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Fim do drama

Arruda não recorrerá contra cassação do TRE

José Roberto Arruda encaminhou carta ao Tribunal Regional Eleitoral para informar que não deve recorrer da decisão que cassou o mandato dele de governador do Distrito Federal por infidelidade partidária. Em carta, ele diz que “mesmo certo de seu direito”, recorrer da decisão seria "prolongar o drama". A informação é do portal do Estadão.

O ex-governador distrital disse que deve responder os demais processos contra ele como cidadão comum. Em carta, ele ainda cita todos os seus projetos de governo e pede aos sucessores que suas obras não sejam interrompidas.

Arruda é acusado, em inquérito da Operação Caixa de Pandora, de comandar e ser beneficiário do "mensalão do DEM", esquema de corrupção que envolve secretários de Estado, assessores e deputados distritais. Ele está preso há mais de um mês na Superintendência da Polícia Federal por tentativa de suborno a uma das testemunhas do caso. O TRE-DF cassou o mandato de Arruda porque ele pediu desfiliação do DEM, legenda pela qual foi eleito, em dezembro de 2009, após a cúpula do partido ter anunciado que o expulsaria.

"Não tenho a culpa que querem me imputar. Resisti a um inquérito que já ultrapassa 180 dias. Suportei as pressões, as traições, os flagrantes montados, as farsas, as buscas e apreensões, os vazamentos de documentos para fomentar o escândalo, o abandono do Democratas, a prisão, 180 dias de inquérito, 40 dias de prisão. E até agora eu não fui ouvido uma única vez!", reclama Arruda na carta.

Arruda foi preso no dia 11 de fevereiro por determinação do STJ, por ter tentado, supostamente, corromper uma testemunha envolvida na operação. Outras cinco pessoas estão presas pelo mesmo motivo. O Supremo Tribunal Federal já negou pedido do ex-governador de responder o processo em liberdade. Na Câmara Legislativa, o processo de impeachment que corre contra ele deve ser suspenso. E o Superior Tribunal de Justiça não precisa mais de autorização do legislativo para abrir Ação Penal contra ele.

Leia a carta

"Ao agradecê-los pelo trabalho que têm feito na minha defesa nas diversas frentes, com o apoio de competentes e leais colegas de profissão, desejo manifestar, em especial à Dra. Luciana Lossio, que sustentou a nossa defesa no TRE - o meu desejo de não recorrer ao TSE, mesmo consciente do nosso bom direito.

Não tenho a culpa que querem me imputar. Resisti a um inquérito que já ultrapassa 180 dias. Suportei as pressões, as traições, os flagrantes montados, as farsas, as buscas e apreensões, os vazamentos de documentos para fomentar o escândalo, o abandono do Democratas, a prisão, 180 dias de inquérito, 40 dias de prisão.

E até agora eu não fui ouvido uma única vez! Neste final de semana, imobilizado na cama de uma cela, pensei muito sobre tudo isso e, sobretudo, nos dois mais recentes episódios: a decisão do TRE e o cateterismo a que me submeti, confirmando uma doença coronariana que eu não tinha antes de enfrentar essa luta.

Pensei na minha família, nos amigos de verdade, no trabalho que fizemos por Brasília nesses 3 anos, nas 2000 obras, nas 200 escolas de educação integral, nas 1000 novas salas de aula, no novo sistema viário, pistas, duplicações, viadutos, nas 12 cidades mais pobres que há 20 anos esperavam por asfalto, esgoto, escolas, centros de saúde, vilas olímpicas, postos policiais, nos condomínios regularizados, enfim, em tudo que fizemos para colocar ordem na cidade e nas contas públicas. O fim das vans piratas, das invasões, os 2000 ônibus sem nenhum aumento de passagens - 3 anos de governo sem nenhum aumento de passagem - os parques, o Noroeste (bairro), os 65.000 pais de famílias empregados nas obras do governo.

E concluí que posso ajudar mais Brasília, no seu aniversário de 50 anos, com a minha ausência do que com a minha presença. Divergem-se os conflitos e as paixões. Por isso decidi solicitar a vocês, meus advogados, que não recorram ao TSE, apesar do bom direito que vos assiste. Recorrer seria prolongar o drama.

Acatando a decisão do TRE. Responderei os processos como cidadão comum, longe das paixões e dos interesses políticos. Saio da vida pública.

Espero, apenas, que meus sucessores não deixem que as obras sejam interrompidas, todas já com recursos assegurados e na sua fase final. As obras não são minhas, são da cidade.

Sou grato a toda a minha equipe de governo que, com eficiência e determinação, foi fundamental no cumprimento dos nossos objetivos.

Sou grato, também, a Sua Exa o Sr. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva - e ao seu governo, sem cujo apoio não teríamos feito tudo que fizemos.

Com a paz que já me assiste neste momento de despedida, lembro que "há homens livres nas celas e homens presos nas ruas" - O meu corpo-matéria sofre desgastes, mas nunca tive tanta liberdade de espírito.

Leio, em Eclesiastes: "Sabedoria é a capacidade de discernir a verdade por trás das aparências. Quem é capaz disso não se perturba diante dos conflitos". Pode demorar, mas a verdade se estabelecerá. Tenho fé que serão identificados os interesses que contrariei, as propostas indecorosas que não aceitei, os hábitos que repeli.

A vida é cíclica. Já vivi altos e baixos. Aplausos e vaias. Vitórias e derrotas. Vida que segue.

Serei eternamente grato à grande parte da população que me elegeu e que me apoiou mesmo nos momentos mais difíceis. Peço ainda que transmitam meus agradecimentos ao dr. Alckmin, dr. Gerardo Grossi, dr. Bulhões e dr. Ferrão.

Agradeço também, ao verdadeiros amigos, às correntes de oração e especialmente à Flávia, de cuja coragem, carinho e amor verdadeiro retirei as forças necessárias para superar tantos obstáculos.

Não posso negar que a doença coronariana que me levou ao cateterismo - e agora a cuidados especiais - foi variável importante nesta decisão. Já vivi o bastante para saber que as razões políticas muitas vezes ultrapassam os limites do Direito - e que a humildade de saber parar pode valer mais que a mais triste e destemida insistência.

Revista Consultor Jurídico, 22 de março de 2010, 21h22

Comentários de leitores

1 comentário

De bobo ele não tem nada . . .

Ricardo, aposentado (Outros)

O ex-Governador cassado José Roberto Arruda, de bobo não tem nada.
Na verdade está abrindo mão do foro privilegiado para não correr o risco de permanecer preso cumprindo a pena a qual fatalmente seria condenado no STFJ.
E isso sem falar da manutenção dos seus direitos políticos.
Com a perda do foro privilegiado e sendo julgado pela justiça comum ainda que condenado deverão demorar mais de 15 anos para o trânsito em julgado da sentença condenatória.
Será caso semelhante ao do ex-Senador Luis Estevão, tbm do GDF, que apesar de transitada em julgado a sua condenação ainda permanece em liberdade . . .
Daí . . .

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