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O Recapitalismo

Capitalismo está se adaptando a novas realidades

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Recapitalismo. Essa palavra, ainda que inexistente, concentra como poucas as rápidas alterações vivida s pelo mercado. Ela reflete, na verdade, as aceleradas transformações ocorridas ao longo da história. Mais que isso, ela demonstra que o capitalismo não está próximo do seu fim ou entrou em colapso. Ele está, sim, se readaptando às novas realidades, como, aliás, o fez desde sempre.

Basta olhar para o passado. Nele veremos que o capitalismo já esteve ao lado de monarcas para a viabilização de Estados fortes, com menos barreiras para circulação de mercadorias e para a viabilização de novas expedições para as Índias. Em seguida tivemos um capitalismo voltado para as ideias liberais do período iluminista. Escravos, que um dia foram tratados como moedas, ganharam a liberdade para que fosse incentivada a criação de uma massa de operários — a combustão do consumo para a revolução industrial inglesa.

Hoje, o capitalismo novamente se reinventa. Comecemos pela área mais abalada pela atual crise, a financeira. As clássicas ideias da autorregulação do mercado pelo mercado, em questão de semanas, foram declaradas defasadas, ineficientes. Tomemos por exemplo duas afirmações de Alan Greenspan. Na primeira delas, em 2005, ainda presidente do Federal Reserve (Banco Central norte-americano), Greenspan disse: “a regulação particular demonstrou que é muito mais adequada que a regulação governamental para constranger a excessiva tomada de riscos”. Já em 2008 o mesmo Greenspan, já fora da presidência do Fed, reconhece estar “parcialmente errado” e declara que os mercados “deveriam estar muito mais regulados para impedir o pior tsunami financeiro do último século”.

O sistema focado na autorregulação, o mesmo que considerava excessivas as medidas trazidas pela Lei Sarbanes-Oxley, agora é socorrido pelo Estado nas principais economias de mercado. Essa intervenção se dá por processos de estatização, de participação acionária e por outras medidas que, de uma forma ou de outra, apontam para maior presença estatal no mundo financeiro. Contudo, não é possível afirmar que essa nova realidade significa o enfraquecimento do capitalismo. Teremos sim novos modelos, provavelmente baseados em sistemas mais rígidos. O mercado deverá se adaptar para que crises relacionadas às falhas hoje verificadas na tomada de riscos não se repitam ou sejam, ao menos, mitigadas.

A ideia de crise e de consequente necessidade de reinvenção do capitalismo, contudo, não está concentrada no mercado financeiro. A incessante busca pela substituição de energias fósseis por outras energias classificadas como limpas refletem não apenas preocupação ambiental. A percepção da finitude associada ao alto nível de consumo de produtos anteriormente vistos como abundantes levaram commodities como o petróleo a valores especulativos antes não imaginados, alcançando a barreira dos três dígitos. Nesse cenário sombrio, capaz de pressionar a inflação global, vimos os investimentos em energia renovável na ordem de US$ 148 bilhões em 2007, quantia 60% superior aos números de 2006, segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Há, ainda, a constante preocupação com a reutilização de produtos. Essa prática não exterioriza apenas o que se costumou denominar responsabilidade ambiental, ela reflete a percepção da finitude da capacidade de produção na Terra (segundo a ONG WWF, a humanidade precisará de dois planetas em 2030, se mantidos os índices de produção e consumo) e viabiliza o surgimento de novos segmentos de mercado (processos de coleta seletiva, pesquisas e desenvolvimento de novos materiais são apenas alguns exemplos) que intensificarão a demanda por serviços tradicionais, em uma espécie de mutualismo econômico.

Programas sociais sustentados por empresas possuem uma complexa relação de interesses. Contudo, não podemos negar os efeitos positivos gerados por tais iniciativas, que reafirmam a ideia de uma sociedade mais pacífica e com maiores oportunidades.

Tantos novos caminhos trilhados pelo capitalismo, na área financeira e na de produção, podem ser sintetizados como sustentabilidade. Essa palavra há pouco incorporada ao mundo dos negócios exterioriza, igualmente, a ideia do recapitalismo. Essa bandeira, antes facilmente vinculada ao conflito com os ditames que pregam os padrões habituais de consumo, hoje foi incorporada por consumidores e empresas.

Essa sustentabilidade, presente cada vez mais no cotidiano e cada vez mais desvinculada da simples ideia de marketing, indica que ao capitalismo resta reinventar-se, renovar-se, transformar-se em recapitalismo, adaptando-se às necessidades e às sociedades do seu tempo.

 é advogado especialista em Direito Internacional pela Université Paris II

Revista Consultor Jurídico, 24 de maio de 2009, 3h31

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