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Tributo a Goffredo

Os 90 anos do professor Goffredo da Silva Telles Jr.

Por 

[Texto que homenageou os 90 anos do professor Goffredo da Silva Telles Jr., morto nesse sábado (27/6)]

Goffredo amigo. Goffredo colega. Goffredo companheiro. No Círculo das Quartas-feiras, descobrimos outras facetas de nosso professor, além do jurista, advogado, filósofo, escritor, constituinte em 1946 e autor da Carta aos Brasileiros. E, para surpresa de quem mantém a convivência com o mestre, outros maravilhosos Goffredos continuam a se revelar ano após ano.

“Amigo é coisa pra se guardar/Debaixo de sete chaves/Detro do coração.”

(Milton Nascimento e Fernando Brant)

Sala das Becas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, dia 11 de agosto de 1988. Sorridente, Goffredo da Silva Telles Jr. veste a túnica preta. Aposentado, compulsoriamente, por já ter completado 70 anos de idade, agora o professor é o convidado especial da Direção da Faculdade para a solenidade oficial de comemoração dos 161 anos da instalação dos cursos jurídicos no país, a celebrar-se, em instantes, no imponente Salão Nobre.

Eu nunca o vira. Ouvira, sim, falar dele: constituinte em 1946; autor da célebre Carta aos Brasileiros – marco da resistência democrática à ditadura militar implantada em 1964; mestre de Introdução à Ciência do Direito de 45 consecutivas gerações de alunos; neto de Olívia Guedes Penteado, figura de proa do Modernismo no Brasil.

Já trajado, o professor percebe que eu, a certa distância, o observo, atentamente, em seu ritual mágico de colocação da beca. Abre-me convidativo sorriso. Aproximo-me, então, para cumprimentá-lo. Em poucos minutos, pronunciarei, em nome do Centro Acadêmico XI de Agosto, discurso contundente, de crítica às elites retrógradas, que, com pés e mentes arraigados no atraso, perpetuam a injustiça social do país.

A minha arenga provoca reação irada, irritada, brava mesmo, de (quase) todos os professores titulares. De todos, menos de um: um único aplaude-me, compassadamente – o professor Goffredo. Mais: ao final da conturbada solenidade, solicita-me uma cópia do “importante discurso”. Comprometo-me a levar-lhe o texto em mãos, em seu escritório, na avenida São Luiz. Mal sabia eu que começava a nascer uma sólida e promissora amizade.

(A bem dos fatos, também assistia àquela solenidade Luiza Erundina, que, no meio da plateia, ao lado de meus colegas, aplaudiu minha manifestação; semanas depois, em um feito político extraordinário, ela seria eleita prefeita de São Paulo, pelo Partido dos Trabalhadores).

Combinado, cumprido. O professor recebeu-nos (ao colega calouro Cacaio Bentivegna e a mim) em sua sala de trabalho. Contou-nos de sua alegria ao alimentar, diariamente, as pombas que se postavam na laje à beira da ampla janela. Às vezes, chegava a tomar algum pássaro ferido nas mãos para ministrar-lhe um curativo. Foi um encontro breve, leve, à la Goffredo.

CAFÉ DA MANHÃ – Naquela época, ao buscar um local recolhido para ler, estudar e meditar, recebi, de um funcionário, a chave da sede da Academia de Letras da Faculdade. Uma minúscula sala, repleta de livros e de silêncio – exata em suas humanidades. Na ocasião, conheci o então presidente da Academia, Adriano Nunes Carrazza. Contei-lhe sobre o episódio da beca, e sobre o discurso, e sobre o Goffredo. Adriano revelou-me toda a sua admiração pelo professor, de quem fora aluno, quatro anos antes. Como estávamos às vésperas da promulgação da nova Constituição, que varreria do mapa político o entulho autoritário representado pela Carta outorgada em 1967, e emendada em 1969, tivemos a ideia de convidar o mestre para um café da manhã, a fim de comemorar aquela data tão significativa.

Dito e feito. Às seis horas da manhã da quarta-feira, dia 5 de outubro de 1988, abriram-se as portas do Hotel Eldorado, na avenida São Luiz, onde nos reunimos, em feliz jornada, o professor Goffredo, o Adriano e eu. Apesar de reconhecer na Constituição sérios vícios de origem – por ter sido fruto de um Congresso com poderes constituintes, e não de uma Assembleia Nacional Constituinte livre e soberana –, saudamos, vivamente, o avanço democrático que representava a sua promulgação.

Conversamos amenidades. O professor destravou um pouco mais as cancelas de seu coração e de sua alma, contando-nos histórias fantásticas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, sobre o “roubo da múmia” e sobre a passagem secreta ligando a Faculdade ao mosteiro de São Francisco (que facilitara o acesso em fuga de alunos perseguidos pela polícia política durante as duas ditaduras do século XX, a do Estado Novo e a militar). Empolgado com aquelas narrativas goffredianas, sugeri que fizéssemos um outro encontro, no mesmo local, na quarta-feira seguinte, também às seis da manhã.

Cássio Schubsky é formado em direito pela USP e em história pela PUC-SP, editor e historiador, é autor, entre outras obras, de "Advocacia Pública - Apontamentos sobre a História da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo".

Revista Consultor Jurídico, 28 de junho de 2009, 20h38

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