições pedindo favores, não sobreviver de financiamentos e créditos consignados na base dos cargos comissionados é batalhar e vencer a luta diária na advocacia. E, ainda por cima, pensar de forma livre e publicar na imprensa é enaltecer a profissão, ao contrário de rastejar por mensagens funcionais restritas.

Ao contrário do que pensam muitos, nada tenho contra o Ministério Público. Ao contrário. Julgo que a instituição sui generis, de classificação republicana atípica e de posse de um constitucional cheque em branco, contribuiu para a democracia brasileira como nenhuma outra entidade pública o fez nesses anos de recente democracia. Minha mãe devia ter alguma razão, ao me derrubar da cama para fazer aquele concurso – alguma coisa deveria ser boa. Coração de mãe não erra, afinal.

Fadado ao fracasso em concursos, felizmente não me restou opção a não ser a liberdade de advogar. Fazer o que? Do limão, faz-se uma limonada, oras... Vi que é preferível ser advogado, profissional liberal, livre pensador, a compor com quadros onde se engole muito sapo, arquivando-se inquéritos contra a vontade. “Uma pena”, como diriam subordinados. É preferível ser advogado honesto a conviver mansamente com colegas acusados de corrupção.

Enfim, melhor ser advogado e jogar poker (com amigos promotores, inclusive) do que oferecer denúncias mal fundamentadas que são arquivadas logo em seguida. Melhor ser advogado e dizer publicamente o que pensa do que não ter condição de discordar abertamente dos “chefes”. Enfim, melhor viver na eventual adversidade da liberdade do que sobreviver no conforto da subordinação.

Minha mãe não errou ao me obrigar a prestar aquele concurso pro Ministério Público. Se eu passasse (tendo estudado, este vil admirador da cesta), certamente não poderia escrever e publicar esse artigo. Seria eventual sujeito de apuração disciplinar. Teria minha carreira eventualmente frustrada e minhas promoções obstadas, quem sabe... Mas seria uma pessoa mais disciplinada, mais obediente, mais controlada, mais ponderada. “Uma pena”. Ah, se eu ouvisse minha mãe!

 é advogado em Mato Grosso e Brasília, doutorando em Direito Penal e membro da Academia Mato-Grossense de Letras.

Revista Consultor Jurídico, 11 de outubro de 2011, 9h14

Comentários de leitores

16 comentários

Ponto de vista oblíquo

MAX ZANIRATO - Bacharel e professor de Direito (Investigador)

Não me atreverei a entrar no mérito desta dissertativa do nobre e bem sucedido causídico, afinal, ponto de vista é particular e sempre cabe argumentos favoráveis e contrários, de modo que nunca se chega a denominador comum.
Tenho 17 anos de vida pública (4 anos como militar da Marinha e 13 como policial civil em São Paulo) e não há como discordar do que disse o advogado Mahon. Falta liberdade. Mas discordo no que tange a falta de caráter ou coragem. Se não tiver apegos a cargos ou favores, seja original e diga o que pensa... mesmo sabendo que vai tomar uma "ripada" do chefe!
Por outro lado, é excelente ter a sua própria rotina, fazer o que gosta, quando gosta, e ainda ganhar bem por isso!
Discordo daqueles que dizem que advogados se vendem a talão de cheques recheados gordamente. Não disse que estes não existem por aí, estes falsos defensores, mas sei e conheço vários que se dão ao privilégio de defenderem causas que acreditam serem justas, e quando estão diante de algum criminoso praticamente condenado, limitam-se à defesa técnica e não em defender bandido, mentindo sobre os fatos.
Como tem muito advogado lixo que não sabe nada e não tem escrúpulos, tem do mesmo jeito promotor e juiz da mesma vala.
Agora de uma coisa não dá para discordar do Dr. Mahon: na época dele para ser advogado não precisava estudar muito... mesmo adorando a cesta era possível advogar, pois tenho certeza que ele não fez o Exame da Ordem nos moldes atuais, pois também precisaria esperar sua mãe acorda-lo para fazer o concurso da advocacia, pois do contrário estaria como milhares de bacharéis em Direito deste país, impedidos de trabalhar, passando dificuldades para sobreviver, pois muitos não são sequer da classe média empobrecida.

Ao Axel

Ruppert (Servidor)

Você disse isso:
""11/10/2011 11:25Axel (Bacharel)Por outro lado...
Considerando a classe dos advogados como um todo, tal
vez seja melhor:
Fazer parte do MP do que se especializar em livrar da cadeia pistoleiros ou traficantes de drogas, mesmo que para isso seja preciso mentir, deturpar a verdade.
Fazer parte do MP do que prestar assessoria a sonegadores, ensinando a distorcer a realidade para burlar a legislação.
Fazer parte do MP do que basear sua ética no talão de cheques dos clientes, onde a razão está com o estuprador ou com a vítima, dependendo de quem está pagando.
É muito fácil redigir um artigo com as generalizações que este advogado se propõe a descrever. Difícil é explicar a atuação dos seus colegas de profissão em incontáveis casos onde a ética é deixada de lado e a desonestidade faz parte do contrato de prestação de serviços.
Artigos como este não contribuem em nada para melhorar a situação da justiça neste país, e sim para criar ainda mais animosidade entre advogados, juízes e MP.""
Agora te pergunto: se o MP e os "juízes", delegados, e demais amantes da condenação pública antes da sentença, não conseguem vencer o ADvogado, pergunto: QUEM É O CARA? HUMN??...

Direito de escolher o próprio caminho

DPF Falcão - apos (Delegado de Polícia Federal)

É possível ser feliz, competente e probo na vida pública.
O servidor público não se obriga a "engolir sapos", assim como qualquer outro profissional da iniciativa privada ou autônomo. Depende de seu caráter, destemor e desapego a cargos e "favores".
É uma questão de escolha, vocação!
Felizes aqueles que podem traçar o próprio caminho...

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