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Caso Caroline

Pichadora não precisava ser presa e bienal não precisava ser pichada

Por  e 

Com o intuito de abrir perspectivas no debate, sensacionalista e passional, criado pela imprensa em relação à 28ª Bienal de São Paulo e à prisão de Caroline Pivetta da Motta, 24 anos, nós, curadores do evento, gostaríamos de trazer algumas considerações e perguntas que nos parecem pertinentes à questão.

Primeiramente, não podemos esquecer que, ao contrário da operação noturna e silenciosa peculiar aos pichadores, o acontecimento na Bienal está longe de poder ser chamado de estético e pacífico: 40 jovens invadem o pavilhão da Bienal como um arrastão, derrubando tudo, agredindo pessoas fisicamente, com o objetivo de, segundo a convocatória pela internet de seu líder Rafael Augustaitz, pichar o segundo e o terceiro andar, destruindo todas as obras.

Foi mais um gesto peculiar deste grupo destrutivo, que, desde as invasões do Centro Universitário Belas Artes e da galeria Choque Cultural, usa a pichação como meio para apagar e danificar o trabalho dos outros artistas.

Será que o meio artístico não se dá conta do autoritarismo de tal gesto, do que ele implica de censura ao outro? Não é preocupante perceber que a tática de um ex-estudante de artes é fazer do apagamento de outros artistas um fenômeno midiático? Sim, pois a imprensa e os canais de internet foram avisados três horas antes do ataque à Bienal e estavam postados esperando pelo espetáculo! Não foi, portanto, um preenchimento do vazio ou uma resposta "em vivo contato", o que da parte da curadoria nunca supôs o uso de violência.

Não se tratou tampouco de colar stickers, fazer barcos de papel, ou tocar música no segundo andar do pavilhão -como de fato ocorreu no decorrer da mostra- mas de vandalismo agressivo e autoritário.

Por outro lado, como curadores e cidadãos republicanos, estamos de acordo de que a punição para Caroline é pesada e inadequada. Lamentamos por ela e pela sua instrumentalização por certa mídia.

Mentor de invasões

Perguntamo-nos onde estaria o mentor intelectual de tal ataque, ex-aluno do Centro Universitário Belas Artes, que expõe nome e sobrenome como autor das três invasões, e que saiu do pavilhão da Bienal prometendo continuar pichando outros museus de São Paulo?

No infeliz caso de Caroline, devemos, entretanto, reconhecer que sua condição atual é resultado de mais uma filigrana jurídica, advinda de uma interpretação estrita da lei.

Mas não é essa mesma uma característica da Justiça no Brasil, a desigualdade na sua aplicação? Não são filigranas jurídicas que mantêm criminosos condenados vivendo em liberdade sem haver cumprido suas penas? Então, ao discutirmos instituição no Brasil, parece que o problema não é apenas das instituições culturais ou da Bienal de São Paulo.

Percebe-se um esvaziamento também da justiça, da educação, da saúde. Ou ainda das políticas públicas para a habitação, o que faz com que Caroline fique detida por falta de comprovante de endereço. Contraditoriamente, o Estado não lhe assegurou uma moradia até agora, conforme se depreende da lei que a mantém na cadeia! Se Caroline possuísse um comprovante de residência, ainda haveria a questão de quem a acusa do crime que ela responderia em liberdade. O parque Ibirapuera é uma área de preservação ambiental e o Pavilhão da Bienal é um prédio tombado e monumento histórico estadual. Foi contra eles que o grupo investiu e do qual ela se tornou o bode expiatório perante a lei.

Tombamento

Desde 2003, é muito difícil para qualquer curadoria lidar com as novas leis de tombamento do edifício, pois elas têm impedido a realização de diversos projetos de artistas e obrigado todas as partes a um processo de amplas e longas negociações. Há uma lei e transgredi-la implica risco. Talvez também fosse oportuna uma discussão sobre essa legislação, que acabará por fazer do pavilhão um espaço inadequado ao caráter experimental e de laboratório que supõe uma mostra que quer dar conta das práticas artísticas contemporâneas, pois ela é muito pouco flexível para novos usos do prédio.

Se o interesse da 28ª Bienal fosse ser um espetáculo midiático e criar um discurso populista apaziguador e demagógico -o que, acreditamos, seria pouco efetivo e em nada transformador da situação em que vivemos-, certamente poderíamos ter nos utilizado do ocorrido no dia 26 de outubro para deslocar todo o debate proposto pelo projeto original da 28ª Bienal, agora realizado, para discutir a relação entre grafite, pichação e arte; arte contemporânea, educação e inclusão; cultura urbana e a questão centro-periferia em São Paulo, entre outros tópicos.

Poderíamos ter convidado os invasores a virem participar do debate, a pichar as paredes da bienal, entre outras ações populistas e instrumentalizadoras. Nossa opção foi e continua sendo a de não fazer uso do ocorrido, e muito menos da injusta prisão de Caroline, para promoção pessoal ou como plataforma política, oportunista e demagógica.

Parece-nos ainda interessante observar que enquanto o meio artístico, instigado por uma falsa polêmica, procura culpar o "vazio", a Fundação Bienal ou a curadoria da 28ª Bienal de São Paulo pela prisão de Caroline, os próprios integrantes de seu grupo foram direto ao assunto. Picharam, no último dia 5 de dezembro, a casa de um ex-prefeito, acusado de inúmeros delitos e que responde aos processos em liberdade, a seguinte frase: "Cadeia é só para pobre... Liberdade Carol. Susto's".

Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo desta quinta-feira (18/12).

Ivo Mesquita foi curador da 28ª Bienal de São Paulo

Ana Paula Cohen foi curadora da 28ª Bienal de São Paulo

Revista Consultor Jurídico, 18 de dezembro de 2008, 10h57

Comentários de leitores

19 comentários

Acredito que o melhor sistema para acabar com a...

E. COELHO (Jornalista)

Acredito que o melhor sistema para acabar com as pichações foi apresentado por Singapura, no qual os dois pichadores americanos tomaram 10 chibatadas cada um. As chibatadas foram aplicados por especialistas e caso os "educandos" desmaiassem havia um médico de prontidão para reanimá-los, visto que, eles não batem em quem está desmaiado (não sei se é por respeito aos direitos humanos ou se é para sentir melhor a dor). Além da terrível dor as chibatadas deixam marcas o resto da vida! Isso sim é remédio bom! Após o pedido de clemência, devidamente negado, os americanos conseguiram a aplicação de chibatadas somente na região glútea. Tive uma idéia: Mandar essa dita cuja pivete com várias latinhas de spray para Singapura!

Meu Deus, alguém leu as declarações da mãe dela...

acdinamarco (Advogado Autônomo - Criminal)

Meu Deus, alguém leu as declarações da mãe dela ? Ela é o que chamamos de "uma mãe irresponsável" !!! acdinamarco@aasp.org.br

Olá, Quem sou eu para discutir se o HC de um ...

Antônio Carlos de Quadros (Advogado Sócio de Escritório)

Olá, Quem sou eu para discutir se o HC de um banqueiro sai rápido e o de uma pichadora demora ? Ao que me consta pichação é crime. Por acaso a ilustre "tributarista" abaixo teve seu imóvel pichado ? Sabe quanto custa repintar a fachada do escritório ? E, mais, em seguida à repintura o imóvel ser pichado de novo, uma, duas, três vezes ? Que sirva de lição a prisão dessa "baderneira". Sim, porque o ato praticado por aquele bando não passou de baderna, vandalismo puro. Prisão para eles, sem prejuízo de arcarem com os custos da repintura e de serviços sociais que tenham o condão de "quebrar" a dignidade.

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