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Um passo a frente

Investigação da PF não se baseia em grampos apenas

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O envolvimento do desembargador federal José Ricardo Siqueira Regueira, por exemplo, não surgiu da escuta telefônica, já que ele utiliza até aparelhagem anti-grampo, como ficou constatado. Ele entrou no caso quando os agentes federais foram acompanhar uma reunião de advogados da Associação de Bingos no complexo hoteleiro Tio Sam, no bairro de Camboinhas, em Niterói, de propriedade do bicheiro Turcão. Os policiais anotaram as placas dos carros, descobrindo a Mercedes Benz do desembargador.

Num outro caso, um rastreador colocado em um dos carros da Polícia utilizado pelo delegado federal de Niterói, Carlos Pereira, permitiu aos investigadores acompanhar seus deslocamentos, em especial no dia em que saiu de Niterói e foi ao bairro do Recreio dos Bandeirantes para encontrar-se com o delegado aposentado Luiz Paulo Dias de Matos. Este, pela denúncia, era responsável pelo pagamento de propina a seus colegas da Federal e naquele dia teria recebido pacotes do policial civil Marcos Bretas, outro que foi denunciado, preso e é apontado como o pagador das propinas policiais. O encontro de Bretas e Matos também foi devidamente monitorado.

Houve também acompanhamento de perto de outros suspeitos. Muitos encontros em restaurantes foram fotografados por agentes federais disfarçados. O deslocamento dos envolvidos para Brasília, por exemplo, permitiu descobrir as ligações de alguns deles com suspeitos em outros casos, como um lobista do Congresso Nacional, fotografado recebendo dinheiro no aeroporto de Brasília.

As buscas e apreensões feitas no dia 13 de abril em 68 locais mostraram que a Polícia sabia bem o que estava buscando e que havia suspeitos que ainda não tinham sido denunciados. Na casa de Luciano Andrade do Nascimento, o Bola — que só foi denunciado esta semana, na segunda fase da operação — foram localizados documentos que provam não apenas a existência da quadrilha como a infiltração dela nos poderes públicos.

Achou-se, por exemplo, papel assinado por Kalil, com firma reconhecida, declarando que em caso de morte ou invalidez “os meus negócios de jogo em geral (numéricos e eletrônicos) passarão a ser administrados por meu filho, Marcelo Kalil Petrus" — denunciado que se encontra foragido — "a quem caberá decidir sobre os negócios”. Ou seja, um testamento dirigido à cúpula da máfia do jogo, o que provou que Bola guardava documentos dos chefões da máfia.

Na mesma casa estavam folhas de caderno com anotações das “despesas pagas com as receitas de jogo e máquinas e os gastos fixos que são destinados a Polícia Civil (R$ 848.600,00) Polícia Militar (R$ 51.500,00), Polícia Federal (R$ 240.000,00) Políticos (R$ 23.000,00), Escritório (R$ 45.000,00), Folha de Pagamento de Funcionários (R$ 61.300,00)”, como consta dos relatórios policiais.

Como destacou a juíza Ana Paula, o trabalho dos investigadores em cima do material apreendido — que embasou a segunda denúncia, apresentada esta semana — permitiu identificar “através do cruzamento de dados obtidos em apreensões distintas e áudios interceptados, a codificação utilizada na contabilidade desses pagamentos, constatando-se que os algarismos 1,2,3,4,5,6,7,8,9,0 correspondiam a letras na seqüência da palavra “MOSQUEIRAL”, descobrindo por conseqüência os valores pagos pela quadrilha. Com esse dado é possível comprovar que diversos agentes públicos (federais e estaduais) recebem rotineiramente quantias que variam de 2 mil até 30 mil individuais”.

O que se depreende da leitura dos autos da Operação Hurricane é que ele se transformou num exemplo claro de investigação que permitirá à Justiça apreciar as denúncias, com respaldo de um conjunto robusto de provas, diferentemente do que ocorre em muitas investigações policiais arquivadas por terem sido mal feitas.

A Polícia certamente cometeu erros. Esta semana mesmo, qualificou como policial o filho do ex-apresentador de TV Abelardo Barbosa, o Chacrinha. José Renato Barbosa jamais foi policial. Também houve certa demora em recolher os aparelhos de escuta instalados no gabinete de trabalho do desembargador Carreira Alvim, que podem ter sido usados para escutas ilegais feitas sem o conhecimento da Polícia.

Mas, independentemente destas falhas, o resultado apresentado é surpreendente. Como já admitiu, em absoluto sigilo, o advogado de um dos réus do caso, “foi um trabalho de Polícia do primeiro mundo, comparável com o que se conhece do FBI”.

E o caso não deve parar por aí. O procurador da República Orlando Monteiro da Cunha já garantiu que as investigações produziram muitas informações ainda não trabalhadas. “Cada situação tem que ser analisada no momento adequado. Há toda uma situação de lavagem de dinheiro que não foi aprofundada porque o momento ainda não é oportuno. Temos um processo com 24 pessoas presas, com prazos para obedecer. Obviamente que todos os fatos que foram colacionados pela Polícia serão investigados pelo Ministério Público no seu momento oportuno”.

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 é repórter da sucursal do Rio de Janeiro de O Estado de S.Paulo.

Revista Consultor Jurídico, 22 de junho de 2007, 14h03

Comentários de leitores

24 comentários

Isso, cuidado criminosos, finalmente o estado b...

Carlos o Chacal (Outros)

Isso, cuidado criminosos, finalmente o estado brasileiro está começando a combater o crime, inclusive o crime sofisticado, de maneira eficaz. Melhor desistir da carreira criminosa. Cuidado!

Cuidado com este estado policialesco, amanhã po...

Rosângela (Bacharel)

Cuidado com este estado policialesco, amanhã pode ser qualquer um de nós!

"Com autorização do ministro Peluso, policiais ...

Rafael (Advogado Sócio de Escritório)

"Com autorização do ministro Peluso, policiais visitaram o escritório comercial de Virgilio Medina, irmão do ministro Medina, NUMA NOITE. Sem deixar vestígio, fizeram uma vistoria (...)." Hum...salvo engano, a Constituição dispõe no art. 5o, XI, que "a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, DURANTE O DIA, POR DETERMINAÇÃO JUDICIAL". Talvez no direito norte-americano essa "diligência" seja possível. Difícil é compatibilizá-la com o nosso direito.

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