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Sob nova direção

Veja discurso de posse de Cezar Britto na presidência da OAB

Presidente honorário vitalício Roberto Busato,

Tenho plena consciência de que não é tarefa fácil presidir a Casa da Cidadania, ainda mais depois da peregrinação de Vossa Excelência pelo Brasil continental. Percebi, tão-logo anunciada a possibilidade de uma candidatura única, o peso de representar uma entidade cuja História se confunde com a História do Brasil. Uma História construída com destemor, sangue derramado, rebeldia, indignação, resistência, inovação, solidariedade, firmeza e esperança.

Destemor, quando enfrentou os períodos de arbítrio, exigiu o fim das torturas, a volta do habeas corpus, o estabelecimento da anistia, eleições diretas e a convocação da Assembléia Nacional Constituinte.

Sangue derramado, a exemplo de Lyda Monteiro, finalmente reconhecida como vítima da cruel Ditadura Militar que desonrou o Brasil.

Rebeldia, quando saiu à ruas, junto com os jovens caras-pintadas, exigindo o impeachment que corretamente afastou o ex-Presidente Fernando Collor de Mello.

Indignação, quando denunciou o desmonte do Estado brasileiro, através de um processo de privatização cercado de segredos e CPI’s arquivadas.

Resistência, quando condenou toda e qualquer forma de concentração de poder, a exemplo das medidas provisórias, que tanto encantam o Poder Executivo; o poder de arquivar CPIs dos presidentes do Poder Legislativo, que tanto desencantam a sociedade; e as súmulas vinculantes que fossilizam o Judiciário.

Inovação, quando lutou para criar o Conselho Nacional de Justiça, combater o nepotismo e a sua absurda idéia de que somente os nascidos em berço juridicamente esplêndido podem ocupar cargos públicos – idéia que, diga-se de passagem, ainda persiste nos Poderes Executivo e Legislativo.

Solidariedade, quando acredita que somente respeitando os direitos humanos é possível fazer nascer um novo mundo, mais fraterno, justo e igual.

Firmeza, quando apoiou as investigações contra aqueles que trocaram a política pela politicagem e fizeram incluir no vocabulário do brasileiro palavras como mensaleiro, sanguessuga e valerioduto, todas, significando o que Chico Buarque traduziu por “subtrair a pátria-mãe em tenebrosas transações”.

E, finalmente, esperança, quando ainda acredita que é possível avançar, mudar e crescer sem perder o rumo da ética. A esperança de quem contribuiu e continuará contribuindo para fazer do Brasil um país melhor.

A esperança de quem efetivamente espera, em estado de alerta, a aprovação de uma profunda Reforma Política, o divisor de águas a pautar os próximos anos da Republica, deixando no passado a Política de Cooptação que tanto mal fez ao país.

Meus Conselheiros, MHV e dirigentes da OAB,

É evidente que o iniciar de mais uma jornada desperta dúvidas, curiosidade e expectativas sobre os caminhos a serem percorridos. Perguntas surgem, respostas são cobradas. Qual a OAB que se desenhará nos próximos três anos? O que ela quer dos futuros dirigentes? Quais desafios ela colocará à disposição do advogado que conduzirá o bastão agora transmitido?

Não sei o que se nos reserva para o futuro. Não sei o que será do mundo no próximo triênio. Ainda que queira, não tenho o dom da profecia. Não posso antecipar o amanhã.

Cabe-me, tão-somente, como cidadão-advogado, trazer para a OAB as coisas que aprendi, assim como cada um de nós certamente fará durante o caminhar da gestão.

Cabe-me, também, tornar real a proposta que enviei durante a fase inicial da campanha. Cabe-me, ainda, nesta noite, registrar um pouco do que a vida me ensinou, para que se compreenda o que, conjuntamente, poderemos ensinar e fazer para transformar o Brasil num país mais ético, justo e democrático.

Aviso-lhes, então, que trago no meu bornal a experiência de quem conviveu, advogou e defendeu aqueles que “não tinham, mas tinham que ter para dar”, no meu português djavaniano.

Carrego na minha bagagem lições não ensinadas nos bancos acadêmicos, a exemplo das histórias dos que são proibidos de entrar nas construções por eles próprios edificadas; dos que moram em casas engraçadas, sem teto, sem nada; dos que passam fome trabalhando em grandes plantações; dos que ainda morrem de “morte severina” e dos que “não querem só comida”, assistencialismo e “pela metade”.

Porto na minha valise, não arma de fogo, mas o desejo obstinado de fazer da Justiça uma palavra conhecida e pronunciada por todos os cidadãos brasileiros, independentemente de cor, raça, gênero, trabalho, berço ou local do nascimento.

Mas “por ser de lá, do Sertão lá do Cerrado, lá do interior do mato, da caatinga do roçado”, trago no meu “matulão” uma história que devemos fazer passado e que tem como enredo, seguindo narração de Dominguinhos e Gilberto Gil, um personagem que “quase não sai, quase não tem amigos, quase não consegue ficar na cidade sem viver contrariado (...), rês desgarrada nessa multidão boiada caminhando a esmo”.

Revista Consultor Jurídico, 1 de fevereiro de 2007, 21h31

Comentários de leitores

1 comentário

Só pela lembrança da vítima da ditadura, Lyda M...

Armando do Prado (Professor)

Só pela lembrança da vítima da ditadura, Lyda Monteiro, valeu a posse e a mudança, para não falarmos da qualidade de todo o discurso do novo presidente. Novos tempos, novos ventos.

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