Consultor Jurídico

Exame da OAB

Estamos formando concurseiros, e não profissionais capacitados

Por 

O Exame da OAB — como tem sido conhecido o processo seletivo de admissão de novos advogados — tem gerado muitas controvérsias no meio acadêmico. Seja devido aos seus desencontros com as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para o curso de Direito, advindos da Resolução MEC/Conselho Nacional de Educação 09/04; seja à forte presença da OAB no ensino superior desde a promulgação do Estatuto dos Advogados, Lei 8.906/94.

O Provimento 109/05 da OAB é claro quando afirma que é obrigatória, aos bacharéis de Direito, a aprovação no Exame de Ordem para admissão no quadro de advogados. Isto quer dizer que o aluno, ao concluir o curso de Direito, receberá um diploma superior indicando sua formação de bacharel. Este não permitirá, em hipótese alguma, ao seu titular o exercício da advocacia sem antes prestar com êxito o Exame de Ordem. Ressalte-se que nenhum outro curso possui essa exigência para o exercício profissional, apesar de já se cogitar a expansão desse exame de qualificação aos médicos, aos administradores e aos contabilistas.

Acontece que, do ponto de vista do MEC, a graduação em Direito deve assegurar pelas DCN, no perfil do graduando, uma “sólida formação geral, humanística e axiológica, capacidade de análise, domínio de conceitos e da terminologia jurídica, adequada argumentação, interpretação e valorização dos fenômenos jurídicos e sociais (...)”, entre outros aspectos. Destarte, que essas diretrizes devem ser observadas pelas instituições de educação superior em sua organização curricular obrigatoriamente, interligando, por exemplo, no eixo de formação profissional, a ciência do Direito com outras áreas do saber, como: Antropologia; Ciência Política; Economia; Ética; Filosofia; História; Psicologia e Sociologia.

Porém, tem-se verificado com freqüência que a exigência constante no Estatuto dos advogados — aprovação no Exame de Ordem — para o exercício da advocacia tem feito surgirem verdadeiros “especialistas em concursos de ordem”. Para confirmação dessa hipótese, basta lermos os jornais de norte a sul do país, onde centenas de cursinhos preparatórios e professores oferecem seus serviços aos bacharéis de Direito, fomentando a indústria do “Exame da OAB”.

As instituições de ensino estão sendo obrigadas a adequarem suas estruturas curriculares ao que está sendo cobrado nos Exames de Ordem. O perfil do graduando em Direito não será almejado, pois a “formação geral, humanística (...)” está sendo deformada e substituída pela colocação do candidato no exame da OAB. A estratégia neoliberal do ranqueamento das instituições e dos alunos, produzido após o somatório final das notas dos candidatos na prova objetiva e na prática-profissional, é equivocado; estamos formando “concurseiros” e não profissionais com capacidade e autonomia para pensar, para refletir, e para o exercício da Ciência do Direito, da prestação da justiça e do desenvolvimento da cidadania.

Por outro lado, não podemos esquecer que assiste razão à OAB em buscar estabelecer um padrão mínimo de qualidade para o exercício da advocacia. Mas, acreditamos que o MEC e a OAB precisam rediscutir seus papéis. Acreditamos e defendemos há anos a implantação da “Residência Jurídica”, onde a formação pretendida pelo MEC seria realizada através da graduação acadêmica e a formação profissional buscada pela OAB, seria mediante a realização de uma Residência Jurídica, nos moldes do que acontece com a medicina.

As instituições de ensino superior, que desenvolvem seus projetos pedagógicos com seriedade e zelo, aguardam ansiosas a devida adequação e harmonização dos interesses do MEC e da OAB sobre o ensino jurídico.




Topo da página

 é superintendente acadêmico da Faculdade Maurício de Nassau (Recife) e mestre em Política Educacional/UFPE.

Revista Consultor Jurídico, 29 de outubro de 2007, 18h01

Comentários de leitores

18 comentários

concordo com o autor. não é possível termos 2 t...

CV (Estudante de Direito - Civil)

concordo com o autor. não é possível termos 2 tipos de advogados. a OAB deveria ter essas idéias que sao importantes para a advocacia. alguns comentários acima foram realizados sem a leitura do artigo.. se até para a carteira de motorista é preciso reciclagem, qto. mais a advocacia... conheço advogados que se quer assitem palestras, seminários há mais de 10 anos...é preciso estudar para ser advogado, atulizãção eis a palavra mágica. será que a OAB quer saber disso.. pena que eles não acessam esses comentários.. muito bom artigo, exame da OAB para todos!!!

Que faculdade é essa? Pelo amor de Deus....

Paulo Jorge Andrade Trinchão (Advogado Autônomo)

Que faculdade é essa? Pelo amor de Deus....

A OAB já pensou em fazer uma "reciclagem" nos p...

V. Luckmann (Advogado Autônomo - Trabalhista)

A OAB já pensou em fazer uma "reciclagem" nos profissionais que já estão atuando? Olha que teríamos muitas surpresas e decepção... Pela total falta de atualização desses profissionais nas novas leis que surgiram nos últimos tempos. Vejo isso diariamente nas petições desses “advogados”.

Ver todos comentários

Comentários encerrados em 06/11/2007.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.