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IDEIAS DO MILÊNIO

The Economist defende legalização das drogas

"Gazeta do Economista e da Estrada de Ferro". Era assim que se chamava, quando nasceu há mais de 100 anos na Inglaterra, a revista The Economist, que hoje vende quase 1,5 milhão de exemplares em 200 países e é considerada a publicação mais influente do mundo. Contrariando os prognósticos pessimistas que rondam o futuro da grande imprensa escrita internacional, a Economist está em franco crescimento, tanto do número de leitores como do nível de prestígio.  John Micklethwait, editor da revista, foi entrevistado pelo programa Milênio, do canal de TV por assinatura Globo News, em agosto do ano passado.

Em sua opinião, apesar do avanço das novas mídias, haverá sempre lugar para veículos de comunicação como a Economist, que privilegia a inteligência de seus leitores e se empenha em atingir pessoas que estão interessadas em informação de qualidade. Para Mickethwait, a globalização só fez bem à Economist, que em sua receita original sempre primou por se interessar por assuntos globais. Ele entende ainda que, hoje em dia, o grande concorrente da revista - e da imrpensa escrita em geral - é o tempo. Com as muitas opções do que fazer oferecida ao cidadão, resta-lhe cada vez menos tempo para ler. O desafio de quem escreve é encontrar meios de conquistar um pedaço de tempo na agenda das pessoas, cada vez mais lotada de atividades.

Declaradamente liberal e defensora do capitalismo, a revista é especializada em política, economia, cultura, tecnologia e quase tudo que possa interessar pessoas de nível intelectual mais apurado. Só vira a cara para um assunto: celebridades. Ainda assim, a editora que publica Economist também publica Intelligent Life, uma sofisticada revista de celebridades, que no entanto não tem o prestígio da irmã mais velha.

Leia a seguir a transcrição da entrevista de John Micklethwait concedida ao jornalista Silio Boccanera, do Milênio:

Silio Boccanera - A revista semanal britânica The Economist vai na contramão da tendência de crise na imprensa escrita internacional. Jornais perdem leitores e fecham, revistas, como a americana Newsweek estão à venda porque dão prejuízo. Enquanto outras publicações do gênero perdem leitores, a Economist ganha. Vende 1,4 milhão de exemplares por semana. Mais nos Estados Unidos e no resto do mundo do que no Reino Unido onde é editada. São 4 milhões de leitores compartilhando a revista no papel e mais ainda via internet, apesar do acesso pago. Seu conteúdo não baixa o nível para ganhar público e os artigos sobre economia, política, tecnologia, cultura, mantêm nível sofisticado, sem perder clareza. Leitores altamente qualificados e de bom poder aquisitivo atraem anunciantes. Para discutir a fórmula do sucesso da Economist, o Milênio foi à sede da revista no centro de Londres para conversar com o editor chefe, John Micklethwait, formado em História pela Universidade de Oxford e com mais uma edição fechada, ele nos recebeu em seu escritório com vista para o Parlamento e outras atrações da cidade. Com um preço de capa e assinatura acima da média dos concorrentes, a Economist tem vários donos: do grupo Pearson, do Financial Times, a famílias como a Rothschild. Algum assunto proibido na Economist? “Celebridade não tem vez” esclarece o editor-chefe,

Silio Boccanera — John, antes de abordarmos o principal ponto do seu sucesso, por favor, esclareça para nossos espectadores por que vocês dizem que são um jornal quando são uma revista.
John Micklethwait — Isso é uma idiossincrasia inevitável. Sempre dissemos que somos um jornal. A revista The Economist já foi criada como jornal. De todas as coisas estranhas que fazemos, talvez esta seja a menos defensável. 

Silio Boccanera — Outra coisa: as matérias nunca são assinadas, não sabemos quem escreveu.
John Micklethwait — Isso é defensável. Há três motivos para isso. O primeiro é que nós não somos a exceção. Você, sim, são exceções, mas todos... Os jornais do mundo todo tinham todos matérias anônimas e começaram a dar mais espaço para os autores e fotos. E nós sempre mantivemos o anonimato. Esse é um motivo. O segundo é que isso, hoje faz parte da nossa marca. Há poucas publicações que ainda fazem isso. O último motivo é que nós trabalhamos em grupo, nós trabalhamos juntos. Então, é a nossa visão, não a visão de cada jornalista.

Silio Boccanera — Seu título também: The Economist. Ele sugere uma revista muito seca, com assuntos chatos, quando, na verdade, vocês tratam de política, economia, arte, cultura... É uma questão de tradição?
John Micklethwait — É. O nome, antes, era The Economist and the Railway Gazette. Agora é mais interessante.

Silio Boccanera — Melhorou sem o “Railway Gazette”.
John Micklethwait — Mas é um bom título, porque, na verdade... A economia é importante porque é importante por si só, é algo que diz respeito ao agora. Mas, em segundo lugar, também porque a economia é um ponto de vista fantástico para se ver o mundo. Isso não se aplica a tudo. Não se pode olhar uma foto ou uma pintura através da economia, mas há muitos problemas que podem ser reduzidos a números, obrigando você a adotar uma abordagem estatística e a pensar nos incentivos para as pessoas fazerem isto ou aquilo. Na verdade, é muito útil, e esse foco em estatística, números e fatos dá muito mais força aos argumentos. Nesse sentido, tenho orgulho do nome.

Silio Boccanera — Você não acha que assusta os leitores?
John Micklethwait — De acordo com as pesquisas de mercado, muitas pessoas vêem a revista e pensam: “Ai, meu Deus!” Tenho certeza de que nosso departamento de marketing deve detestar, mas...
 

Silio Boccanera — Gostariam que fosse “A Revista das Celebridades”?
John Micklethwait — Eu sonho com isso, mas, infelizmente, não dá.

Silio Boccanera — Quando várias outras revistas e até mesmo jornais estavam em crise, vocês iam bem. Vamos começar com uma pergunta bem genérica. Qual você acha que é o segredo, a fórmula para explicar esse sucesso?
John Micklethwait — Posso dizer por que estamos indo bem recentemente. Isso se deve a três fatores. O primeiro é a globalização, e o Brasil é um ótimo exemplo. Vinte anos atrás, se você morasse em Detroit e quisesse saber o que acontecia em São Paulo ou no Rio... era difícil vender essa facilidade. Hoje, é bem mais fácil. As pessoas precisam saber o que acontece. O Brasil é um país importantíssimo para vários outros países do mundo. Nós escrevemos sobre ele e sempre fizemos isso de uma maneira que outras pessoas não fazem. A globalização nos ajudou. O segundo motivo, é que a massa de informações estranhamente tornou muito útil um filtro semanal. Quanto mais coisas as pessoas querem saber, mais útil se torna ter algo que, uma vez por semana, olha as notícias e diz: “Isto é importante, é disso que você precisa saber, você não precisa saber outras coisas.”

Silio Boccanera — Isso é o que faz toda revista semanal, mas vocês não tiveram dificuldades como os outros. É porque vocês fazem isso melhor?
John Micklethwait — Tivemos sorte, porque do ponto de vista global – não estou falando individualmente de ninguém -, se sua publicação é francesa, alemã, brasileira, portuguesa, você tem a barreira da língua. Se é americana, você tem outro pequeno problema: os Estados Unidos estão envolvidos em todas as guerras do mundo. Os Estados Unidos são uma superpotência, e o país, em si, é tão fascinante, que, às vezes, quando você olha as coisas fora de lá, há sempre um ponto de vista americano que as pessoas, muitas vezes erroneamente, atribuem à publicação. A vantagem de ser britânica é que ninguém... Às vezes, recebemos cartas dizendo que assumimos uma posição britânica, mas, no geral, não sofremos com isso. Os EUA, por definição, estão envolvidos em todas as decisões políticas ao redor do mundo, enquanto a Grã-Bretanha...

Silio Boccanera — Eles são o elefante na sala. Quando as pessoas leem as revistas americanas, logo identificam isso.
John Micklethwait — Você tem essa reação. Para ser sincero, acho isso injusto, pois as revistas americanas fazem um bom trabalho, mas essa percepção, pelo que sei, parece ter nos ajudado. 

Silio Boccanera — Quando vocês fazem reuniões de pauta e precisam decidir o que colocar na revista, imagino que discutam vários tópicos diferentes, mas há algum assunto ou áreas que consideram não ser para vocês?
John Micklethwait — Celebridades. E, mesmo assim, às vezes fazemos alguma zombaria. Fizemos um obituário de Jade Goody, que era uma espécie estranha de estrela de TV no Reino Unido. Às vezes, até publicamos coisas assim, mas não vamos colocar Cameron Diaz na capa, eu espero. Não temos motivo algum para fazer isso. Então, não fazemos. Nós nos mantemos um pouco afastados de tópicos muito pessoais. Finanças pessoais, estilos de vida pessoais... Isso é o que a Intelligent Life faz, e o faz muito bem. Mas tentamos olhar para o que é importante. Já cobrimos um âmbito de assuntos muito amplo, política, ciência e tecnologia, negócios, finanças, economia. Há muitas coisas que podemos cobrir, é um âmbito mais amplo do que o de qualquer outra revista. Não é difícil decidir não falar de Angelina Jolie e Brad Pitt.

Silio Boccanera — E quanto ao equilíbrio que a mídia mundial tenta conseguir entre a parte online e a impressa? Acha que vocês já encontraram esse equilíbrio?
John Micklethwait — Estamos chegando perto. Um editor que não esteja paranóico com a internet é um tolo. Porque ela muda muito depressa. Já afetou os jornais, como eu disse antes. Os jornais já estão sendo muito atingidos, em especial por causa da propaganda, mas de modo geral pelo público leitor. Os jovens leem as notícias na internet. Algo que vai trazer muitas mudanças é o fenômeno iPad. O iPad, o Kindle... Digo “iPad”, mas me refiro a vários aparelhos, como o Sony E-reader... todos eles.

Silio Boccanera — Leitores eletrônicos.
John Micklethwait — Por que eles são diferentes? Eu os considero muito importantes para a nossa indústria porque as revistas, até agora, têm se saído bem na internet. Isso é porque, quando as pessoas leem algo na internet, elas se inclinam para a frente. Você está dando uma olhada rápida em algo. Pesquisas mostram que as pessoas leem fragmentos de matérias. Algumas pessoas usam a internet para pesquisar e debater algo. Mas tendem a buscar uma resposta imediata e saem de onde estão. Pessoas que leem revistas se inclinam para trás. Você está deitado na cama, ou sentado em um sofá. Está em um trem ou em um avião... Você está contemplando. 

Silio Boccanera — Mas você acha que a versão impressa tende a desaparecer?
John Micklethwait — Não, a versão impressa não vai desaparecer nunca. Mas para mim está claro que o iPad e similares representam uma ameaça e uma oportunidade tão fundamentais para uma revista de notícias quanto a internet. Como todo mundo, nós cometemos erros com a internet. É uma atividade rentável, nós lucramos com ela. Temos um website que continua crescendo: isso é ótimo e quero que continue assim. Mas, até agora, isso não desafiou a existência da revista impressa. O iPad e similares desafiam a existência de algo impresso. Nosso objetivo é manter a versão impressa e acrescentar a eletrônica. Vamos ver como nos saímos.

Silio Boccanera — Em sua linha editorial, suas tendências políticas, você caracteriza a Economist como sendo uma revista liberal. Mas o termo gera confusão. Tem significados diferentes em diferentes países. Como você a caracteriza em um contexto político? Centro, centro-direito, liberal...?
John Micklethwait — Esta resposta é meio clichê, mas os liberais tendem a se ver como parte de um centro radical. E, na verdade, eu discordo quando você diz que é um conceito confuso. Não acho que seja confuso...

Silio Boccanera — “Liberal” nos EUA é uma coisa. Na Europa, é outra.
John Micklethwait — Perdão, está absolutamente certo. Eu discordo da ideia de que o liberalismo não sabe o que é. O liberalismo clássico, que é o liberalismo da Economist, é uma ideologia incrivelmente poderosa e coesiva. É uma ideologia que, na verdade, muitas pessoas no mundo partilha: o conceito de, sempre que possível, tentar limitar o poder dos governos, de dar às pessoas a oportunidade de ganhar dinheiro, de manter o governo longe da vida das pessoas. E, de modo geral, defender esse tipo de valores. O interessante é que várias pessoas pensam assim e, como você disse muito bem, poucos partidos políticos compartilham desse conceito. E, do meu ponto de vista, pode ser uma vantagem. Por exemplo, nos EUA, às vezes apoiamos os republicanos, às vezes apoiamos os democratas.

Silio Boccanera — Vocês apoiaram Obama.
John Micklethwait — Apoiamos.

Silio Boccanera — E na Inglaterra, apoiaram os conservadores.
John Micklethwait — Exato

 Silio Boccanera — Então, olhando de fora, parece ser uma contradição. Mas você não acha.
John Micklethwait — Os liberais são práticos. Se achamos que um governo esgotou suas ideias, nós mudamos. Tínhamos apoiado os trabalhistas antes. Mas os trabalhistas claramente tinham esgotado suas ideias. O que acontece, de um modo geral, é que não nos identificamos com nenhum partido político. E isso é muito útil.

Silio Boccanera — E em questões sociais? Vocês defendem a legalização das drogas.
John Micklethwait —
Isso.

Silio Boccanera — E da prostituição.
John Micklethwait — Exato. 

Silio Boccanera — Uma surpresa para quem os associa a uma visão conservadora.
John Micklethwait — Voltando ao liberalismo clássico de John Stuart Mill e Adam Smith — eles foram muito claros que queriam uma economia de mercados livres. Então nós somos, sem reservas, a favor do capitalismo. Somos extremamente críticos com relação aos capitalistas, mas tendemos a ver desse lado. Mas não vejo nenhuma contradição intelectual, pelo contrário, vejo uma enorme coesão intelectual entre ter essa atitude com governos, negócios e comércio, acima de tudo, e também adotá-la em questões particulares. Se você olhar para as origens da Economist, verá que ela veio da tradição de abolir as Corn Laws, que eram leis protecionistas da Grã-Bretanha no século 19. E, quando nos livramos dessas leis, iniciamos a primeira grande era de globalização, que durou até a 1ª Guerra Mundial e enriqueceu muito as pessoas. Esse era um lado. O outro lado era sermos contra a escravidão, a favor da reforma das prisões, contra a pena de morte... E essas coisas vêm juntas, porque ambas têm a ver com dar poder aos indivíduos. Eu vejo isso como coesão. Para mim, contraditórias são as mesmas pessoas que... Quando se ouve um senador republicano dos EUA dizendo que acredita em governos pequenos mas ao mesmo tempo quer mandar quantidades enormes de pessoas para a prisão, para mim, isso é contradição. É contradição dizer que o Estado não deve interferir na vida das pessoas ao mesmo tempo que diz que o aborto deveria ser proibido, ou que certas pessoas não deveriam ficar juntas. Essas coisas são contradições. Também há contradições do outro lado. As pessoas que dizem que são liberais e que acreditam em grandes governos...

 Silio Boccanera — Seria um centro-esquerda?
John Micklethwait — Isso é uma contradição de termos. Isso não é liberalismo. Então, correndo o risco de parecer antiquado, nós permanecemos liberais durante todo esse processo. E os outros mudaram de posição. Eu me sinto dividido entre o desespero e a alegria. Desespero porque a palavra “liberalismo” foi corrompida de tantas maneiras. E alegria por tanta pessoas concordarem conosco. Há uma coisa que eu gostaria de acrescentar — existe uma grande diferença entre liberal e libertário. Ser libertário significa que você não adota nada que seja pragmático. Nós acreditamos em governos pequenos, mas também defendemos um sistema de saúde público. Mais obviamente nos EUA, mas achamos que é um direito, fundamental de todos. Mas é um caminho difícil de percorrer.

Silio Boccanera — Há um antigo ditado que diz que jornalistas devem ter com relação aos políticos, a mesma atitude que cães têm com postes. Sua revista é séria e não usaria uma imagem tão grosseira. Como vê o relacionamento entre a mídia e os políticos? Porque, às vezes, ele fica um pouco confortável demais.
John Micklethwait — É, pode ficar, sim. Para uma revista, é mais fácil manter um pouco de distância do que para um jornal diário, porque revistas não precisam tanto das notícias diárias. E também, em nosso caso, nós nos concentramos em ideias. Fazendo uma autocrítica, pode-se dizer que às vezes nós somos críticos demais. Deveríamos simplesmente aplaudir políticos que fazem alguma coisa. Para ser sincero, no momento, [David] Cameron [primeiro-ministro do Reino Unido] está se saindo bem e talvez não tenhamos dito isso o bastante. Ele conseguiu fazer a coalizão funcionar muito bem. Por exemplo, no seu país, Lula está... Olho para Lula, e parte de mim pensa que há algo trágico nele. É uma fonte inerente de irritação para mim que alguém como Chávez possa ser visto por muitas pessoas no mundo como um herói libertador de esquerda. E, se olharmos para o que ele fez para o seu povo e o que Lula fez para os pobres do Brasil, veremos que Lula fez muito mais que Chávez. É frustrante, mas culpo Lula por isso. Lula deveria ter se manifestado contra Chávez muito mais pública e assiduamente, mas isso é culpa dele. Ocasionalmente, a mídia deveria dizer: “Esta pessoa fez um bom trabalho.” Tendemos a ser críticos demais nesse sentido.

Silio Boccanera — Quando a mídia não faz um bom trabalho e comete erros, enganos que prejudicam as pessoas, que afetam a reputação das pessoas, sempre surge a pergunta: como corrigir isso? Você acredita que deveria haver algum tipo de autorregulação, leis, ou apenas a Justiça deveria cuidar de corrigir a mídia?
John Micklethwait — É uma pergunta muito boa e muito difícil. Apelar à Justiça ajuda se... a Grã-Bretanha é um péssimo exemplo nisso. Nós temos as piores, mais perniciosas e inúteis leis de responsabilidade do mundo, que protegem os ricos e poderosos e permitem que os tabloides digam o que quiserem impunemente. E isso porque, na Grã-Bretanha o ônus da prova, em um caso de responsabilidade, cabe todo ao jornal. Então, se você escreve algo sobre um “vilão” conhecido, você tem que provar que tudo sobre aquele “vilão” está correto. Em nosso caso, em especial, lidamos muito com pessoas de países onde é muito difícil obter informações, onde as pessoas, se se manifestassem, correriam riscos físicos. São esses problemas. A legislação de responsabilidade da Grã-Bretanha age contra os jornais. Outra coisa é que os tabloides podem atacar as pessoas porque... É preciso ser rico e poderoso para pagar os advogados, mas, se você tiver acesso a isso, no longo prazo, você consegue realmente punir os jornais. Por isso,  há muitas histórias que não ganham cobertura, e muitas pessoas vêm a Grã-Bretanha para fazer turismo judicial. Isso é algo ruim.

Silio Boccanera — Estrelas, celebridades...
John Micklethwait — Mas, no geral, eu... A autorregulação é sempre perigosa. Eu prefiro voltar à Lei, que deve nos proteger.  

Silio Boccanera — Aqui usa-se a autorregulação: vocês têm a  Press Complaints Commission. Você acha que é uma solução intermediária, um meio-termo entre isso e o controle do Estado?
John Micklethwait — Eu com certeza prefiro isso ao controle do Estado.

Silio Boccanera — Nós, jornalistas, tendemos a ficar melindrados quando somos criticados e a dizer que defendemos o interesse do público. Nós defendemos mesmo? Não é arrogância da nossa parte?
John Micklethwait — A maneira como o fazemos pode ser muito importante. Uma das coisas boas sobre a Grã-Bretanha, e talvez eu me arrependa de dizer isso, é a opinião geral que se tem dos jornalistas, de que são todos picaretas, e muitos ridicularizam os jornalistas por causa de sua ambição, cobiça e inutilidade. E isso é algo bom. Eu acho perigoso quando outros países, em especial os EUA, consideram o autor alguém muito importante. A imprensa é extremamente importante. Ela está lá para monitorar. Quando ela não trabalha bem, é um desastre. Quando a imprensa falha, é o que acontece. Quando um jornalista se torna um grande astro, às vezes, ele automaticamente acha que deve decidir as coisas. Isso é uma má ideia. Desse ponto de vista, eu prefiro a ideia britânica de ter o jornalista sempre difamado por ser tão horrível quanto as outras pessoas. Isso é bom, eu gosto disso.

Silio Boccanera — Então, nós, jornalistas, somos importantes, mas nem tanto.
John Micklethwait — Isso, exatamente.

Silio Boccanera — Você estava falando desse mercado global. Vocês são lidos em 200 países, estão em toda parte.
John Micklethwait —
Nosso maior concorrente, e sempre pensei assim, é o tempo. Não me refiro à revista, mas ao tempo das pessoas.

Silio Boccanera — Desculpe. Você não está falando da revista Time, mas do conceito de tempo.
John Micklethwait — Exatamente. Desculpe se isso parece um marketing barato, mas realmente é verdade. O que as pessoas fazem? No final de semana, você tem que fazer a comida das crianças, assistir ao jogo, ler seus livros... Estamos brigando por um pedaço do tempo das pessoas. O produto é interessante o bastante para as pessoas o folhearem por uma hora? Ou por 20 minutos, seja lá quanto for? Esse é o tempo pelo qual a mídia está lutando. E hoje há ainda muito mais coisas, como a internet, a televisão etc. Não temos um concorrente direto, alguém que faça exatamente o mesmo que nós, para o mesmo público que nós, mas nosso verdadeiro concorrente é o tempo das pessoas. Você pode parar de ler a Economist porque não tem tempo suficiente e tem outras coisas para fazer. Nosso trabalho é torná-la tão interessante que as pessoas sempre estejam tentando lê-la domingo de manhã ou em um momento específico. Mas é claro que a internet e essas coisas são importantes.

Silio Boccanera — Estávamos falando desse sucesso todo. Você não acha significativo que, enquanto vocês vão tão bem, uma revista tradicional como a Newsweek esteja à venda, embora pertença a um jornal muito rico, o Washington Post... Se eles não conseguem fazê-la vender... É uma situação complicada para a mídia, não é?
John Micklethwait — É. Eu considero a Newsweek um bom produto. Eu admiro muito o Jon Meacham [editor-chefe da Newsweek], de um ponto de vista jornalístico. Comercialmente, eles têm passado por dificuldades, mas vale a pena ver o que pode acontecer. Veja a BusinessWeek e a Bloomberg. A Bloomberg acabou assumindo a BusinessWeek por um preço baixíssimo, pelo que me lembre, e deram mais energia à revista, fazendo dela um produto muito bom. Sempre é possível reinventar ideias. O que acho interessante na verdade, é que as revistas, de modo geral, ao contrário do que você disse, têm se saído muito bem neste novo mundo. Não todas, mas, de modo geral, têm se saído bem melhor do que os jornais com relação a manter um público. Se verificar os números em termos de gerações, 70% das pessoas de 50 anos leem jornais, mas apenas 15% das pessoas de 20 anos os leem. Pode não ser exatamente isso, mas a distância é enorme. Já com relação às revistas, o número é semelhante, a diferença é muito baixa. Os jovens ainda leem revistas, a questão é quais revistas eles leem. Uma das razões pelas quais nos saímos bem – já falei da globalização e do filtro - é que temos uma revista chamada Intelligent Life, que tem esse conceito de “Inteligência de Massa”. A questão, a meu ver, é muito importante. Todos insistem em falar que a mídia perde mercado, que está decaindo, que a grande mídia está sempre se afundando. Isso é verdade. O número das empresas que perdem mercado cresce sem parar, mas veja as que não decaíram, elas continuam crescendo. O número de pessoas entrando na faculdade, o número de pessoas que freqüentam galerias de artes, exposições, festivais literários, concertos... Se você examinar os livros mais vendidos... Na lista do New York Times, sempre há muitos livros inteligentes. Veja a televisão, programas como House, os filmes de grande público. Há uma área grande...

Silio Boccanera — Há um nicho top.
John Micklethwait — No topo, há um nicho que é cada vez maior. O que é interessante é que pessoas de origens mais diversas hoje querem ter ideias no seu “cardápio”, por assim dizer. Veja o desempenho da Economist nos EUA: temos os números de quais outras revistas nossos leitores também compram. Uma delas é a US Magazine, que equivale à Hello! I[revista de celebridades da Inglaterra] ou à Hola! [idem, da Espanha]. Algumas pessoas compram as duas juntas...

Silio Boccanera — Elas assinam as duas.
John Micklethwait — Não, falo de pessoas no aeroporto, que compram as duas e entram no avião, ou talvez duas pessoas, cada qual comprando uma. Mas  a ideia básica, mais uma vez, é que as pessoas leem a The Economist e veem Simpsons, leem a revista e veem o jogo de beisebol, leem a revista e vão ver um jogo de Brasil e Argentina. Elas querem fragmentos de várias coisas, não querem mais pensar: “Sou um intelectual.” Não. Antigamente, pensava-se que uma pessoa séria fazia isto, isto e aquilo. Hoje, as pessoas vão e voltam. Eles veem um filme à tarde e depois vão a uma galeria. Há uma mistura muito maior. Então, se você produz algo com ideias, tem um público muito maior do que tinha antes.

Silio Boccanera — Quem é seu leitor? Você pesquisou o perfil?
John Micklethwait — Há várias coisas. O setor de pesquisa, o setor comercial, surgiu com uma ideia interessante há alguns anos. Eles mudaram o modo como veem os leitores. Antes, pensavam apenas em nível social ou em nível de escolaridade e como, em consequência, você vende isso aos anunciantes. Eles começaram a privilegiar perfis psicológicos a demográficos. E criaram a expressão “pessoas de ideias”, e isso é muito bom. Nossos leitores são pessoas que buscam ideias. São pessoas que pensam: “Por que o Brasil está indo bem naquela área?” “Talvez a Índia tenha achado o melhor modo de administrar hospitais.” Eram pessoas que queriam ser estimuladas dessa maneira. Esse é um elemento... Eu preciso dizer que, do ponto de vista de estar administrando a Economist, nós, do setor editorial, não olhamos para pesquisas e nem discussões em grupos. E eu não penso em um tipo específico de pessoa, porque isso seria loucura. O setor editorial da revista sempre funcionou assim: nós escrevemos sobre o que achamos ser interessante e importante. E isso é extremamente importante. Por dois motivos. Um: isso nos mantém honestos, isso nos mantém genuínos. Se escreve sobre o que é interessante, você pode estar certo ou errado, mas não está tentando... É como a primeira regra do jornalismo: “Você diz o que é importante, e as pessoas decidem se concordam.” O segundo motivo é que em nosso caso específico, se você é tão global quanto nós... Se eu ficasse pensando em como escrever algo que agrade as pessoas e aumente a circulação... Isso se tornaria complicado tão depressa, que eu iria enlouquecer. Se eu quisesse escrever algo para agradar os brasileiros, não sei se iria agradar os argentinos.

Silio Boccanera — Não iria.
John Micklethwait — Se quisesse escrever algo para agradar os argentinos, não iria agradar os chilenos. E assim por diante. Ou escrevo algo que agrada os americanos, mas os alemães não vão gostar. Se você vai por esse caminho, e outros editores me disseram que foram empurrados nesse caminho, sempre é catastrófico. E, no nosso caso, seria loucura. Nós nunca conseguiríamos. Se tentássemos achar um denominador comum, teríamos um produto sem graça.

Silio Boccanera — Então, precisam saber o que os leitores querem, mas a decisão de publicar é de vocês.
John Micklethwait — Os leitores não devem se sentir ofendidos. Nós tentamos nunca ser grosseiros em relação às pessoas. Como viu, esta semana publicamos um artigo dizendo que achamos que os EUA mandam pessoas demais para a prisão. Tentamos escrever isso de um modo que não seja grosseiro, dizemos apenas que achamos que isso é um erro, que estão prendendo pessoas em uma escala absurda. E isso não está funcionando. Não faz sentido do seu ponto de vista. Mas não dizemos que os americanos são todos uns caubóis loucos. 

Silio Boccanera — E, só para dar contexto para o nosso público, sua revista, que muitos relacionam aos pontos de vista tradicionais, cautelosos e conservadores, é radicalmente contra Berlusconi e, menos radicalmente, contra Sarkozy, dois representantes da direita na Europa.
John Micklethwait — É interessante. Quando se trata de indivíduos, há alguns a quem nos opomos. Com relação a Berlusconi, nós temos três problemas. Ou, pelo menos, dois. O primeiro é: nós o analisamos e vimos sua influência na mídia, seu histórico nos tribunais e coisas assim. E chegamos à conclusão de que ele, independentemente de suas crenças, não está qualificado para governar um país. Alguém com tantos conflitos de interesses não pode governar um país. Sempre afirmamos isso e não vamos mudar de ideia. E o segundo problema é porque nós sempre tentamos, apesar de tudo isso, ver se ele tem se saído bem. E, nesse aspecto, Berlusconi tem sido uma decepção total. Nós achávamos que ele iria desregulamentar e abrir a Itália. Ele só está fazendo isso agora, muito no final de sua gestão. Ele passou tempo demais concentrado em seus interesses pessoais, em bobagens, todos os problemas que teve com a Justiça, seus próprios interesses na mídia... Ele se concentrou nessas coisas. Ele deveria ter se concentrado em suas mensagens de campanha, que eram até bem interessantes, sobre liberalismo econômico, mas ele não fez nada disso.

Silio Boccanera — Seu lado empresarial.
John Micklethwait — Exato. Em minha experiência, acho que os italianos... Os italianos que, inicialmente, ficavam chocados por sermos tão rudes com Berlusconi, depois disseram que, na verdade, ele tem sido catastrófico. E as pessoas que acharam que ele iria reformar a Itália se decepcionaram, porque ele não fez isso.

Silio Boccanera — E Sarkozy?
John Micklethwait — Nós o apoiamos na última eleição. Ficamos um pouco impacientes com ele em algumas questões. Não o colocaríamos na mesma categoria que Berlusconi. 

Silio Boccanera — Vamos falar sobre políticos e política de um modo geral, e a mídia. As últimas eleições aqui, da minha perspectiva, parecem ter mostrado que a influência que os jornais costumavam ter minguou bastante. Antes, os políticos faziam tudo para obter o apoio dos jornais, dos tabloides. A última eleição parece ter mostrado que isso não é mais tão importante. Você concorda?
John Micklethwait — Em parte. Sou mais cético que você. Há um argumento que diz que é surpreendente o quanto os políticos ainda são obcecados com isso. Pense em como as eleições são ganhas. Os jornais não têm grande impacto. Dizer aos italianos para não votarem em Berlusconi parece ter tido o efeito contrário. Aqui há um obsessão por conseguir a aprovação de Rupert Murdoch. Usando uma analogia de futebol, é um pouco como alguns campeonatos ingleses. Se você ganha, não vai ter grandes vantagens além de se classificar para algum campeonato europeu. Mas é um triunfo enorme ganhar. O principal motivo de conservadores e trabalhistas passarem tanto tempo puxando o saco de Rupert Murdoch é porque o outro está fazendo isso. Então, se um lado quer, o outro passa a querer mais ainda. As consequências práticas desse apoio são relativamente pequenas. Imagino que isso seja conveniente ao sr. Murdoch e aos políticos.

Revista Consultor Jurídico, 21 de janeiro de 2011, 7h17

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