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Voltas do mundo

Ex-promotor enxerga agora os excessos do MP

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Diz o adágio popular que Deus escreve certo por linhas tornas. Creio que nosso Criador não seria reprovado num curso de caligrafia. As voltas e reviravoltas que o mundo dá certamente provam, com certa dose de ironia, que as coisas cumprem objetivos estranhos à nossa vontade, mas com uma pontualidade divina. É o caso tormentoso pelo qual passa o novo desembargador Marcos Machado, respondendo por aquilo para o qual nem havia sido contratado ainda.

Foi licenciado do Ministério Público para ingressar na administração executiva do Estado de Mato Grosso e, por lá, perambulou por vários órgãos, tornando-se peça essencial do governo passado. Questionado judicialmente (inclusive por mim) acerca do posicionamento de um promotor de justiça no seio do governo estadual, acabou retornando às origens ministeriais e, por fim, foi aclamado por uma acachapante votação para o Tribunal de Justiça de Mato Grosso.

Noutras palavras – vivenciou, em poucos anos, a experiência em três vetores de poder republicano. Ironicamente, o MPF obteve do Judiciário ordem para bloquear os bens do ex-governador e do atual desembargador, entre outras pessoas envolvidas numa suposta dispensa irregular de licitação para um segmento da saúde pública. Não deixa de ser pitoresca a situação, mas de toda a crise surge uma evidente oportunidade.

O julgador Marcos Machado agora vê o que o promotor Marcos Machado provavelmente não via: os excessos do MP. Há anos, reclamo publica e insistentemente da pirotecnia de investigações que usa a imprensa para fazer o picadeiro escandaloso que as megaoperações demandam para colher o apoio popular. Bloquear bens de alguém que nem sequer era gestor na época dos fatos é uma rotunda ignorância! É um traque, uma blague processual!

Como declarou o atual desembargador, falta ética e compostura ao membro do Ministério Público que nem chegou a ouvi-lo. É sempre assim – as conclusões são tomadas de forma açodada, precipitada, na base da cabeçada como numa aposta em roleta para ver se o Judiciário concede ou não as medidas folclóricas que pretende. Infelizmente, o Conselho Nacional do Ministério Público tem uma atuação bem mais tímida do que o CNJ na apuração e punição desses excessos.

Resta, no entanto, o alento de que a sociedade já entendeu agressivas as medidas tresloucadas contra o devido processo legal. Ainda que encontrem um respaldo passageiro, sempre cairão por terra nos tribunais superiores. Mais distantes do cochicho midiário, mais imparciais, mais formais, mais experientes, os tribunais regionais federais e os tribunais superiores reformam quase a totalidade das decisões oriundas de megaoperações nas quais pude advogar.

São grampos sem autorização e por tempo desarrazoado, quebras de sigilo bancário e fiscal sem comprovação da necessidade, bloqueios de bens absolutamente desproporcionais, precipitados e desfundamentados, prisões desnecessárias, arbitrárias e muitas vezes de pessoas erradas, investigações laterais sem a devida autorização, referências incorretas no processo, problemas de distribuição, enfim, uma coleção de ilegalidades que custam à sociedade dispendiosas operações que são anuladas.

Felizmente, o mundo dá voltas. E as voltas que o mundo dá conduziram um atuante, militante e apaixonado membro do Ministério Público ao Poder Judiciário para lá sofrer com os abusos de seu órgão de origem. Após reverter a bisonha decisão contra si, ganharemos um julgador não só preparado, mas portador de experiências de vida que vão garantir ao jurisdicionado o direito ao devido processo legal que o desembargador não teve até agora.

 é advogado em Mato Grosso e Brasília, doutorando em Direito Penal e membro da Academia Mato-Grossense de Letras.

Revista Consultor Jurídico, 5 de outubro de 2011, 9h52

Comentários de leitores

9 comentários

O ponto equidistante...

Stanley M.D.Tenório (Advogado Autônomo - Administrativa)

Bela lição nos é apresentada através do sereno artigo, pois entre os pontos extremos vislumbrados através de comportamentos que buscam o brilho da pirotecnia, simples demonstração enfermiça de empoderamento pueril ou apuração nenhuma, deve-se alcançar a linha equidistante, a tão propalada medida justa porquanto a perseguir somente o justo, algo que dormita em berço que transcende o plano da concepção dita humana...
Alcançaremos tal ponto tão logo sejamos capazes de nos aproximarmos da dor do próximo...

Debate entre Sérgio e Armando

Marcelo Augusto Pedromônico (Advogado Associado a Escritório - Empresarial)

Resposta do Sérgio ao Armando:
"Enfim, nada do que escrevi foi aquilo que eu quis dizer, e se você disser que eu disse aquilo, vou dizer que não era o que eu queria dizer."
Bacana...

Prezado Sr. Armando Prado, (1)

Sérgio Niemeyer (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

Não sei em que o meu comentário pode ter sido infeliz. Primeiro, não fiz nenhuma afirmação peremptória a respeito do trabalho de Marx, salvo quanto ao materialismo histórico, teoria com a qual concordo. Segundo, deixei em aberto toda possível avaliação sobre outras temáticas que envolvem aquele pensador. Terceiro, em nenhum momento afirmei que Marx não devia ser lido. Eu mesmo o leio de quando em vez.
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Talvez o seu comentário, isto sim, esteja impregnado do preconceito que acomete e ofusca todo comunista radical, impedindo uma avaliação crítica mais serena, objetiva e consentânea do que os outros escrevem. A abordagem que comunistas radicais costumam fazer via de regra está inquinada de um subjetivismo passional incompatível com o exercício da razão.
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Provavelmente não compartilhamos a mesma leitura de Marx, à lá Lênin. Prefiro a interpretação de Mikhail Tugan Baranovski, economista russo de renome dos tempos pré-revolucionários e que destruiu a falsa teoria da mais-valia de Marx.
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Isso não significa que eu não dê valor ao que Marx escreveu. Muito pelo contrário. O considero um dos maiores sócio-filósofos de todos os tempos. Mas me permito escolher com o que concordo ou não, sempre fundamentadamente, e nunca por capricho. Também consinto em que minha interpretação possa estar influenciada pela minha educação e cultura, afinal, sou um ser social e cultural, um ser do meu tempo, e também minha capacidade de reformulação dos valores do meu tempo esbarra nos limites da cultura em que estou imerso.
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(CONTINUA)...

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