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Licença ao inimigo

Na democracia, a divergência não alcança as regras do jogo

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[Artigo publicado nesta segunda-feira, 15 de outubro, na Folha de S. Paulo.]

Há uma revolução em curso: a dos idiotas. Eles começam agredindo a lógica e terminam justificando o assassinato. Voltarei a esse ponto. Na semana passada, o escritor e rapper Ferréz escreveu um artigo neste espaço em que tratou do assalto de que Luciano Huck foi vítima.

Lê-se: "No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes".

Ele não pode ser mal interpretado porque não pode ser bem interpretado: fez a apologia do crime, o que é crime. Será este jornal tão pluralista que admite alguém como Ferréz? Será este jornal tão pluralista que admite alguém como eu? Lustramos ambos o ambiente de tolerância desta Folha? A resposta é "não".

O artigo do tal é irrespondível. Vou eu lhe dizer que o crime não compensa? Ele tem motivos para acreditar que sim. Lênin mandaria que lhe passassem fogo — não sem antes lhe expropriar o relógio. Apenas sugiro ao jornal que corrija seu pé biográfico: ele é um empresário; o bairro do Capão Redondo é seu produto, e a voz dos marginalizados, o fetiche de sua mercadoria. Ir além na contestação de seu libelo criminoso seria reconhecê-lo como voz aceitável na pluralidade do jornal. Eu não reconheço.

Na democracia, o direito à divergência não alcança as regras do jogo. Um democrata não deve, em nome de seus princípios, conceder a seus inimigos licenças que estes, em nome dos deles, a ele não concederiam se chegassem ao poder. Ao publicar aquele artigo, a Folha aceita que potencialmente se solapem as bases de sua própria legitimidade. Errou feio.

O poeta Bruno Tolentino é autor de um verso e tanto: "A arte não tem escrúpulos, tem apenas medida". O mesmo vale para a ação política. Idealmente, há quem ache que o mundo seria melhor sem propriedade privada — eu acredito que, sem ela, estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos.

Posso acalentar quantos sonhos quiser, sem escrúpulos. Mas o regime democrático tem medidas. Uma delas é o respeito às leis — inclusive às leis que regulam a mudança das leis. Se admitimos a voz do assalto, por que não a da pedofilia, a do terrorismo, a da luta armada, a do racismo? Aceito boas respostas.

O empresário Ferréz, ao lado de Mano Brown, é um bibelô mimado pelas esquerdas e pelo pensamento politicamente correto, para quem o crime é uma precognição política a caminho de uma revelação.

Tal suposição, somada à patrulha que tentou transformar Luciano Huck no verdadeiro culpado pelo assalto, contribuiu para esconder um fato relevante. A cidade de São Paulo teve 49,3 homicídios por 100 mil habitantes em 2001. Em 2006, 18,39 (uma redução de 62,69%). Em 2001, havia presas no Estado 67.649 pessoas; em 2006, 125.783 (crescimento de 85,93%). Não é espantoso? Quanto mais bandidos presos, menos crimes. Quanto mais eficiente é a polícia, menos mortos.

Eis que, no dia 11, abro esta mesma página e dou de cara com um artigo de Sérgio Salomão Shecaira. Escreve: "(...) O Estado de São Paulo concentra quase a metade dos cerca de 419 mil presos brasileiros (...). Enquanto, no Brasil, existem 227,63 presos por 100 mil habitantes, em São Paulo essa relação salta para 341,98 por 100 mil habitantes". Ele está descontente.

Quer prender menos: "Enquanto, no Estado de São Paulo, em 2005, houve 18,9 homicídios por 100 mil habitantes, no Rio de Janeiro a cifra foi de 40,5, e, em Pernambuco, de 48. No entanto, nesses dois últimos Estados, o número relativo de presos é bem menor que o paulista".

Shecaira é mestre e doutor em direito penal e professor associado da Faculdade de Direito da USP. Mas ainda não descobriu a lógica, coitado.

Ora, por que será que São Paulo tem, por 100 mil, menos da metade dos homicídios que tem o Rio e quase um terço do que tem Pernambuco? Porque há mais bandidos na cadeia.

Mas ele quer menos. Logo....Em vez de Ferréz se alfabetizar politicamente no contato com Shecaira, é Shecaira quem se analfabetiza no contato com Ferréz.

A tragédia não é recente. Aconteceu com a universidade: em vez de ela fornecer teoria aos sindicatos, foram os sindicatos que lhe forneceram táticas de greve. Em vez de Marilena Chaui ensinar ao companheiro as virtudes do pensamento, foi o companheiro que explicou a Marilena por que pensar é uma bobagem.

A minha pluralidade não alcança tolerar idiotas que querem destruir o sistema de valores que garantem a minha existência. E, curiosamente, até a deles.




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Reinaldo Azevedo é jornalista e articulista da revista Veja.

Revista Consultor Jurídico, 15 de outubro de 2007, 18h06

Comentários de leitores

13 comentários

Oi Richard, mas é o "rapper" mesmo que eu estou...

Wilson Arruda (Advogado Assalariado - Administrativa)

Oi Richard, mas é o "rapper" mesmo que eu estou chamando de idiota. Não estou criticando o autor do texto, do qual até que gostei.

Aproveito a "polêmica" (tudo é polêmico, ho...

Richard Smith (Consultor)

Aproveito a "polêmica" (tudo é polêmico, hoje em dia, termo para o acovardamento, para a dispensa de se ter opiniões) para reproduzir abaixo o posto do "blog" do mesmo REINALDO AZEVEDO acerca do assunto e do "ombudsman" da Folha: "Ombudsman da Folha: o holocausto da lógica No domingo, Mário Magalhães, ombudsman da Folha, escreveu sobre o artigo do tal Ferréz: “Creio que a Folha, abrigando a divergência, comprovou as virtudes do pluralismo. Oponho-me à publicação irrestrita de artigos. Por exemplo, o jornal deve vetar autor duvidando do Holocausto. Mas Ferréz não louvou o roubo. Elaborou ficção. Ele e Huck enriqueceram a reflexão sobre violência, concorde-se ou não com suas idéias claras ou subjacentes.” Onde Magalhães aprendeu lógica? Se há uma “divergência”, abrigada em nome do pluralismo, em que Ferréz “diverge” de Huck? Ficção? Que ficção? O autor só procurou se livrar de um eventual processo. Nada além. Mais: tentou estabelecer uma oposição cínica ao texto do assaltado. Teríamos um mesmo fato relatado por dois olhares, é isso? Ocorre que Huck era, de fato, uma vítima. E Ferréz foi apenas o propagandista do assaltante. Ou seu procurador. Mais: se aquilo era, então, um exercício de pontos de vista, Magalhães está dizendo que ambos são donos de igual legitimidade, certo? E o conjunto lustraria a pluralidade. Pois é. Entreguei meu artigo à Folha na sexta-feira à tarde. Não creio que o ombudsman o tenha lido previamente. Embora o meu texto seja posterior à publicação de sua avaliação, foi feito antes e, como vêem, é premonitório. Eu não me interesso pelo gosto pessoal de Mário Magalhães. Como leitor da Folha, interesso-me pelos princípios que norteiam seus juízos e avaliações. Qual é, então, o princípio que o leva a defender o veto a textos que neguem o Holocausto? É só uma questão de justiça histórica, ou há o receio de que o artigo possa servir de peça de propaganda do anti-semitismo, da violência e do racismo? Mais ainda: a negação do Holocausto, se vazada em linguagem de ficção, a exemplo do que fez Ferréz, pode ou não pode? Ainda não acabei: se Ferréz “não louvou o roubo”, fez o quê? A propósito: qual seria a “idéia subjacente” do artigo? No meu texto, chamo o tal Ferréz (e também Mano Brown) de “bibelô das esquerdas e do pensamento politicamente correto”. A comprovação está aí. Magalhães pertence, é claro, à boa estirpe dos homens progressistas, entendem? E não será ele a criticar o burguês do Capão Redondo. Se preciso, ele nega, como vemos, o que está escrito. O texto de Ferréz louva o roubo, sim. Mais do que isso: considera justa a troca do relógio pela vida. Magalhães é esquerdista ou politicamente correto? Os dois. Mas isso não é problema meu. O que é inaceitável é que tente negar o sentido óbvio do texto de Ferréz para sustentar a sua tese. E por que o faz? De outro modo, teria de justificar a publicação, no jornal, de um artigo que exalta o roubo (com ameaça de morte) como instrumento de justiça social. E como isso, por enquanto ao menos, é ilegal e se chama “apologia do crime”, Magalhães dá um jeito de dizer que o que está lá não está lá para justificar o que está lá. Entendam a natureza do jogo: o artigo de Ferréz só tem algum interesse para esquerdistas e politicamente corretos por causa daquilo que diz. Mas, ao mesmo tempo, é preciso negar o dito para que se possa continuar a dizê-lo.

Agora, com relação à IDIOTIZAÇÃO, os que acom...

Richard Smith (Consultor)

Agora, com relação à IDIOTIZAÇÃO, os que acompanham as lúcidas opiniões do jornalista, no seu "blog" (http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo) está bem mais acostumado com as abordagens empregadas na desmistificação de um pensamento "esquerdiota, esquerdopata e esquerdocínico" (nas suas palavras) que vem, de há muito, violentando da pior forma possível, a lógica, o bom-senso e a ética. As peripécias dos canalhas que compõem o partido ora no poder e o (des)governo "que aí está", bem o vem demonstrando, nos últimos cinco anos. A sua lógica é irretorquível e desnudam o quando viemos avançando neste sentido, nos últimos 25 anos ou mais. Instalou-se uma tal relativização de valores que tenho obsevado, em muitos e muitos jovens (nosso principal tesouro) uma apatia e uma consternação absolutamente inéditas e sumamente perniciosas. E não somente entre eles, mas na grande parte da população também. Tal fato pode bem ser observado em certos tipos de "opinião" que são comumente lançados neste democrático espaço e acerca de assuntos da maior importância e que não comportariam tergiversações bizarras até alguns anos atrás. É neste sentido, creio, que devem ser apreciadas as palavras do autor.

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