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O professor emérito

Goffredo vai-se ao som da oração de São Francisco

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Goffredo - ConJurO diretor da Escola de Direito do Largo São Francisco, João Grandino Rodas, conseguiu, na última quinta-feira, corrigir um equívoco histórico no itinerário da Academia. A congregação da escola aprovou, por unanimidade, a concessão do título de professor emérito da São Francisco a Goffredo da Silva Telles Jr. Infeliz coincidência, o professor chegou a ser informado. Mas morreu pouco tempo depois (Clique aqui para saber como ele morreu). Em 1985, a mesma proposta deixou de ser aprovada por uns poucos votos. Em desagravo, na ocasião, o reitor da Universidade de São Paulo, José Goldemberg fez aprovar o título incomum de professor emérito da USP. (Foto: conduzem o caixão com o corpo do professor, da  esquerda para a direita, o ministro do STM Flavio Bierrenbach, o ex-diretor da São Francisco Eduardo César Silveira Vita Marchi, o atual diretor João Grandino Rodas e o ministro do STF Ricardo Lewandowski).

Goffredo - ConJur

Esse foi um dos fatos lembrados no velório do professor, neste domingo, ao qual compareceram cerca de cento e cinquenta personalidades do mundo jurídico. (Clique aqui para saber o que pensam personalidades do mundo jurídico sobre ele). Ironia lisonjeira: as principais autoridades que foram reverenciá-lo foram seus alunos. O presidente da República foi representado pelo advogado-geral da União, José Antonio Dias Toffoli (Clique aqui para ler a nota de Lula e Toffoli sobre a morte); o presidente do STF foi representado pelo ministro Ricardo Lewandowski; o governador de São Paulo pelo seu vice, Alberto Goldman; o Superior Tribunal de Justiça, pelo ministro Sidnei Beneti. Outras personagens fundamentais presentes que seguiram os passos do professor foram o secretário de justiça do Estado, Luiz Antônio Guimarães Marrey; o ministro do Superior Tribunal Militar, Flávio Bierrenbach; o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos; o ex-chanceler Celso Lafer, desembargadores e advogados notáveis como Celso Mori, Modesto Carvalhosa, Eduardo Carnelós, Carlos Belisário e João PizaCássio Schubsky, historiador, co-autor do Estado de Direito Já – Os trinta anos da Carta aos Brasileiros, também esteve no velório. A OAB paulista foi representada por seu presidente, Luiz Flávio Borges D’Urso. Compareceu ainda o senador Eduardo Suplicy e seu ex-colega, Almino Afonso.

Goffredo - ConJur

D’Urso anunciou ali mesmo que o edifício sede da OAB passará a ter o nome de Goffredo e decretou luto oficial de três dias. “Ficou um vácuo, mas fica também o legado, o exemplo de resistência a todas iniciativas que possam ameaçar a liberdade e a democracia”, afirmou o presidente da Seccional.

Flávio Bierrenbach, o articulador do movimento que levou Goffredo à tribuna para ler a incrível “Carta aos Brasileiros”, resumiu sua admiração em uma frase emocionada: “Ele foi o mais importante professor que a escola teve no século XX”.

Goffredo - ConJur

O ministro Ricardo Lewandowski, que foi aluno de pós-graduação de Goffredo em Teoria Geral do Direito, preferiu destacar os traços filosóficos e humanistas do professor. “Ele praticou o que pregava” — enfatizou o ministro do STF — “Era despojado, nunca foi tributário de ideologias ou doutrinas sectárias, viveu para o aperfeiçoamento intelectual e científico. Nunca se interessou por cargos públicos e sempre enfatizou sua visão de que o serviço público deve colocar, em primeiro lugar, o público”.

O advogado-geral da União Dias Toffoli também puxou pela humildade e pela simplicidade do homenageado. “Exemplar, ele sempre incentivou os maiores valores que o ser humano pode cultivar como a liberdade, a democracia e o direito.”

Goffredo - ConJurAntes de o cortejo deixar o centro velho de São Paulo para dirigir-se ao Cemitério da Consolação, ainda no velório do Salão Nobre da São Francisco, os alunos, amigos e admiradores do professor puderam conviver um pouco mais com as idéias de Goffredo. A presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, Talita Nascimento, falou dos exemplos do professor e repetiu trecho da Celebração da Morte e Ressurreição lida ali pouco antes por um frei católico: “A morte não extingue, ela transforma, a morte não aniquila, renova; a morte não separa, aproxima”. 

O professor Sérgio Resende de Barros leu uma saudação feita aos calouros de 2007, escrita por Goffredo e lida por Resende na ocasião. Falou o professor Celso Lafer (turma de 1964) que destinou ao mestre frase dele próprio cunhada para outrem mas que a ele pareceu servir melhor: um homem que plantou rosas no piso de pedras da escola. “Um ser humano de rara elegância e perfeita educação”, disse Lafer, para arrematar chamando-o de “o mais emérito dos professores eméritos” — ao que um grupo numeroso passou a entoar as célebres trovas dos alunos da São Francisco.

Todos cercaram a viúva, Maria Eugênia e sua filha, Olívia, tentando confortá-las e compartilhando a densa tristeza da perda. Por fim, pela qualidade dos alunos que foram homenageá-lo, ficou a certeza de que Goffredo foi mesmo um grande professor.

Goffredo - ConJur

 é diretor da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 28 de junho de 2009, 19h36

Comentários de leitores

2 comentários

Um EMÉRITO Professor.

GILDA FIGUEIREDO FERRAZ DE ANDRADE (Advogado Sócio de Escritório - Trabalhista)

REALMENTE UM EMÉRITO PROFESSOR
Tive o privilégio, juntamente com minha TURMA da USP de 1981, de termos sido alunos do querido e já saudoso Prof. Goffredo , que no 1. ano de faculdade, lecionava a disciplina Introdução à Ciência do Direito.
Não havia livros, estudávamos com as apostilas que o Centro XI de agosto gentilmente nos proporcionava.
Aprendiámos as primeiras noções de direito assistindo suas maginíficas aulas.
Nunca me esquecerei de sua fidalguia , de sua simplicidade, generosidade , de seu carinho com seus alunos e alunas, postura própria dos Grandes mestres, e de seus conceitos jurídicos precisos e esclarecedores.
Para o Prof. Goffredo, não existia o conceito de DESORDEM, e nos repetia : " Desordem é a ORDEM que não nos convém".
Deixou discípulos, gerações de alunos-amigos, mas muito mais que isso, deixou saudades, que também segundo ele, em uma conversa informal há anos atrás sobre ela assim se referiu " Saudades são a presença da auência ".
Descanse em Paz, Professor Goffredo. Com a certeza de haver sido dos mais queridos Mestres do Largo de São Francisco.

SAUDADE !!!

hillarybr2007 (Outros - Civil)

Eu era apenas uma criança com 18 anos quando
fui aprovada no vestibular da S. Francisco (1968)
e passei a viver aquele sonho. Na primeira aula
de filosofia do direito, com o Prof. Goffredo
eu senti que viver valia a pena, porque eu nunca
imaginei, e nem tinha visto, um ser humano como
ele!! Vinha de um mundo muito diferente, acho
que não conhecia gente de verdade !! Ele foi
mais que um professor para mim, foi um referencial
de vida. Sinto que perdi um pai, mas sei que
o céu ganhou um anjo!!! E nós também !!!

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