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Tropa de Elite

Sociedade não deve proteger valores recorrendo a anti-valores

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[Artigo publicado originalmente no portal do jornal O Globo, de quarta-feira, 14 de novembro]

O país viveu, no último mês, duas polêmicas em especial: o roubo do Rolex do apresentador e empresário Luciano Huck e o lançamento do filme Tropa de Elite. No artigo publicado por Huck, em determinado momento, como sugestão para combater a violência nas grandes cidades, o apresentador propõe chamar o "capitão Nascimento" — um dos personagens centrais do filme de José Padilha.

Não vai bem uma sociedade que busca proteger seus valores recorrendo a anti-valores. Isso funciona como combater uma enfermidade com outra. Exagerada a dose, mata-se o paciente para curar uma gripe.

É de se questionar: vale aplaudir calorosamente o comportamento de uma tropa manifestamente criminosa, que de elite não tem nada? O filme, na verdade, é uma apologia à violência, à tortura, à falta de investigação policial. O "capitão Nascimento" e seus colegas de profissão deveriam estar presos e não sendo elogiados por sua conduta.

Pobre do país que tem uma polícia como a do filme e que acha que com "capitães Nascimentos" os índices de violência e criminalidade vão diminuir. O "capitão Nascimento", na verdade, é um criminoso fardado, o que é bem pior que o criminoso comum — que não representa o Poder Público. Antes o bandido original, que pratica seus crimes sem uniforme do Estado para disfarçar sua conduta criminosa.

O cineasta José Padilha afirma que o filme não prega a violência, mas o que se vê na tela é outra coisa: um pseudo-herói buscando informações por meio da tortura. Um crime para tentar punir outro crime. Numa sociedade tão carente de referências positivas, o grande público parece se satisfazer com o que aparece.

O capitão que se apresenta como exemplo do grupo, com uma imagem de incorruptível, mostra determinação nas suas atitudes, perspicácia e pensamentos éticos, mas nada que possa ofuscar sua fria e realista motivação criminosa de matar e barbarizar seus inimigos. Será que os mocinhos dos nossos dias são lobos com pele de cordeiro? Talvez, em razão dessa falta de referências, onde se paga o mal com o mal, nossa sociedade consiga olhar generosamente para um capitão de atitudes tão antagônicas. No filme, o "homem bom" que é capaz de dar um óculos para um menino da favela que mal enxerga é o mesmo que, por mera vingança, mata um bandido desarmado.

Com o sucesso do filme, proliferam comentários do tipo: "bem, mas qual o problema de fazer o bandido sofrer? Polícia boa é essa que bate nos marginais". Será que realmente precisamos de um "capitão Nascimento" patrulhando nossas ruas, como sugere o apresentador global? Será que estamos regredindo tanto que agora até admitimos a tortura e a ilicitude como instrumentos para estabelecer a "ordem"?

Veja a situação de um sujeito que nasceu e cresceu em um ambiente de absoluta miséria, desprovido de qualquer atenção do Estado, sem Educação e Saúde de qualidade, sem direito de progredir. O que oferecemos a esse sujeito já massacrado pela vida? O porrete? O fim do último de seus direitos básicos: o de se defender?

É claro que bandido deve ser punido. Mas para isso há o rigor da lei. Ao invés de aplaudir atitudes como a do "capitão Nascimento", deveríamos repudiar ações desse tipo. O espetáculo muitas vezes disfarça crimes piores. A punição pura e simples sem que esteja assegurado o direito de defesa não torna nossa sociedade menos corrupta. No máximo nos transforma em bárbaros, que retornam ao velho estágio do "olho por olho, dente por dente".

 é advogado criminalista, membro do Instituto dos Advogados de São Paulo e da Comissão Teotônio Vilela de direitos Humanos.

Revista Consultor Jurídico, 16 de novembro de 2007, 16h16

Comentários de leitores

9 comentários

Definitivamente não sei o que as pessoas quere....

Larissinha (Estudante de Direito - Criminal)

Definitivamente não sei o que as pessoas quere. Ou continuar em um País que não se pode sair de casa por causa dos marginais ou viver em um Brasil (literalmente) livre. Alguns podem até achar meu pensamento antisocial, mas se pararem para pensar, chegaremos a mesma conclusão. Os bandidos fazem o que bem quiser com a sociedade, matam pais de famílias, assassinam crianças, estupram mulheres, corrompem nossos jovens. Enfim, fazem tudo o que não prestam e a sociedade ainda tem esse pensamento de que a polícia tem que ser bonzinho, passar a mão na cabeça deles e ponto. Se esses bandidos são corajos os suficiente para fazer isso com a sociedade (deixa-la em pânico), porque a sociedade não pode fazer o mesmo ou pior? O problema é que só quem passa, sabe a dor que é perder um pai, morto por um bandido. Perder um filhos para as droga. Ainda chega um e diz: mas, se não tivesse comprador, não teria drogas. Mas você ja imaginou ao contrário? Se não tivesse drogas não teria comprador. Logo´´ara mim, é de suma importância qua a polícia continue agindo desse jeito, porque só assim, os bandidos podem ficar amendrontados e parar com toda essa sujeira em envolve os Brasil. Até porque é desse jeito que a sociedade pode sentir-se segura, sabendo que tem alguém que penaliza por ela. Não crítico esse tipo de policial que faz bandido sofrer. Apenas não tolero quando alguns policiais invertem os papeis e transforman-se em bandidos.

O autor também acha "bandido deve ser punido" e...

Paulo Godoi  (Jornalista)

O autor também acha "bandido deve ser punido" e que "para isso há o rigor da lei". Sim, tudo bem, mas onde é que está o tal rigor da lei ? Alguém já o viu por aí ?

Glória a Deus por você Luiz Pereira Carlos!, Po...

marcia helena (Outros)

Glória a Deus por você Luiz Pereira Carlos!, Pois faço minhas as sua palavras! Eu sei o que é sentir na pele a corrupção existente no Poder Judiciário Fluminense! O que tu esvescreu dá-nos esperança de que exixistem pessoas que percebem isso! Sim, Sr. Advogado Vitor M. merece atenção sim! Pois tudo que remete ao debate e a reflexão de uma Verdade e Realidade É valida. Tire a venda dos olhos Dr. Vitor M.! A Justiça Não poder Mais ser CEGA! Marcia Helena - Bacharel em Direito

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