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Ficam as lembranças e a dívida de amizade

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Quando, na manhã do dia 7 de julho de 2008, chegou-me a notícia de que o desembargador Ricardo Regueira falecera, o primeiro impulso foi desacreditar.

Dez dias antes, Ricardo estivera comigo, em minha residência, e, ao longo de horas, ladeados por meus irmãos e um dileto amigo, proseamos, madrugada a dentro.

Fazia tempo que não conversávamos.

Pusemos a conversa em dia. E jamais poderia cogitar de que se cuidaria de uma despedida.

Todos que desfrutaram do convívio de Ricardo bem sabem que a plena alegria de viver já o abandonara, por conta do brutal assassinato de seu filho, mais uma vítima registrada na estatística oficial da insegurança pública.

Mas me impressionou, naquela agradável noite, a sua disposição em papear e, até mesmo, o humor com que descreveu episódios injustos, de triste recordação.

A bem da verdade, Ricardo exercitava, a fórceps, o aprendizado de habituar-se à dor da perda.

Por isso, a notícia de sua morte, decorrente de problemas de saúde, contrastava a presença vívida, bem-humorada e, como sempre, inteligente, que contagiou a todos.

No final do encontro, dei-lhe o livro “A Lição Final”, de Randy Pausch com Jeffrey Zaslow, que trata da palestra de despedida de um prosaico professor norte-americano, pai de família, com três filhos ainda crianças, depois de descobrir que só lhe restavam seis meses de vida, em razão do prematuro diagnóstico de “dez tumores no fígado”.

A escolha do regalo partiu do ensinamento contido no pequeno livro sobre como enfrentar e superar as adversidades, tarefa, em demasia, cometida a Ricardo pela vida. Logo na introdução, que lemos em voz alta, o professor Randy Pausch falava que “planejar não significa obter soluções perfeitas; significa fazer o melhor possível com recursos limitados”.

A confirmação da partida inesperada do amigo, colhido pela “indesejada das gentes”, na feliz expressão de Manuel Bandeira, sem que tivesse oportunidade de cumprimentá-la e dizer-lhe: “o meu dia foi bom, pode a noite descer”, faz que os amigos não consigam honrar uma dívida, ainda que muito difícil de ser honrada: a dívida da amizade.

Marcou a trajetória do Ricardo, mais que tudo, a virtude rara de ter sido amigo dos seus amigos, incondicionalmente.

Resta, somente, lembrar, para confortar os que ficam, o “Consolo da praia”, de Drummond, e crer que, enfim, o amigo encontrou o merecido descanso, a paz celestial, a despeito daqueles que tanto fustigaram a sua adorável existência física:

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
Em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas e o humor?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
Murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
Precipitar-te de vez nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Os anos passam e a saudade  — “o sal das lágrimas ou o sol da idade”, como referia o multíplice Waly Salomão — só aumenta.

 é advogado criminal.

Revista Consultor Jurídico, 7 de julho de 2011, 15h21

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