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Justiça democrática

Judiciário é o poder mais avesso à transparência

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Existem três condições que me parecem essenciais para que se possa ter no país uma Justiça verdadeiramente democrática.

A primeira condição, a meu ver, é esta: que a Justiça seja aberta. O espaço da Justiça é um espaço público. Justiça não é negócio entre compadres. Justiça fechada contraria premissa básica da Democracia. Dos três Poderes da República, o Judiciário é o que se mostra mais avesso à transparência, é o mais resistente a qualquer forma de fiscalização.

De longa data fecharam-se as cortinas da Justiça aos olhares públicos, como se a Justiça pertencesse a pessoas e a famílias, reminiscência dos feudos medievais. Abusa-se da utilização do chamado segredo de Justiça. Um processo só pode correr debaixo de sigilo quando razões de respeito à pessoa humana o exijam. Neste caso, o segredo é imperativo porque as questões íntimas jamais podem ser devassadas. Mas o que temos por aí não são sessões secretas fundadas no interesse público ou no respeito à dignidade da pessoa humana, mas sessões secretas porque ainda resta um pouco de pudor, e esse pudor remanescente impede que se cuide, às claras, de proteger interesses particulares, nomeação e promoção de parentes, barganhas imorais.

A segunda condição para que se construa uma Justiça democrática suponho que seja eliminar todos os óbices à presença do povo nos corredores judiciários. Um óbice aparentemente inofensivo, porém grave, advém da exigência de roupa ou calçado para ingressar nos recintos judiciais. Num país de pés descalços, cobrar que os cidadãos calcem sapatos, para transpor os umbrais do fórum, é uma afronta à cidadania.

Outro óbice à democratização da Justiça, bem ligado a esse primeiro, não é de natureza física, mas sim de natureza mental. Trata-se do uso de linguagem cifrada nos tribunais, estratagema proposital para vedar ao povo a compreensão do Direito. É perfeitamente possível lavrar uma sentença com palavras que o homem comum possa entender. Não se pode considerar aceitável aquela situação em que um cidadão submetido a julgamento porque engaiolou um pássaro em extinção, depois de ouvir uma longa sentença, redigida em frases emboloradas, pergunte, de cabeça baixa, humildemente, ao magistrado: “doutor, com todo o respeito, o senhor me condenou ou me absolveu?”

Sem prejuízo de se fazer entender, o discurso jurídico deve ser rigorosamente correto. Não se podem tolerar erros de português em petições, arrazoados, sentenças ou acórdãos. Se um magistrado não sabe português e comete erros grosseiros, saberá ele Direito? Muito provavalmente, não. A incorreção da linguagem desprestigia a Justiça e lança a suspeição de incompetência, não apenas gramatical, mas também jurídica, daquele que não sabe conjugar verbos, nem sabe grafar palavras.

A terceira condição para que se alcance uma Justiça democrática, e até mesmo ética, consiste em exigir que as decisões judiciais sejam sempre motivadas. Ou seja, não basta que o juiz diga: julgo a ação procedente, ou julgo a ação improcedente. É sempre obrigatório que a decisão seja fundamentada, isto é, que sejam explicitadas as razões que levaram o julgador a decidir desta ou daquela maneira.

Também nos órgãos colegiados a fundamentação é imprescindível. Cada julgador deve declinar as razões do seu entendimento. É muito comum, nos tribunais, o desembargador ou ministro, na hora do seu voto, dizer: voto com o relator, e ponto final. Dizer que vota com o relator não é fundamentação, é preguiça que merece execração pública. A expressão “voto com o relator” é uma fraude ao princípio que determina que as decisões judiciais sejam sempre motivadas.

 é livre-docente da Universidade Federal do Espírito Santo, professor de mestrado em Direito e escritor.

Revista Consultor Jurídico, 22 de dezembro de 2010, 13h32

Comentários de leitores

9 comentários

A JUSTIÇA COMO UM FIM EM SI MESMA

Fernando José Gonçalves (Advogado Sócio de Escritório)

Parabéns ao colunista. Infelizmente no Brasil os três poderes ainda respeitam a vetusca e desmoralizada tese de Galileu, segundo a qual "o sol é que girava em torno da terra". Aqui o poder se encerra no próprio poder e, como poder, por aqui, se entende o supremo e divino direito de alguns de dizer o que é melhor para todos, sem que se admita opinião em contrário. A justiça tornou-se, de há muito, um fim em si mesma. Gira em função de interesses,apadrinhamentos,favores e condescendências mesquinhas, jactando-se em demonstrações explícitas de vaidades individuais;um narcisismo que afeta, em especial,o seu órgão máximo,plugado diariamente na mídia televisiva. É o arcabouço de célebres ministros, cada qual querendo se sobrepor a seus pares, proferindo decisões mirabolantes recheados de argumentos e demonstrações de conhecimento pessoal, somados a retórica rebuscada escritas em extensas,cansativas e inúteis laudas,não com o escopo primordial de fazer justiça, mas com a velada e indisfarçável intenção de obter mais prestígio pessoal, afinal parece ser para isso que os próceres dos Tribunais são guindados a tais órgãos e ,nessa esteira, quanto mais polêmico, melhor.Um velho e saudoso mestre já dizia, nos idos da década de 70,em suas aulas de Dir.Penal: 'Um país pode conviver com a incompetência e incredulidade pública do executivo e do legislativo, porém, se essa incompetência e incredulidade atingirem também o Judiciário, esse país não sobreviverá." Estamos assistindo a essa 'profecia' nos dias de hoje.

Todo poder....

preocupante (Delegado de Polícia Estadual)

Todo poder que acha que pode tudo, termina por não poder nada, porque cai no descrédito, no achincalhe, na desconfiança, no desuso. Seu fim, por isso, é a extinção, mesmo que seja pela via da revolução.

... O Poder Judiciário ...

Luiz Eduardo Osse (Outros)

... no Brasil, de modo geral, em todos os níveis, salvo raras exceções, é mesmo um caso de polícia.

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