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Superando os atrasos

Brasil pode promover uma grande Copa do Mundo

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O Brasil vive um momento único em sua história, a poucos anos de sediar os dois maiores eventos esportivos do planeta – a Copa do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos de 2016.  Que grande oportunidade não apenas para atrair turistas, mas investimentos e conhecimento para a organização dos jogos. Melhor ainda se o contexto é de ascensão econômica e política do Brasil no cenário internacional, que temos experimentado nos últimos anos. Os olhos do mundo estão voltados para cá, atraídos pelo celeiro de oportunidades em que nos convertemos. É a ocasião perfeita para mostrar aos amigos investidores, nacionais e estrangeiros, que o Brasil tem um ambiente jurídico seguro e, ainda, pra buscar lá fora e em todos os cantos do nosso país as ideias e os talentos que farão a diferença.

De fato, há ótimas razões para o entusiasmo. Mas também para a preocupação, sobretudo com o ritmo da preparação para eventos de tamanha magnitude. Para a Copa, os investimentos devem chegar a R$ 47 bilhões, somando o que será gasto principalmente com aeroportos, estádios, telecomunicações, segurança, transporte, energia e saúde. Mas o fato é que já se passaram quase quatro anos do anúncio oficial do Brasil como sede e, a três anos do evento, somente 0,5% dos recursos do BNDES para construção de estádios, por exemplo, foram liberados. Nove dos 13 aeroportos que serão utilizados na Copa podem não ficar prontos a tempo, segundo previsão do Ipea. Ainda há muitas ainda em fase de projeto – um dos motivos, aliás, alegados para a demora na liberação de recursos. Por que, afinal, os projetos básicos estão demorando tanto pra ficar prontos? É preciso, no entanto, olhar pra frente: dá pra tirar o atraso? Pela experiência que adquiri em mais de 20 anos advogando na área de licitações de alta complexidade e no mercado imobiliário, a minha resposta é sim.

O que faz a diferença no cronograma de uma obra são o planejamento, um bom projeto, tecnologia e, claro, gente capacitada. Com esses elementos, é possível cumprir um prazo apertado. Um shopping de grande porte, por exemplo, pode ser erguido em até três anos, considerando desde a idealização do projeto. Por que não poderíamos, então, construir ou reformar um estádio em dois ou três anos? Já um edifício residencial pode ficar pronto em dois anos – descontando o tempo que a obra fica parada para a captação de recursos. Havendo dinheiro, portanto, a coisa anda – e dinheiro não parece ser o problema para as obras da Copa. É essencial que as licitações sejam publicadas logo, mas pra isso os projetos básicos também têm que estar prontos.

Um exemplo muito expressivo de superação vem de uma atividade que acompanho desde o nascimento: as urnas eletrônicas. Como advogada, participei de todas as licitações em cada eleição. Num projeto inovador como esse, que tornou o Brasil uma referência mundial, é impossível que não haja imprevistos e atrasos. Mas todos os processos, no final, foram bem sucedidos, porque houve planejamento, mão-de-obra preparada e tecnologia avançada. Nada impede que a gente repita essa experiência de sucesso em outras áreas.

Ao pensar na Copa e nas Olimpíadas, além do dinheiro público, sem sombra de dúvida os investimentos privados são de suma importância, tanto nas grandes obras quanto na melhoraria das instalações de hotéis e restaurantes, por exemplo. Do ponto de vista jurídico, o ideal é que as licitações de grande porte sejam todas internacionais, para permitir a participação de investidores estrangeiros, o que gera mais competitividade e economia. Nessa hora o empresário brasileiro também deve ser ousado e apostar em parceiros estrangeiros. Quem vem de fora com capital financeiro, técnico e humano à disposição tem excelente oportunidade de se associar a empresas nacionais. É um ótimo momento para trazer esses empreendedores ao Brasil – coisa que, mais cedo ou mais tarde, eles acabarão fazendo, nem que venham sozinhos, abrindo filiais de suas próprias empresas por aqui. Se o investidor estrangeiro vier agora e fizermos nossa parte pra que tudo corra bem, ele ficará. Ou, pelo menos, voltará outras vezes. Estamos, portanto, na hora mais que oportuna para buscar novos parceiros. Um dos pilares do poder de inovar é estar aberto a novos recursos e talentos, venham eles de onde vierem. E o Brasil pode se firmar como um farol de inovação para o mundo.

Não podemos falar em inovação sem pensar, claro, em pessoas. Mais de 300 mil empregos diretos e 400 mil temporários devem ser criados só por conta da Copa. Hoje, já vemos um fenômeno muito significativo no mercado: as oportunidades geradas pelo crescimento econômico estão atraindo não só profissionais estrangeiros pra trabalhar aqui, mas competentes profissionais brasileiros que tinham ido trabalhar em outros países e agora estão sendo repatriados. Buscar profissionais já estabelecidos, estejam onde estiverem, é um caminho valioso para enfrentar os desafios que esses grandes eventos esportivos e o desenvolvimento do país nos impõem.

Gente competente e bem treinada tem lugar quase garantido no mercado. E quem ainda não é tão qualificado pode, por que não, ter uma mãozinha do patrão. Muitos donos de bares e restaurantes saíram na frente e já estão preparando suas equipes no atendimento ao turista estrangeiro, a começar pelo ensino do inglês. Começam a ganhar diferencial desde já. Eles tiveram visão de futuro e não vão ficar pra trás.

Para receber bem quem vier para os jogos em 2014 e 2016, é preciso ainda atenção muito especial à segurança nos estádios, nas ruas, nos aeroportos. O ministro dos Esportes anunciou há poucos dias que uma secretaria foi criada para concentrar os projetos nessa área. É de se esperar que a nova secretaria fique a par dos recursos avançadíssimos que podem tornar o Brasil um exemplo de segurança e eficiência na organização dos jogos – como os passaportes com identificação biométrica, tecnologias para impressão e reconhecimento de ingressos que inibem a falsificação, câmeras de vigilância, dentre muitos outros.

Transporte e mobilidade urbana também são pontos críticos. Já imaginou um congestionamento na porta do estádio que impeça o público de chegar a tempo à partida? Ou então se as enchentes, que são rotina nas principais capitais brasileiras, atingem meio mundo no meio do caminho? Além disso, diante do congestionamento aéreo que já enfrentamos hoje, não seria a hora de repensar a nossa malha ferroviária como alternativa para o transporte de passageiros?

Dinheiro é essencial pra levar isso tudo adiante, mas já está mais do que claro que não se trata apenas de investir, e sim de planejar, recrutar gente que sabe o que faz. O Brasil tem a chave de ouro para mostrar ao mundo que sabe fazer e, mais que isso, agir como um país que anda pra frente, que tem senso de oportunidade pra aproveitar a exposição internacional que a Copa e as Olimpíadas nos trazem. É um desafio perfeitamente possível, que só pode ser cumprido com ousadia, talento e os parceiros certos. Assim, para a alegria do Brasil e dos amantes do esporte, a bola vai poder rolar sem medo.

 é fundadora do escritório Lúcia Tucci Advogados e membro da Comissão de Crimes de Alta Tecnologia da OAB-SP

Revista Consultor Jurídico, 1 de novembro de 2011, 14h28

Comentários de leitores

1 comentário

Nada a comemorar

Marcos Alves Pintar (Advogado Autônomo - Previdenciária)

O fato do Brasil sediar em breve eventos importantes do esporte quase nada significa em relação à prolatada ascensão no cenário internacional, por dois motivos. Em primeiro lugar, trata-se de uma tendência imposta já há vários anos pelos países mais desenvolvidos, dando a preferência a que eventos mundias ocorram em países menos desenvolvidos, justamente para oportunizar trabalho e novas oportunidades aos que mais precisam. Prova disso é o grande número de eventos ocorridos em Portugal, país mais pobre da Europa, nos últimos tempos. Em segundo, países menos desenvolvidos possuem sistemas judiciários falhos e políticos corruptos, o que facilita a atuação das organizações responsáveis pelos eventos. Tanto é verdade que a FIFA já esnobou todos os brasileiros comprando uma lei que literalmente a libera de cumprir a lei. A "ascensão" que o Brasil tem hoje no cenário internacional com esses eventos é a mesma que tinha quando enviava navios cheios de ouro para sustentar vagabundos da Corte Portuguesa na Europa ou infinidades de sacas de café e açúcar obtidas com o trabalho escravo.

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