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Opinião e fato

Amorim acha que devia, mas Mainardi não vai para a cadeia

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“Perdi! Não vou conseguir metê-lo na cadeia!” A frase foi dita pelo jornalista Paulo Henrique Amorim ao sair da sala de audiências da 1ª Vara Criminal do Fórum de Pinheiros, em São Paulo. Amorim, blogueiro do portal iG e animador de programas da TV Record, queria colocar na cadeia o colunista Diogo Mainardi, da revista Veja, porque este escreveu que ele, na fase descendente de sua carreira, foi contratado pelo portal iG por R$ 80 mil e se engajou pessoalmente “na batalha comercial do lulismo contra Daniel Dantas”.

Paulo Henrique Amorim e Diogo Mainardi compareceram nesta segunda-feira (17/12) ao Fórum de Pinheiros na primeira audiência do processo criminal que o primeiro move contra o segundo por injúria e difamação. A avaliação de Amorim sobre o possível desfecho da causa é calcada em seu próprio comportamento em Juízo. Na audiência, comandada pela juíza Aparecida Angélica Correia Nagao, Amorim rejeitou qualquer tentativa de acordo e se alterou em diversas ocasiões nos cerca de 30 minutos em que a juíza tentou, em vão, compor as partes.

No tribunal, os dois jornalistas interpretaram papéis trocados. Amorim tentou demonstrar que já não tem a credibilidade que teve um dia e que a culpa disso é de Mainardi, a seu ver, um dos jornalistas mais influentes do país. O colunista de Veja, por sua vez, tentou evidenciar que o prestígio do colega é o mesmo de sempre e que se projeta pelo seu salário: Amorim disse que ganha cinco vezes mais que o colega “em apenas uma das atividades”.

“A senhora confiaria em um jornalista que escreve a soldo? Em um jornalista filiado a um partido político? Ele escreveu que eu trabalho a soldo, por interesses comerciais”, repetia Paulo Henrique Amorim, demonstrando inconformismo com o texto de Mainardi. O jornalista insistiu na tese de que perdeu credibilidade em razão da coluna publicada em setembro de 2006 na Veja. “A senhora não deve acreditar no que eu escrevo porque eu sou um jornalista sem credibilidade. Não sei por que a senhora me ouve”, disse à juíza.

Separados por uma cadeira na qual estava sentada a advogada Maria Cecília Lima Pizzo, Amorim e Mainardi trocaram acusações, ofensas e filosofaram sobre o que é fato e o que é opinião. Como se estivessem em um talk-show, discorreram sobre as intenções de quem escreve uma notícia com o intuito de ofender pessoas ou simplesmente de narrar fatos — foi a batalha do animus injuriandi versus o animus narrandi. A discussão entre os dois, tendo como moderadora a juíza, durou quase meia hora, praticamente toda a primeira parte da audiência.

“Eu não o processo quando você me chama de caluniador e fascista em seu blog”, disse Mainardi a Amorim. “Ou a minha credibilidade não é atingida quando você escreve que eu sou fascista?”, questionou. “Mas isso é opinião, não matéria de fato”, respondeu Amorim. “Então, o que você diz é opinião e o que eu digo é fato? Ok, assino embaixo”, ironizou Mainardi.

A juíza perguntava a Amorim: “O senhor acredita que um artigo pode abalar sua credibilidade? Que o texto mudou a opinião que o público do senhor tem a seu respeito?”. Apaziguadora, a juíza indicava uma possível saída conciliatória. Sem sucesso.

“Este rapaz é best-seller. Quanto vendeu até agora seu livro?”, perguntou Amorim. “55 mil exemplares”, respondeu Mainardi. “Qual é a tiragem de Veja?”, insistia Amorim. “Mais de 1 milhão de exemplares”, respondeu Mainardi.

Para Amorim, o fato de a Veja imprimir 1 milhão de revistas, de o livro do colunista, Lula é Minha Anta, já ter vendido 55 mil exemplares e de o programa Manhatan Connection, no qual Mainardi é um dos debatedores, ter audiência “qualificada” demonstram o alcance do suposto ataque à sua honra. “Ele tem influência e disse a todos que eu escrevo a soldo”, afirmou. Para se vitimizar, Amorim fez a única coisa que não gostaria de fazer: reconheceu o sucesso do inimigo.

Mainardi também resolveu falar de soldo: “E ainda assim você ganha cinco vezes mais do que eu”. Amorim respondeu: “Mas aí é problema de incompetência”. O advogado Alexandre Fidalgo, um dos que representam o colunista de Veja, perguntou: “Acusação de incompetência é fato ou opinião?”. E a juíza, novamente, entrou para esfriar os ânimos.

Em diversos momentos da audiência, Paulo Henrique Amorim leu, para que todos ouvissem, trechos do artigo de Mainardi. Em uma dessas leituras, protestou: “Ele disse que eu sou amigo de Luiz Gushiken”. Mainardi retrucou: “Mas ser amigo do Gushiken é ofensa?”. Amorim respondeu: “A questão é que eu não sou amigo do Gushiken e no contexto em que está escrito é, sim, ofensivo”.

Depois da tentativa de conciliação, Amorim deixou a audiência porque iria viajar para os Estados Unidos, um país, segundo ele, “onde quem escreve isso vai para a cadeia”. Pediu desculpas à juíza pela atitude nervosa e as elevações de voz, e justificou: “Reagi dessa maneira porque nunca antes fui ofendido dessa maneira”. Mainardi foi gentil: “Obrigado, pelo espetáculo”.

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 é chefe de redação da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 18 de dezembro de 2007, 13h47

Comentários de leitores

67 comentários

Caro dinarte, acho que o Sr. está confundido...

Tálio (Advogado Autônomo)

Caro dinarte, acho que o Sr. está confundido democracia com outra coisa qualquer. O Lula foi eleito democraticamente? Sim. Governos eleitos democraticamente não devem sofrer críticas, críticas ácidas? CLARO QUE SIM. O Collor foi eleito democraticamente? E o Sr. apoiou o linchamento nacional dele? As críticas da imprensa visaram ao fim da democracia? As críticas da impresa perderam valor ante o FATO dele não ter uma condenação? O Dr. Maluf foi eleito democraticamente? E o que o Sr. acha das reportagens sobre ele e a família dele? Existe pelo menos uma dúzia de Governadores e ex-Governadores eleitos tão democraticamente quando o Lula que foram destroçados pela imprensa, nessas ocasiões o Sr. entendeu como um ataque à democracia? Igualar o ataque à administração petista(como enormes escândalos de corrupação e baixarias tais como compra de dossiês e mesmo produção de dossiês) como um ataque a própria DEMOCRACIA é parcialidade demais. E apenas para registrar que aventar a possibilidade dos Juízes de 1ª instância estarem coagidos, intimidados pela Globo é teoria da conspiração anos 80, até o PT já mudou esse discurso.

o Conjur tem demonstrado claramente uma parcial...

dinarte bonetti (Bacharel - Tributária)

o Conjur tem demonstrado claramente uma parcial simpatia pela Globo, e por uma grande antipatia pelo pres. Lula. Tem toda a coerencia com a posicao do Estadao, em seus editoriais, e sua equipe jornalistica, sempre afinadas com a marca Estadao, radicalmente anti Lula. O sr. Mainardi, que tem como patrao a Veja, revista nitidamente anti-governo Lula, tem seguido sistematicamente a opcao de ataques pesados contra um governo eleito democraticamente. A impressao que fica é que governo eleito pela massa menos favorecida, é governo ilegitimo, nao representativo da "elite pensante" nacional. O jornalismo praticado pela Veja e seu empregado Mainardi, que tambem antende no Manhatan Connection, da Globo, nao significa nenhuma unanimidade jornalistica, pois seus patroes sao coerentes no vies politico adotado. Mainardi destroça pessoas, faz julgamentos definitivos, sem nenhum respeito ético. O fato de O judiciario brasileiro dar sistematicamente ganho de causa ao sr. Mainardi, nos dá a impressao de que o poder da Globo e da Veja, se impoem ao de uma justica, receosa do poder da midia. Um Juiz que considerou que o "estilo" do sr. Mainardi é esse mesmo, criou uma figura impar no país: aquele que pode dizer o que bem entende, por ser esse seu "estilo". Se o governo decidir criar outros Mainardi, a seu favor, como impedir? Esquece o ilustre Magistrado, em sua divertida sentença, que o feitiço pode virar contra o feiticeiro! A juiza ao atender o pedido do SR. Amorim, de segredo de justiça, talvez tenha entendido que as deformacoes de nossa midia, atualmente, tem que ser contidas. Pois assistimos a um circo, muito engracado, mas tragico, aonde o poder economico tem pesado demais. Afinal, o Estadao. a Globo e a Veja, lutam ou nao por democracia?

Petralhas, petistas, lulistas, peseudorevolucio...

Nicoboco (Advogado Autônomo)

Petralhas, petistas, lulistas, peseudorevolucionários, comunistas, etc. geralmente atacam a elite burguesa, Veja, Mainardi e a "oposição". Pra eles, quem ataca o governo é porque é a favor da oposição "que governou o país por 500 anos" e o deixou atrasado. Como se fosse um jogo de tudo ou não. De amigo ou inimigo. Se critico o Lula, é porque sou tucano. Se falo mal do governo, é porque sou a favor da burguesia. Como se não houvesse nada melhor que o Lula, PSDB e PFL. Com certeza há. Mas, como dizem, é tudo culpa da mídia capitalista, dos americanos, das elites burguesas, da classe média e do FMI. Melhor assim, nossa culturazinha de país subdesenvolvido está a salva.

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