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Sem piadas

Eleitor precisa se dar conta que votar é coisa séria

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Quando um cidadão ainda se vê capaz de se revoltar com os abusos da classe política, a democracia, pra ele, ainda tem algum sentido. A revolta mantém acesa a chama da mudança. Mas pra onde um povo pode seguir se não apenas o que vê no retrovisor o envergonha, como o que se apresenta como possível futuro é motivo de piada?

Infelizmente, é nessa encruzilhada que a propaganda política tem colocado o eleitor brasileiro, exibindo candidatos que poderiam estar em qualquer concurso de miss ou de humorista — mas por ora se mostram alheios ao compromisso público que a vida política exige. O eleitor que se cuide. Porque, dependendo da decisão tomada, não poderá confiar naqueles que foram escolhidos pra cuidar de todos nós.

Há de se notar que, como eleitores, estamos mais conectados à informação. A internet nos municia em tempo real e a mobilização política nas redes sociais se tornou mais atrativa que a militância de rua. Mas ainda existe um Brasil profundo cujo voto passa muito ao largo da informação — deixa-se levar pela risonha e maquiada propaganda política, sobretudo da TV e do rádio, e ainda se vende por uma camiseta ou cesta básica. E mesmo os sujeitos mais bem informados, por irresponsabilidade, preguiça ou sob o argumento fácil do voto de protesto, podem ceder à perversa lógica do “quanto pior melhor” e catapultar aos postos de comando personagens politicamente obscuros.

Eis que a tentação do voto feliz é cuidadosamente plantada. Marqueteiros de bolsos salivantes se esmeram em fazer jingles e criar personagens que abram o sorriso — e por que não, a gargalhada? — do eleitor. Mudar o resultado desse esforço muito bem pago depende de nós. De escolhermos para as assembléias e governos estaduais, o Congresso e o Palácio do Planalto os candidatos que estiverem mais bem preparados pra serem empregados do povo – e não os que saíram melhor na foto, criaram a música mais popular ou nos fizeram rir mais.

Escolher um líder exige um segundo passo: cobrar o acordo assumido, em troca da confiança que depositamos nele. Por isso o voto não pode ser munição pra roleta russa. Em nossa missão eleitoral, o disparo impensado pode premiar a incompetência e fazer explodir a tragédia coletiva.

Nas campanhas de entidades do Judiciário brasileiro das quais participei nos últimos 20 anos, aprendi que a grandeza de um líder tem como base o compromisso. Os que o honraram são, hoje, respeitados, inspiram orgulho e admiração. Foram cobrados pelo que prometeram e corresponderam ao desafio.

No Executivo e no Legislativo, não temos essa tradição de cobrança que há em entidades associativas e sindicais. Vale outra lógica perversa: a do coração que, para não sofrer, se recusa a ver, não se envolve, não exige. E assim vai escrevendo seu ensaio sobre a cegueira.

Não foi essa a escrita que meus pais me legaram, tampouco a que desejo para o Brasil dos eleitores de hoje e amanhã. Não posso ensinar à minha filha menos do que me foi ensinado. Mas receio que, quando ela for eleitora, os bons líderes já não tenham mais voz para um povo que se esqueceu de refletir. Que sejamos um barco à deriva, empurrado pela inércia de não sabermos votar.

Enquanto o eleitor não enxergar a fundo os dirigentes pra chamar de seus, enquanto não cobrar o acordo assumido e responder a ele, mais uma vez, com o voto, terá o povo o líder que sua própria falta de compromisso merecer. Rir diante da urna em 3 de outubro não vai ter graça nenhuma quando o futuro vier cobrar de nós a fatura da irresponsabilidade.

Walter Ciglioni é vice-presidente da Associação Paulista de Imprensa (API).

Revista Consultor Jurídico, 17 de outubro de 2010, 8h16

Comentários de leitores

1 comentário

É isso mesmo

preocupante (Delegado de Polícia Estadual)

Esse argumento sintetiza a conduta de um povo em estágio político ainda na idade da pedra lascada. O segredo da manutenção desse estado de coisas está na falta de educação de qualidade, perpetrada e perpetuada obviamente pelos que assumiram e os que estão assumindo o poder político dos municípios, estados e da nação.
O sistema é tão perverso nesse diapasão, que de tudo fazem para buscar o voto inconsequente e irresponsável sob o pretexto de que vivemos em um regime democrático, embora o fim não seja esse. Veja-se o caso dos presos, condenados ou não. faz-se de tudo, inclusive gastando-se milhões para garantir-lhes o direito ao voto.
Quem de livre e sã conciencia vai acreditar que os milhares de presos que foram condenados ou estão respondendo por crimes de roubo, furto, fraude, estupro, homicídio qualificado, tráfico de drogas, etc, irão votar no candidato melhor ou menos ruim do ponto de vista de honestidade e proposta de futuro para o município, estado ou nação? Claro que vão votar no pior possível, no que tiver a ficha mais suja. Chamam isso de democracia?

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