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Ponto de convergência

Celso de Mello fala da existência de Goffredo

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 George Bailey é o nome do personagem de um filme interessante de Frank Kapra (“Felicidade não se compra”, de 1946). Bailey achava que sua vida havia sido um desperdício e desejou que não tivesse nascido. Um anjo que passava por ali em busca de suas asas resolveu atendê-lo. Bailey volta à sua comunidade, onde todo traço de sua existência fora apagado, e chega ao desespero ao descobrir o buraco que a sua ausência causou. O enredo não fica só nisso, mas uma das conclusões da obra de Kapra é que cada pessoa, sabendo ou não, toca em tantas vidas e as muda de uma forma que talvez nunca saiba avaliar.

Na despedida de Goffredo da Silva Telles Júnior, em seu velório, pôde-se sentir a força enorme da influência do professor na vida dos que o cercaram e estavam ali à sua volta. Era possível ver até no semblante de seus pupilos Bierrenbach, Marrey, Grandino Rodas, Lafer, Mori — só para citar alguns sobrenomes — os traços de Goffredo. “Ele acendia uma tocha e entregava a quem se dispusesse a levá-la adiante”, descreve o ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, que passou a segurar a sua em 1965, quando foi introduzido na C iência do Direito pelas mãos de Goffredo. “E cada um de nós foi acendendo outras tochas, passando-as de geração em geração”, completa o ministro.

Homenagens póstumas costumam exagerar nos elogios e economizar nas críticas. Mas Goffredo da Silva Telles Jr. realmente fez por merecer os aplausos mais demorados. “Impossível esquecer suas lições”, insiste o ministro. “Ele ajudou a fazer com que muito mais que um lugar, um prédio impregnado de história, a Faculdade do Largo de São Francisco fosse um estado de espírito”.

Na quinta-feira que antecedeu a morte do professor, conta Celso de Mello, o Supremo foi visitado por um grupo de alunos da São Francisco. Foram recebidos pelos ministros Lewandowski, Eros Grau e por ele. Lembraram do professor, claro. Cantaram juntos as trovas acadêmicas e mostraram que a escola não tem ex-alunos, apenas estudantes mais antigos. “Goffredo foi um intérprete fiel dessa força e a expressou em todo seu significado para todos e cada um de nós”. Ele era um ponto de convergência, afirma Celso de Mello. “Ao longo de quase 50 anos, como professor, Goffredo foi o elo de união entre todos os alunos que por lá passaram. Ele forjou a unidade coletiva com que todos nos identificamos, como em uma confraria”.

Uma das muitas características dessa confraria é o entusiasmo ou “uma luz intensa”, como prefere o ministro, exemplificando com a Carta aos Brasileiros, que projetou a indignação dos cidadãos contra o cerceamento das liberdades democráticas, imposto pelo regime militar. Naquela ocasião, Goffredo não estava sozinho e “enfrentou a treva com ajuda das tochas que ele mesmo acendeu”. (Clique aqui para conhecer a obra que trata dos bastidores da Carta aos Brasileiros)

 é diretor da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 7 de julho de 2009, 9h37

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