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Pensão para amante

Projeto de lei provoca bigamia e adultério

[Editorial do jornal O Estado de S. Paulo publicado neste domingo (26/12)]

Os projetos de lei que a Câmara e o Senado aprovaram de afogadilho nas últimas semanas, antes do término da atual legislatura, não se limitam a conceder aumentos imorais, promover trens da alegria, aumentar os gastos do Tesouro e agravar a má qualidade do gasto público. Alguns se destacam também por suas implicações éticas, com graves consequências sobre os usos e costumes da sociedade brasileira.

É esse o caso do Projeto de Lei 674/07, que foi aprovado em caráter terminativo pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), presentes apenas 3 deputados - apesar de 39 terem assinado a lista de presença. O projeto, que segue para o Senado, é de autoria do deputado Sérgio Barradas Carneiro (PT-BA) e foi apresentado sob a justificativa de "atualizar" e "modernizar" o Código Civil no capítulo do direito de família, abarcando temas como dissolução de laços conjugais, adoção, pagamento de pensão alimentícia e alteração do regime de bens por meio de escritura pública.

Embora o novo Código Civil tenha entrado em vigor há apenas oito anos, substituindo o velho Código concebido por Clóvis Bevilaqua na primeira década do século 20, o parlamentar baiano alega que ele é fruto de um projeto escrito pelo jurista Miguel Reale entre 1968 e 1972, quando eram outras as condições políticas, econômicas, sociais e culturais do País. Como os valores morais do século 21 não são os mesmos dos das décadas finais do século 20, seria necessário atualizar tanto a legislação quanto a jurisprudência dos tribunais, afirma Barradas Carneiro.

Com o objetivo de instituir um "Estatuto das Famílias", ele reuniu num único texto dispositivos jurídicos que já constam da Constituição de 88, do Código Civil de 2002 e até mesmo do Código de Processo Civil de 1973 - que está sendo reformulado pelo Senado.

Além disso, com o apoio do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), Carneiro incorporou ao projeto emendas constitucionais e leis aprovadas há seis meses que mudaram as regras do divórcio, eliminaram a figura jurídica da separação judicial e revogaram o limite de idade máxima para a pessoa se casar sob o regime de comunhão de bens, que hoje é de 70 anos. O deputado também introduziu algumas inovações na regulação das relações matrimoniais e familiares.

O resultado é um monstrengo jurídico. Entre outros absurdos, a pretexto de defender a família, o projeto prevê que "a união formada em desacordo aos impedimentos legais não exclui os deveres de assistência e a partilha de bens". Trocando em miúdos, ele impõe ao marido a obrigação de pagar pensão não apenas para a mulher com quem é legalmente casado, mas, igualmente, para a amante. Esta teria prerrogativas idênticas aos da esposa oficial - inclusive o direito à partilha de bens.

Segundo a vice-presidente do IBDFAM, Maria Berenice Dias, que se apresenta como autora intelectual do projeto do deputado Sérgio Carneiro, o Código Civil seria leniente com o homem que tem mais de uma mulher e beneficiaria somente a esposa, deixando a "outra" ao desamparo. Com o Estatuto das Famílias, "o homem passa a se responsabilizar pelas duas", afirma Dias, depois de esclarecer que a inovação não se aplica a eventuais casos extraconjugais. Para pleitear pagamento de pensão e até herança, a amante teria de provar a "estabilidade da união".

O projeto aprovado a toque de caixa pela CCJ da Câmara, sob o pretexto de aumentar as responsabilidades jurídicas dos maridos em suas relações afetivas, na prática institucionaliza a bigamia e o adultério. Em vez de reforçar os laços matrimoniais e fortalecer a unidade da família, como afirmam seus autores, ele acarreta efeitos diametralmente opostos.

Em resposta às fortes críticas feitas ao projeto por vários setores da sociedade, o IBDFAM distribuiu nota classificando-as como açodadas, moralistas e juridicamente infundadas e afirmando que o direito de família não pode ser tratado com base em preconceitos e tabus. São palavras vazias, diante de um texto juridicamente estapafúrdio e moralmente discutível. 

Revista Consultor Jurídico, 26 de dezembro de 2010, 14h21

Comentários de leitores

6 comentários

Não estou vendo o problema

Isabela (Estudante de Direito)

Assim como os filhops fora do casamento têm os mesmo direitos, graças ao princípio constitucional da isonomia, as mulheres que tiveram relação extraconjugal com o homem casado (relação esta que não é mais crime) são SERES HUMANOS com as mesmas garantias constitucionais de isonomia. Estaria errado o código civil em defender igualdade de filhos conjugais e extraconjugais mas não defendar a igualdade de direitos das mulheres envolvidas em relações extraconjugais
(cuja defesa e´claramente perseguida constitucionalmente , graças à proteção inovadora da UNIÃO ESTÁVEL)
Me desculpe, mas esta é a única opção racional e separada de emoções, assim como de interesses patrimoniais.
Acredito, também, que o mesmo serviria para o HOMEM em relação extraconjugal. Ele também teria direitos em relação à mulher casada com a qual mantivesse relações.

Não estou vendo o problema

Isabela (Estudante de Direito)

Assim como os filhops fora do casamento têm os mesmo direitos, graças ao princípio constitucional da isonomia, as mulheres que tiveram relação extraconjugal com o homem casado (relação esta que não é mais crime) são SERES HUMANOS com as mesmas garantias constitucionais de isonomia. Estaria errado o código civil em defender igualdade de filhos conjugais e extraconjugais mas não defendar a igualdade de direitos das mulheres envolvidas em relações extraconjugais
(cuja defesa e´claramente perseguida constitucionalmente , graças à proteção inovadora da UNIÃO ESTÁVEL)
Me desculpe, mas esta é a única opção racional e separada de emoções, assim como de interesses patrimoniais.
Acredito, também, que o mesmo serviria para o HOMEM em relação extraconjugal. Ele também teria direitos em relação à mulher casada com a qual mantivesse relações.

Direitos iguais para homens por favor

Gilberto Strapazon - Escritor. Analista de Sistemas. (Consultor)

Gostaria de comentar, que as mulheres também tem amantes.
Só que, apesar de estarmos no século XXI, e as mulheres terem conquistados amplos direitos, merecidos, ainda vemos que estes mesmos direitos somaram-se ao que tradicionalmente são características tradicionais, como o de que o homem ainda é visto como provedor e, mesmo que a mulher trabalhe, é normal que esta considere seu quinhão exclusividade sua. Na hora de dividir, ainda vejo muito, repartir-se o que é do homem, e a mulher ficar com tudo que é seu.
A mulher é considerada parte fraca, com razão devido as características emocionais diferentes entre os sexos, mas pessoalmente, discordo quando facilmente um homem é tratado como gigolô, apesar de trabalhar, quando o mesmo papel é exercido sob outro nome, pela mulher.
Direitos iguais implicam deveres iguais.
E sobre a monogamia, é algo que requer amplo debate e, concordo com as questões éticas e morais pertinentes a sociedade, pois temos um conjunto de leis. Mas na prática, são comuns as relações com mais de um domicílio, o que muitas vezes trata-se até de algo que prejudica a familia matriz, visto ser algo particular e feito as escondidas. Com isto, pelo direito de herança, pune-se os demais familiares. Mas também, devemos meditar sobre isto, pois as pessoas não podem simplesmente amarrar seus sentimentos. Existem casos em que trata-se apenas de sexo, mas em vários outros, trata-se de uma união emocional mais profunda e que deve ser encarada corajosamente pelos nossos mais sábios, visando a harmonia da sociedade para que possamos viver de forma mais justa e perfeita.

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