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Quebra da confiança

Crise incentiva funcionários a cometer fraudes

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Logo depois do colapso — ou quase colapso —, de alguns dos maiores conglomerados financeiros dos Estados Unidos e do mundo, começaram a aparecer notícias sobre investigações conduzidas por autoridades americanas para apurar suspeitas de fraudes cometidas por altos executivos, tanto de conglomerados quanto do mercado financeiro. Segundo muitos analistas, esse tipo de fraude estaria entre as causas da atual situação de crise no mercado financeiro americano e mundial. Pode-se pensar que é fácil, a esta altura, afirmar isso, mas era de se esperar!

O governo Bush, ao longo dos anos, criou um ambiente favorável as fraudes, desregulamentando, desmantelando os órgãos encarregados do controle e da fiscalização, ignorando alertas e dúvidas e confiando demais no faro e boas intenções das instituições financeiras e de seus executivos.

Um exemplo entre todos é o do FBI que, desde o atentado de 11 de setembro, viu seus recursos humanos e financeiros serem desviados sistematicamente das áreas de combate a crimes de “colarinho branco” para áreas de combate ao terrorismo e segurança nacional e, agora, não tem condição de conduzir de forma eficiente as muitas investigações necessárias para averiguar as fraudes relacionadas com a crise financeira.

Em nível macro, o governo Bush fez exatamente o que, em qualquer empresa, um consultor em controle de riscos desaconselharia a fazer. Relaxar as regras, reduzir os controles e confiar demasiadamente em poucos operadores, até mesmo em relação a questões fundamentais e críticas. Tudo isso cria um ambiente favorável às fraudes. E, num ambiente favorável às fraudes, cedo ou tarde, elas acabam acontecendo.

Existe, porém, um outro importante aspecto da crise internacional que até o momento não foi devidamente levado em consideração e estudado. A crise pode facilmente funcionar, pelo menos durante algum tempo, como um catalisador para o aumento dos registros de fraudes nas empresas. Isso em função de um conjunto de fatores que, por um lado contribuem a criar um ambiente favorável às fraudes, e por outro obriga as empresas, que já enfrentam números vermelhos em seus balanços, a controlar melhor seu caixa e dar maior atenção a qualquer possível situação de perda por fraudes, inclusive as mais antigas.

Uma das principais conseqüências da crise, que contribui a gerar um ambiente favorável as fraudes, é a desmotivação dos funcionários. O cenário de demissões em massa, incertezas, reestruturações, redimensionamentos, transferências e falências faz com que funcionários anteriormente motivados e comprometidos passem a se sentir inseguros, desamparados e a viver um sentimento de “cada um por si”. Com isso, aparecendo uma oportunidade de fraudar a empresa, não será difícil que a acatem interpretando este ato como algum tipo de seguro para seu futuro ou como um ressarcimento por anos de dedicação. Ou seja, é altamente provável que, em conseqüência da crise, haja um aumento real no numero de novas ocorrências de fraudes nas empresas.

Por outro lado as empresas vivem uma situação transitória na qual estão passando de um estado de euforia, em que não era fundamental estruturar eficientes sistemas de controle e prevenção de fraudes, pois os altos lucros compensavam qualquer possível perda, para uma situação crítica de balanço e lucratividade, em que qualquer perda assume uma importância relevante e a gestão dos negócios e do caixa deve ser mais atenta. Situações de risco ou potencial fraude, que antes, freqüentemente, não recebiam grande atenção, representam hoje, possívelmente o valor que faz a diferença entre ter ou menos algum lucro.

As empresas, porém, de forma geral não estão bem estruturadas e preparadas para prevenir as fraudes de maneira sistemática. Aliás, outro fator de incentivo para um ambiente favorável as novas fraudes. Portanto, até reverter esta situação, deverão se limitar e concentrar na detecção, investigação e repressão de casos pontuais, possivelmente de maior vulto e detectados graças a denúncias, melhor fiscalização ou situações especiais.

Um bom exemplo é a recente descoberta da mega fraude de 50 bilhões de dólares que o administrador de fundos americano Bernard Madoff andou praticando ao longo de muitos anos. Não por acaso foi desmascarada justamente agora, em função da situação de crise que fez as empresas correr atrás de liquidez e fiscalizar melhor seus negócios. Antes, durante anos, ninguém precisou fiscalizar este grande e exclusivo investidor.

Acredito que seja de se esperar, nos próximos tempos, a descoberta de mais casos de grandes fraudes, velhos e novos, em empresas de todos os tamanhos e setores.

 é autor do livro Manual das Fraudes e do site Monitor das Fraudes; titular da cátedra de Detecção e Mensuração de Fraudes em Seguros da Academia Nacional de Seguros e Previdência, membro do IBGC, sócio e diretor da Deall riscos e inteligência.

Revista Consultor Jurídico, 26 de dezembro de 2008, 10h08

Comentários de leitores

6 comentários

(leia primeira parte abaixo) Quanto à administ...

Marinho (Advogado Autônomo)

(leia primeira parte abaixo) Quanto à administração pública em geral, na atual conjuntura, quando da escolha de cidadãos aos cargos executivos (Presidente do Brasil, Governadores de Estado e Prefeitos Municipais) e legislativos (Senadores, Deputados Federais, Deputados Estaduais e Vereadores), regra geral é escolher considerando o “favor”. Desta forma, a instituição pública ficou sujeita há numerosos inconvenientes, pois os projetos e leis não são mais propostos no interesse do público, mas no interesse dos próprios eleitos. E o cidadão, sem perceber, tornou-se corrupto de si mesmo, pois, atuou em seu desfavor suprindo a própria liberdade. Quando o cidadão se corrompe, se vê obrigado a decretar sua própria ruína. A mídia escrita, falada ou televisiva, não estranho, encontra-se corrupta. Necessitamos de uma imensa REVOLUÇÃO VERDE (cuidar de nossas florestas, produzir energia renovável, tratar nossos esgotos, nossas águas ...) e corremos contra. É necessário que surjam homens virtuosos e de bem para reformar as Cidades, os Estados, os Países, ou seja, o Mundo, e, também se faz necessário, que a mídia e o povo em geral aceitem as mudanças por eles anunciadas, e que as executem e divulguem, ou decretaremos nossa ruína. Lorenzo, você, como o beija-flor do Bentinho que diante do fogo na floresta enchia seu biquinho de água e voava de encontro ao fogo e derramava a água fazendo sua parte, vem nos alertando de forma esplendorosa dos percalços que estamos enfrentando e, nos ensina a combatê-los, mostrando-se um homem virtuoso e de bem. Parabéns e muito obrigado!

Querido amigo Lorenzo, salutar sua interpretaçã...

Marinho (Advogado Autônomo)

Querido amigo Lorenzo, salutar sua interpretação sobre o atual momento de crises diversas que nós, cidadãos do mundo estamos assistindo, vez incrédulos, vez indiferentes, pois, do público ao privado, imperam fraudes e corrupção. A cada segundo explode uma nova informação, as quais, na imensa maioria das vezes, ruins. Fraudes de todos os tipos e dimensões, tráfico de influências, tráfico de drogas, balas perdidas, cidadãos “sitiados” pelo crime, pais jogando filhos pela janela... . Os valores estão invertidos. Os bons costumes estão esquecidos. É fato que bons costumes só podem ser conservados através de alguns importantes fatores, entre eles: a instituição chamada família; educação no sentido de obter cultura e aprender regras; governantes dignos e com propósitos direcionados ao povo por ele governado, e, boas Leis. Nesse último ínterim, salvo alguns países, o mundo está socorrido por excelentes instrumentos jurídicos (constituições, códigos e outros), o problema é que o complexo judiciário esta falido, seu comando não está com os mais virtuosos, mas sim com os mais poderosos. (CONTINUA)

O governo George W. Bush foi, ele todo, do iníc...

Sérgio Niemeyer (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

O governo George W. Bush foi, ele todo, do início ao fim, nos dois mandatos, marcado por uma sucessão de fraudes. Poder-se-ia mesmo dizer que o governo Bush foi, no geral, uma grande fraude. Sob essa perspectiva, é compreensível, embora não justificável, que as fraudes tenham grassado pelos Estados Unidos, como que refletindo o laxismo institucional do próprio governo. O ser humano age por mimetismo. Se os líderes com máxima visibilidade adotam uma atitude de lassidão moral socorrendo-se de mentiras e ardis para justificar seus atos e políticas governamentais (v.g. a invasão do Iraque, as dúvidas sobre o 11 de setembro na esteira do documentário de Michel Moore), tudo com o apoio da maioria do povo, então, o que esperar dos que têm oportunidade e poder de decisão para embrenhar-se pela senda da fraude a fim de obter vantagens pessoais com exclusão dos demais? É simples, há uma espécie de autopoiese especular entre povo e governo. A degeneração moral do primeiro acarreta a do segundo e a deste, por sua vez, agrava ainda mais a daquele, num ciclo vicioso cujo fim só ocorre quando há um evento ruidoso de ruptura, via de regra trágico para toda a sociedade. (a) Sérgio Niemeyer Advogado – Diretor do Depto. de Prerrogativas da FADESP - Federação das Associações dos Advogados do Estado de São Paulo – Mestre em Direito pela USP – Professor de Direito – Palestrante – Parecerista – sergioniemeyer@adv.oabsp.org.br

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