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Missão Social

Base ética do advogado passa por Direitos Humanos

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Refletir sobre a missão social do advogado é a preocupação deste texto. Mas, na verdade, ao discutir a missão do advogado acabamos por enveredar por outros caminhos. Tratamos, por exemplo, da luta pela sacralidade da pessoa humana. Cuidamos dos Direitos Humanos e dos compromissos concretos que decorrem da decisão existencial de optar por essa causa.

Figuras sagradas da Advocacia, nem sempre conhecidas pelos jovens como deveriam ser, são mencionadas com reverência.

Num mundo e numa época em que se perdem os referenciais éticos, os mais velhos têm o dever de ajudar os mais jovens a buscar o sentido essencial das coisas.

Ex-alunos que se tornaram advogados e alunos de hoje que se preparam para um dia servir ao Direito, como advogados ou mesmo noutros misteres ligados ao mundo jurídico, frequentemente me interpelam sobre o que entendo deva ser o fundamento da ética profissional.

Destaco três pontos na ética do advogado: seu compromisso com a dignidade humana; seu papel na salvaguarda do contraditório; e sua independência à face dos Poderes e dos poderosos.

Em primeiro lugar, creio que é a luta pela dignidade da pessoa humana que faz da Advocacia, não uma simples profissão, mas uma escolha existencial.

Se nos lembramos de Rui Barbosa, Sobral Pinto, Heleno Cláudio Fragoso, qual foi a essência dessas vidas?

Respondo sem titubear: a consciência de que a sacralidade da pessoa humana é o núcleo ético da Advocacia.

Esta é uma bandeira de resistência porque se contrapõe à “cultura de massa” que se intenta impor à opinião pública, no Brasil contemporâneo.

A “cultura de massa” inocula o apreço “seletivo” pela dignidade humana. Em outras palavras: só algumas pessoas têm direito de serem respeitadas como pessoas.

Há um discurso dos Direitos Humanos que é um discurso das classes dominantes.  Nações poderosas pretenderam e pretendem “ensinar” direitos humanos. Esquecem-se essas nações que o imperialismo político e econômico é talvez a mais grave violação dos Direitos Humanos.

Os Direitos Humanos que propomos aos jovens como “opção de vida” não são, obviamente, os Direitos Humanos dos poderosos da Terra, dos que fazem dessa causa um instrumento da mentira.

Preferimos buscar noutras fontes a seiva dos Direitos Humanos.  E, a nosso ver, a mais rica seiva são os movimentos populares.

De minha parte, não foi somente nos livros que aprendi Direitos Humanos. Suponho que aprendi muito mais na prática, ao me comprometer com a luta dos oprimidos. Não foi um esforço solitário, mas, pelo contrário, coletivo. Companheiros que aprendiam e ensinavam – partilhavam – na Comissão “Justiça e Paz” da Arquidiocese de Vitória. Aprendemos Direitos Humanos: nas prisões; nas chamadas “invasões”; na Catedral de Vitória, que foi aberta aos “sem teto”, quando ocorreram “despejos em massa” na capital do Espírito Santo; nas margens do Rio Doce, onde famílias estavam desabrigadas, por causa das enchentes do rio.

A apropriação dos Direitos Humanos pelos movimentos populares não significa desprezar a construção dos Direitos Humanos a partir de outros referenciais e outras origens.

Se o objetivo é a dignidade da pessoa humana, é a ruptura de todas as formas de opressão, as vertentes acabam por encontrar-se e os militantes hão de comungar as mesmas lutas.

Nosso segundo ponto lembra que o Advogado salvaguarda o contraditório, isto é, o embate de teses e provas que se defrontam perante o juiz.  Já Sêneca percebeu a necessidade do contraditório quando afirmou que “quando o juiz após ouvir somente uma das partes sentencia, talvez seja a sentença justa. Mas justo não será o juiz”.

Finalmente, vejo a independência em face dos Poderes e dos poderosos como atributo inerente ao papel do Advogado.  Não tema o advogado contrariar juízes, desembargadores ou ministros. Não tema o advogado a represália dos que podem destruir o corpo, mas não alcançam a alma. Não tema o advogado a opinião pública.  Justamente quando todos querem “apedrejar” aquele que foi escolhido como “Inimigo Público Número 1”, o advogado, na fidelidade à defesa, é o Supremo Sacerdote da Justiça.

 

(*) João Baptista Herkenhoff, 75 anos, Juiz de Direito aposentado, Professor na Faculdade Estácio de Sá do Espírito Santo.

E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br Homepage: www.jbherkenhoff.com.br

 

Observação: Todos os meus artigos são de livre divulgação, por qualquer meio ou veículo, inclusive através de transmissão de pessoa para pessoa.

 é juiz aposentado, livre-docente da Universidade Federal do Espírito Santo e escritor.

Revista Consultor Jurídico, 27 de novembro de 2011, 11h27

Comentários de leitores

2 comentários

Necessidade de atualização do discurso

Marcos Alves Pintar (Advogado Autônomo - Previdenciária)

Creio que qualquer pessoa com um mínimo de cultura sabe desde criança de todos esses princípios que devem reger a profissão de advogado. Não há dúvida sobre qualquer deles. Fato é que, na prática, a advocacia no Brasil é uma atividade quase que criminosa, considerando a forma com que autoridades e a própria população a trata. De nada adianta, na minha visão, ficarmos evocando grandes nomes, ou exortando a dignidade da profissão de advogado se isso não se repercute no dia a dia. No mundo moderno, notadamente no Brasil, não há espaço para valorar uma profissão com base no resultado que produz. Tanto a mais zelosa auxiliar de um asilo, que trabalha gratuitamente visando ajudar o próximo, quando o traficante de drogas criminoso e assassino possuem o mesmo valor na sociedade de hoje, que não mais confere "status" ao cidadão com base no que ele produz de benéfico (ou maléfico) à sociedade. Carros, mansões, viagens e "boa imagem" é o que conta, pouco importando se isso foi conseguido com o exercício da advocacia, trafico de drogas ou prostituição. Creio que a advocacia deve começar a entender isso, pois do contrário estaremos fadados a permanentemente sermos tratados como criminosos perigosos, que é o que ocorre na prática todos os dias.

Parabéns ao ilustre articulista pelo artigo.

Manente (Advogado Autônomo)

O autor demonstra a humildade, que faz falta a muitos outros operadores do direito.
Mais uma vez, parabéns.

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