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Salto social

Ex-motorista do Tribunal de Justiça paulista toma posse como juiz

Aos 33 anos, o sergipano Reinaldo Moura de Souza tornou-se juiz de Direito em São Paulo. A sua relação com o Judiciário começou quando passou no concurso para ser motorista do Tribunal de Justiça, cargo que ocupou durante seis anos e meio. A trajetória de Moura de Souza foi descoberta e publicada pelo repórter Bruno Tavares, do jornal O Estado de S. Paulo, em reportagem desta segunda-feira (3/12).

Leia a reportagem

Reinaldo Moura de Souza não veio de família abastada, nunca estudou em universidade ou colégio caro nem se matriculou naqueles famosos cursinhos preparatórios para concurso na carreira jurídica. Ex-motorista do Tribunal de Justiça de São Paulo — cargo que ocupou por seis anos e meio —, ele trilhou um caminho incomum até o cargo de juiz de Direito da maior e mais importante corte estadual do país. "É exemplo de alguém que venceu na vida", resume o desembargador Ruy Pereira Camilo.

Natural de Boquim (SE), a 80 quilômetros de Aracaju, Souza tinha 22 anos quando veio pela primeira vez a São Paulo. "Meu tio foi nos visitar como fazia todo ano e pediu autorização a meu pai para eu voltar dirigindo", lembra o agora juiz substituto de Ribeirão Preto, no interior.

A viagem deveria durar poucos dias. Mas, por sugestão de um compadre do tio, ele resolveu ficar por mais uma semana e prestar concurso para motorista do tribunal. Até então, Souza, que hoje tem 33 anos, nunca cogitara entrar para a magistratura. Caçula entre os três homens de uma família de seis irmãos, pretendia formar-se em agronomia para ajudar o pai, um pequeno produtor de laranjas. Chegou a prestar vestibular na Universidade Federal de Sergipe, mas não foi aprovado. Por um ano, trabalhou na lavoura e estudou nos horários de folga. Foi justamente nessa época que surgiu o passeio a São Paulo.

Já que havia decidido ficar na metrópole, ele achou por bem conseguir emprego fixo. "Já namorava há quatro anos e pensava em me casar, construir família." No mesmo dia em que prestou concurso para motorista do TJ, fez prova para a Companhia de Engenharia de Tráfego e para investigador da Polícia Civil. Aprovado pelo tribunal, voltou dias depois à cidade natal e pediu em noivado a garota que conhecera na 5ª série.

A convivência com juízes e o dia-a-dia dos tribunais o encantaram. Seis meses depois de entrar no TJ, estava decidido a estudar direito. Para conseguir sustentar a casa e pagar a mensalidade, teve de pedir bolsa à faculdade. Mas esse não era o único empecilho. Um dos pré-requisitos do concurso era ter experiência de três anos em atividades jurídicas. A solução foi prestar novo concurso, para oficial de Justiça. "Como motorista eu tinha muito tempo ocioso. Enquanto esperava um magistrado, aproveitava para estudar." Num só dia, conta, passava até quatro horas lendo. Só no último semestre da faculdade, foi convocado a assumir o posto de oficial de Justiça. No fim daquele ano, prestou concurso como treineiro. "Consegui boa pontuação, mas não o suficiente para chegar à segunda fase." No ano seguinte, sem dinheiro, tirou cópia do exame e fez o simulado em casa. "Percebi que estava no caminho certo porque a nota já era suficiente para ser aprovado." Em dezembro do ano passado, após acumular a experiência exigida, prestou o primeiro concurso "para valer".

Foram quatro fases eliminatórias, incluindo provas escrita e oral, além de entrevistas com desembargadores e exame psicológico. Souza obteve a 36ª posição, entre 86. "O que mais me chamou atenção nesse rapaz foi o português impecável", lembra o desembargador Camilo, que presidiu o 179º concurso para juiz do TJ.

A posse de Souza ocorreu em agosto, diante dos pais e de alguns irmãos, que vieram de Boquim especialmente para assistir à cerimônia. Agora, ele quer mais é trabalhar. Afinal, ainda restam 24 prestações da faculdade. Mas está satisfeito. "Realizei meu sonho", resume.

Revista Consultor Jurídico, 3 de dezembro de 2007, 16h54

Comentários de leitores

22 comentários

Prezado Reinaldo você, agora Vossa Excelência, ...

LCQ (Advogado Sócio de Escritório)

Prezado Reinaldo você, agora Vossa Excelência, realmente merece os elogios que estão lhe dirigindo. PARABÉNS! Sou Advogado há 10 anos e muitas vezes sinto vergonha de como nosso País, infelizmente está sendo conduzido, por diversas pessoas que podem fazer a grande diferença em cada setor que atua. Estou me cansando de lutar como Advogado. Há pouco mais de 01 ano decidi que posso fazer mais pela sociedade como julgador. Se DEUS quiser, muito em breve serei um Magistrado.

Excelente, orgulhar-se dessa conquista nunca se...

Juliana (Estudante de Direito)

Excelente, orgulhar-se dessa conquista nunca será demais para o novo magistrado. Ainda mais quando esse sonho não está ao alcance de todos... nem mesmo de muitos outros esforçados e dedicados.

Sinto orgulho, mesmo sem conhece-lo em saber qu...

MARCOS EIRÓ (Advogado Sócio de Escritório)

Sinto orgulho, mesmo sem conhece-lo em saber que o Reinaldo Moura tornou-se Exmo. Juiz, pois significa um grande avanço, eis que é de origem humilde que com sacrificios chegou no inicio da carreira da magistratura. Que sirva de exemplo para muitos, pois a "esperança é o sonho do Homem acordado" . Que Deus semprelhe Guie, pois tenho a plena certeza de que Vossa Excelência, que jã viveu primeiramente a faculdade vida, será um excelente julgador, executando a Justiça. Meus Parabéns !!!! Muito Sucesso !!!! MARCOS EIRÓ, ADVOGADO BELEM-PARÁ www.marcoseiro.com.br

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