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LIVRO ABERTO

Os livros que marcaram a vida de Miguel Reale Junior

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Miguel Reale Júnior - SpaccaNão foi por acaso que o ex-ministro da Justiça Miguel Reale Junior se rendeu ao desafio de escrever romances. Ele nasceu e cresceu em meio a livros, na bem equipada biblioteca de seus pais. Da infância, guarda a lembrança tanto dos brinquedos quanto dos livros. “Não sei o que mais me chamava a atenção: a lombada os livros ou a maria-fumaça”, diz. Filho do jurista Miguel Reale, morto em 2006, o também professor da Faculdade de Direito da USP, aprecia os clássicos da literatura brasileira. No Direito, prefere os autores italianos.

Não satisfeito com as pilhas de livros dentro de casa, ele comprava seus próprios exemplares para poder fazer anotações e rabiscar. “Eu mesmo comprava, me aproximava das obras, principalmente de Guimarães Rosa, cada página é uma viagem”, conta.

A inspiração precoce levou-o a tornar-se um autor de livros de ficção. Em 2004, estreou com Dez Mulheres, seguido por Avessos, em 2005. Em 2007, produziu o romance de suspense O Rio e o Mar, ambientado no Brasil dos anos 1940, ainda  sob o eco da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo. Seu último livro, Juramento conta a história de Eduardo, um jovem advogado mineiro que decide retornar à cidade de sua infância, Pouso Alegre, antes de iniciar sua carreira na capital. Lá ele se vê obrigado a usar seus conhecimentos para apoiar a família.

Fora da ficção, Reale Jr. publicou várias obras jurídicas, entre as quais Novos Rumos do Sistema Criminal, Brasil 93, A Hora do Parlamentarismo, Problemas Penais Concretos e Teoria do Delito.

Com tanto livro nas estantes e na cabeça, Reale Jr. acabou por construir uma biblioteca, já em fase de catalogação, na cidade de Canela, Rio Grande do Sul. “O espaço será só para alunos, estudante de pós-graduação e doutoramento. Terá 18 mil volumes relacionados a Direito e História”, conta. O espaço fará parte do Instituto de Estudos Culturalistas, que segue a linha de pensamento de seu pai.

Além das atividades de advogado, Reale Jr. se dedica ainda, como presidente, ao  Instituto Probono. São mais de 300 escritórios inscritos que produzem trabalhos jurídicos consultivos ou contenciosos para entidades assistenciais. “O trabalho é prestado a entidades assistenciais sem fins lucrativos que têm problemas tributários, trabalhistas ou comerciais”, explica o advogado.


Primeiro livro
O Tico-Tico - ReproduçãoO Tico-Tico, a primeira revista em quadrinhos brasileira foi a primeira paixão de Reale Junior. Criada em 1905, as aventuras dos personagens Reco-Reco, Bolão e Azeitona ganharam uma reedição luxuosa em 2005, pela editora Opera Graphica, especializada em quadrinhos. A última edição da versão original foi publicada em 1957.  “Era um livro-gibi sucesso na época e genuinamente brasileiro”, conta.

Dos quadrinhos, Reale Jr. partiu para a enciclopédia seriada O Tesouro da Juventude. Lançada nos Estados Unidos em 1912, e trazida ao Brasil pela Jackson Editores, a série matava a curiosidade da garotada. “A enciclopédia tinha uma parte de história e outra de curiosidades. Respondia a dúvidas como: por que os móveis rangem à noite? Como tirar manchas?”, conta Reale. Para ele, a coleção abria a mente das crianças com uma linguagem fácil, didática. “Era uma viagem. Todo o número tinha uma biografia, textos, contos. Eu ainda tenho a enciclopédia com 18 volumes”, conta . Segundo a revista SuperInteressante, a obra retrata os costumes e preconceitos da época (1958). Nos artigos, eram proibidas palavras como “genocídio”, “holocausto” e “comunismo”. Darviw aparece no índice remissivo, mas o autor de A Origem das Espécies é citado como “ completamente fora de moda".


Livro Didático
Leguas da Promissão (1968), de Adonias Filho - ReproduçãoOs autores da Semana de Arte Moderna foram os que tomaram os dias do jovem estudante Reale Jr.. Começou com Mário de Andrade e passou aos demais autores que marcaram a literatura brasileira. Ele já tivera acesso à maioria das obras presentes na biblioteca do pai, mas preferiu comprar seus próprios volumes para rabiscar e fazer anotações. Os clássicos mais marcantes que passaram nessa fase de sua vida foram Os sinos da agonia, de Autran Dourado, lançado em 1974, Leguas da Promissão (1968), de Adonias Filho e O Grande Sertão Veredas (1956), de Guimarães Rosa. “Mas o que mais me interessou no colégio foram Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, especialmente em As Farpas (1971).


Livro jurídico
Criminologia crítica y crítica del Derecho Penal - Alessandro Baratta - ReproduçãoA formação jurídica de Reale Jr. é baseada no Direito Penal com raízes no pensamento italiano. Por isso, os autores preferidos são os italianos Alessandro Baratta e Giovanni Sartori. A referência também é explicada por ele pelo fato de os autores seguirem correntes de pensamento confrontantes — “Baratta é fundador da crítica e Sartori é neoclássico”.

“Da criminologia crítica de Alessandro Baratta fui marcado por um livro de 93 Antinomie giuridiche e conflitti di coscienza, um dos que marcou muito meus estudos do direito penal”. Ele cita também a bibliografia do professor Giuseppe Bettiol como uma referência mais geral do Direito. “No campo da ciência política, minha preferência é pelo cientista político Giovanni Sartori que falava de teoria democrática em uma época de confronto com a ditadura”, conta.


Literatura
As preferências atuais passam pela literatura nacional e estrangeira. A obra recente que mais chamou a atenção do professor é Marca Humana (2002), do americano Philip Roth. Na literatura brasileira, ele lembra de Explorações do Tempo (1952), de Ciro dos Anjos e o Baú de Ossos (1972), o primeiro volume das memórias do médico e escritor mineiro Pedro Nava.


Li e Recomendo
Os sinos da agonia, de Waldomiro Autran Dourado - ReproduçãoReale deixa como registro aos leitores uma das obras que conheceu no colégio: Os Sinos da Agonia, de Autran Dourado. “O livro me impressiona como literatura, paixão, estrutura. É um obra de uma grande densidade psicológica, muita dor, muito sofrimento. De uma linguagem perfeita. Aprendizado para ler e escrever”. Para Reali, trata-se de uma das obras que ficou esquecida no final do século XX. “É um livro importante, de um dos autores brasileiros mais festejados fora do Brasil, mas esquecido por aqui”.

 é repórter da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 4 de novembro de 2009, 17h46

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