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Direitos iguais

A importância do reconhecimento à união homoafetiva

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A união de pessoas do mesmo sexo passou a ser discutida com mais intensidade, nos últimos anos, tanto na sociedade quanto no mundo jurídico. A indagação consiste na classificação deste tipo de relacionamento como entidade familiar ou união de fato.

A questão é complexa e de alta relevância social e jurídico-constitucional. Alguns doutrinadores sustentam o caráter fundamental do direito personalíssimo à orientação sexual. Outros defendem a qualificação jurídica das uniões homoafetivas e são favoráveis ao reconhecimento da inconstitucionalidade do artigo 1º, da Lei nº 9.278/96, que, ao regular o § 3º do artigo 226 da Constituição, reconheceu, unicamente, como entidade familiar, "a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família".

O Código Civil de 2002 prevê em seu artigo 1.723: “É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família".

Foram revogadas as mencionadas Leis nº 8.971/94 e 9.278/96 em face da inclusão da matéria no Código Civil de 2002, que fez significativa mudança ao inserir o título referente à união estável no Livro de Família e incorporar os princípios básicos das aludidas leis.

Contemporaneamente, os direitos dos homossexuais passaram a ser mais debatidos. Há uma tendência maior à sua aceitação no meio social e até mesmo nas decisões judiciais. Muitas são favoráveis à pensão por morte para companheiros de homossexuais, por exemplo. Inúmeros magistrados têm interpretado a união homoafetiva como uma sociedade de fato, uma vez que há um esforço dos companheiros destinados a um fim comum. Grande parte da doutrina, porém, considera que não pode haver casamento entre pessoas do mesmo sexo. Fundamento: a diversidade de sexos é requisito fundamental para a caracterização do casamento, assim como a forma solene e o consentimento. Nessa linha, não se concebe a união homossexual com natureza jurídica de casamento.

Washington de Barros Monteiro conceitua o matrimônio como "a união permanente entre o homem e a mulher, de acordo com a lei, a fim de se reproduzirem, de se ajudarem mutuamente e de criarem os seus filhos". Essa era a visão quase unânime dos juristas. Mas esse capítulo da história vem mudando.

Utilizando-se da analogia e invocando princípios fundamentais como os da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da autodeterminação, da igualdade, do pluralismo, da intimidade, da não discriminação e da busca da felicidade, a Justiça tem revelado admirável percepção ao reconhecer o direito personalíssimo à orientação sexual. E ainda: da proclamação da legitimidade ético-jurídica da união homoafetiva como entidade familiar.

Com decisões que privilegiam princípios constitucionais, a Justiça tem permitido que se extraiam, em favor de parceiros homossexuais, relevantes reflexos no plano do Direito e na esfera das relações sociais.

Essa visão do tema tem o intuito de superar incompreensíveis resistências sociais e institucionais fundadas em fórmulas preconceituosas inadmissíveis. A análise do assunto por tribunais evidencia a urgência de se atribuir verdadeiro estatuto de cidadania às uniões estáveis homoafetivas.

É importante mencionar, neste ponto, a notável lição dada pela desembargadora Maria Berenice Dias em seu livro “União Homossexual: O Preconceito & a Justiça" (3ª edição, 2006, Livraria do Advogado Editora). A desembargadora afirma que: a Constituição outorgou especial proteção à família, independentemente da celebração do casamento, bem como às famílias monoparentais. Mas a família não se define exclusivamente em razão do vínculo entre um homem e uma mulher ou da convivência dos ascendentes com seus descendentes. Também o convívio de pessoas do mesmo sexo ou de sexos diferentes, ligadas por laços afetivos, sem conotação sexual, cabe ser reconhecido como entidade familiar. A prole ou a capacidade procriativa não são essenciais para que a convivência de duas pessoas mereça a proteção legal, descabendo deixar fora do conceito de família as relações homoafetivas. Presentes os requisitos de vida em comum, coabitação, mútua assistência, é de se concederem os mesmos direitos e se imporem iguais obrigações a todos os vínculos de afeto que tenham idênticas características.

A sociedade evoluiu, as questões sociais se transformaram, as problemáticas se alteraram diante do contexto histórico jurídico sendo imprescindível uma mudança de mentalidade e igualmente, porque não, de razão, racionalismo, a evolução do conceito de moralidade, o abandono de crucificações cristãs e, além de tudo, a renovação do tema a ser positivado. Ventilar a possibilidade de desrespeito ou prejuízo a alguém, em função de sua orientação sexual, seria dispensar tratamento indigno ao ser humano.

A legislação deve evoluir e abarcar a proteção aos vínculos em que há comprometimento amoroso. Havendo convivência duradoura, pública e contínua entre duas pessoas, estabelecida com o objetivo de constituição de família, mister reconhecer a existência de uma união estável. Independentemente do sexo dos parceiros fazem jus à mesma proteção.

O assunto é tão relevante que vem sendo pauta dos tribunais superiores. O Superior Tribunal de Justiça autorizou, recentemente, a adoção de crianças por casal em relação homoafetiva. E está nas mãos do Supremo Tribunal Federal a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132, ajuizada pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, sobre o tema.

O governador defende a aplicação do regime jurídico das uniões estáveis, como prevê o artigo 1.723 do Código Civil, às uniões homoafetivas de funcionários públicos civis do estado. Também está no Supremo a Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.277, que pede o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar.

Diante desse cenário, é preciso que o operador do Direito, o Judiciário e a sociedade fiquem atentos às mutações sociais e jurídicas na busca de evitar ou reduzir desproporções que separam o cidadão, a sociedade e o Estado mais igualitário.

Bibliografia

DIAS, Maria Berenice. INSS inaugura no direito positivo a união estável homossexual. Boletim do Instituto Brasileiro de Direito de Família - IBDFam, nº 4. Ano 1. Julho/Agosto 2000.

FILHO, Manoel Gonçalves Ferreira. Comentários à Constituição Brasileira de 1988. Ed. Saraiva. 3.ª Edição. São Paulo. 2000.

GOMES, Orlando. Direito de Família. Ed. Forense. 12ª Edição. Rio de Janeiro, 2000.

MARTINS, Ives Gandra. Comentários à Constituição do Brasil Volume 8. 2.ª Edição. Saraiva. 2000

MORAES, Alexandre de. Constituição do Brasil Interpretada e Legislação Constitucional. Ed. Atlas S.A. São Paulo. 2002.

MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de direito civil: direito de família. São Paulo: Saraiva.


 

 é juíza de Direito substituta e especialista e pós-graduada pela Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro.

Revista Consultor Jurídico, 8 de julho de 2010, 7h56

Comentários de leitores

3 comentários

Mais um artigo da série

Flávio Ramos (Advogado Sócio de Escritório - Empresarial)

"Modernizando o direito". Não sei justificar porque esperava um pouco mais de conteúdo desse artigo, não a simples petição de princípio liberalista - o indivíduo faz sua própria norma de conduta, e o Estado deve prestigiar todas igualmente, desde que não ofenda direitos de terceiros. Ainda foi pior, porque além de fundamentar pouco seu ponto de vista, desqualificou o contrário como preconceituoso, irracional e cristãmente crucificante (?).
O direito tem razões para eleger como especialmente conveniente, e portanto favorecer, a família tradicional, em que homem e mulher se ligam permanentemente com intuito de constituir família. Esse conceito tem a seu favor o testemunho histórico, a capacidade procriativa e a complementaridade físico-psicológica entre os sexos.
A evolução social trouxe muitos fenômenos novos, além da vinculação afetiva de pessoas de mesmo sexo. O dado substancial de elas existirem não conduz necessariamente à normatização de equipará-las ao matrimônio. Essa é uma opção valorativa que não se legitima apenas com o recurso à analogia e a invocação a alguns princípios gerais.
O tema não me interessa muito, mas gostaria de ler uma elaboração jurídica (em forma de artigo, naturalmente, não de tese) sobre as características suficientes para definir e justificar o instituto da entidade familiar juridicamente ideal. O que me parece, ainda mais lendo o excerto doutrinário citado, é que os defensores das uniões homossexuais não dispõem de argumentação para diferenciar família de sociedade: o seu discurso legitimaria o cidadão a montar sua entidade familiar na medida de seu desejo, assim como pode criar sua pessoa jurídica com seus sócios preferidos.

Heterofobia: Aversão à heterossexualidade.

Radar (Bacharel)

Agora estão começando a falar de AMOR como característico da união homossexual? mera e arbitrária conjectura! Ora, amor não é requisito sequer da união que a Constituição protege, que é entre HOMEM e MULHER. É suficiente a manifestação de vontade, capacidade civil e diversidade sexual. E, para a união estável, o que se exige é convivência pública e duradoura. É claro que merecem respeito as pessoas que, sendo do mesmo sexo, celebrem sociedade de fato, principalmente no aspecto patrimonial. Mas parece ilegítimo que os defensores da união "sui generis" inventem modismos destoantes do consenso social, só para se justificar perante o restante da sociedade. A cada dia dão uma nova marteladinha para ver se "cola" o seu discurso do "tudo é normal e lindo". Como se já não bastasse a violência vernacular inserida pelo exdrúxulo e preconceituoso termo "homofobia", um estrangeirismo ridículo, cujo correlato deverá ser, necessariamente, a HETEROFOBIA.

A sociedade não evoluiu, a moral social é que involuiu.

www.eyelegal.tk (Outros)

Toda essa estultice vem da escalada de um pensamento socialista alienígena que está sendo difundido pela mídia e por alguns juristas, principalmente ligados a uma ong gay criada exclusivamente com essa finalidade de desfigurar a família brasileira.
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Até a bem poucos anos não se concebia tamanho descalabro, o que prova que esse discurso é vazio.
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O mais importante que o STF deve ter em conta ao analisar o tema é que o Brasil não pode se submeter à invasão de uma homogeneização estrangeira da sua cultura e do seu Direito. Muito cuidado com as propostas de normas que vêm de fora para dentro.
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Somos um povo e uma nação que tem a sua própria identidade. Aqui não é a Europa e também não é o Irã. É da sabedoria chinesa o provérbio que recomenda o "caminho do meio", para preservar a nossa cultura e a identidade deste país como nação.
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Não somos uma sopa no caldeirão da mídia que se arvora a governar manipulando as pessoas, que manipulam o Estado, que manipula as pessoas.
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Deixem que eles lá fora façam as suas estupidezes, nós aqui temos que ter responsabilidade para o nosso consumo interno, porque a nossa Constituição diz abertamente "entre o homem e a mulher", v.g. entre o macho e a fêmea. Não há nenhuma igualdade e nem dignidade em celebrar o "casamento" entre duas pessoas do mesmo sexo. Isso não passa da mais pura degradação do ser humano.
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As pessoas têm uma dimensão que vai além da matéria, além do corpo. Esse é um fato reconhecido por todas as diferentes culturas humanas. Os comportamentos geram uma energia como conseqüência e quanto mais negativo (-) for esse comportamento, mais negativamente essa sociedade vai vibrar e vai atrair as energias afins que vibram na mesma freqüência.
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http://eyelegal.orgfree.com/pages/leidocao.html

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