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Negócios em família

Planejar a sucessão é vital para que empresa não morra

Por 

Luiz Kignel - por SpaccaPlanejar a sucessão empresarial não é aposentar a geração que trabalha. É organizar mecanismos de convivência para que a empresa dure mais do que seus criadores. Uma empresa familiar está fadada ao fracasso se não seguir esta regra básica.

A opinião é do advogado Luiz Kignel, um dos maiores especialistas no tema, e é corroborada pelos fatos. O grupo Matarazzo, um exemplo de potência familiar que acabou, teve seu sucessor imposto pelos herdeiros. Já o grupo Votorantin, que está em processo de estudos para a sucessão empresarial, segue firme e forte.

Em parceria com o consultor René Wener, Kignel lança na próxima terça-feira (24/4), o livro E Deus Criou a Empresa Familiar. Na obra, os autores usam exemplos do livro de Gênesis — de Adão e Eva à Arca de Noé e Torre de Babel — para exemplificar como devem funcionar ambientes coorporativos de empresas familiares.

“Os empreendedores de hoje têm os mesmos problemas dos patriarcas do antigo testamento.” Kignel conta a história de Isaac e Rebeca, que tinham dois filhos — Esaú e Jacó. Isaac queria que Esaú, o mais velho, fosse seu sucessor, mas Rebeca preferia Jacó. No final, eles escolheram o caçula como sucessor. “Hoje em dia, o problema é o mesmo nas empresas familiares. Os pais podem tudo, só não podem impor o sucessor. E isso é uma frustração muito grande para um empreendedor familiar.”

Em entrevista à revista Consultor Jurídico, o advogado contou também que o primeiro exemplo de projeto familiar que deu certo foi a Arca de Noé: eles sobreviveram ao dilúvio graças ao fato de Noé ser um empreendedor.

Apesar das histórias bíblicas, o livro não tem nada de religioso. Parte das histórias do Gênesis exatamente para traçar um paralelo com os tempos atuais e mostrar que os problemas, guardadas as devidas proporções, são os mesmos desde que o mundo foi criado.

Kignel discorre sobre a sucessão e os problemas causados quando os pais esperam que os filhos assumam os negócios e os filhos querem fazer outra coisa diferente da carreira dos pais. Falou por experiência profissional e pessoal. Seu pai é dentista. Os irmãos se formaram em odontologia e seu pai tinha até preparado salas na clínica para toda a família trabalhar. Caçula, Kignel decidiu fazer Direito. “Meus pais perguntaram no que eu iria trabalhar e até me mandaram para o quarto, para pensar mais um pouco.”

Mais tarde, a família deu o braço a torcer. Ele entrou na Universidade de São Paulo, uma condição estabelecida pelo pai. O patriarca o ajudou a procurar um emprego logo no primeiro ano da faculdade. “Ele teve uma visão de empreendedor, mesmo eu estando fora do negócio familiar.”

Luiz Kignel tem 43 anos e mais de 20 de profissão. Sempre atuou na área de família. É co-autor dos livros Os Negócios e o Direito: sobrevivência legal no Brasil; Patrimônio e Sucessão: defendendo os herdeiros e os negócios; e Planejamento Sucessório: aspectos familiares, societários e tributários. Também é palestrante e conferencista. Participaram da entrevista os jornalistas Aline Pinheiro e Rodrigo Haidar.

Leia a entrevista

ConJur — No livro E Deus Criou a Empresa Familiar, o senhor e o René Werner fazem uma analogia entre a criação das empresas e a criação do mundo. O que há de comum entre as duas coisas?

Luiz Kignel — A idéia surgiu da minha experiência e do René Werner com os clientes. As dúvidas e problemas são sempre os mesmos para todos os empresários. O que muda são as soluções. Foi assim que surgiu a curiosidade de descobrir como tudo começou. Então recorremos ao livro de Gênesis, que conta a história da criação do mundo. Descobrimos que os empreendedores de hoje têm os mesmos problemas dos patriarcas do antigo testamento. Isaac e Rebeca, por exemplo, tinham dois filhos — Esaú e Jacó. A tradição era a de que o primogênito assumisse os negócios da família. Esaú era o mais velho. Isaac decidiu que ele seria seu sucessor. Rebeca, porém, tinha preferência por Jacó. O pai, pelo mais velho. No final, eles se entenderam e designaram o caçula como sucessor. Hoje em dia, o problema é o mesmo nas empresas familiares. Os pais podem tudo, só não podem impor o sucessor. E isso é uma frustração muito grande para um empreendedor familiar.

ConJur — O grupo Matarazzo é um exemplo de potência familiar que acabou. Mas há o Votorantin, que segue em frente, firme e forte. Qual a diferença?

Luiz Kignel — O grupo Matarazzo teve um sucessor imposto. No grupo Votorantin, existe um sucessor negociado. A decisão da primeira geração reflete nas gerações futuras. O problema do empreendedor é psicológico, não jurídico. É discutir com a família e com os sócios quem pode assumir o comando da empresa quando ele não estiver mais presente. Há clientes que dizem que caixão não tem gaveta: gasta o que tem e o que sobrou, sobrou. Esta é uma visão um pouco triste porque tudo é construído para a família desfrutar. Pode parecer tétrico, mas morrer é uma arte. O empresário precisa saber planejar até a sua morte. E planejar a sucessão não é aposentar a geração que trabalha. É organizar mecanismos de convivência. Existem empresas familiares com três gerações trabalhando: os avós fundadores, os filhos e os netos. Os pais mandam os filhos para estudar no exterior, mas não deixam aplicar o que eles aprenderam quando voltam para cá. A geração de hoje é a geração sanduíche. O avô não larga o controle da empresa. O neto já tem 30, 35 anos. Quando o avô morre, é o neto quem vai assumir e não seu pai, que terá 60 anos. E cria um sanduíche: o pai foi amassado pelo pai dele e pelos filhos.

 é repórter da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 22 de abril de 2007, 0h01

Comentários de leitores

3 comentários

PARABÉNS LUIZ, VOCÊ FOI BRILHANTE COMO SEMPRE, ...

alan (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

PARABÉNS LUIZ, VOCÊ FOI BRILHANTE COMO SEMPRE, ABRAÇOS, ALAN BOUSSO

Parabéns ao CONJUR e ao entrevistado, Dr. Luiz...

GILDA FIGUEIREDO FERRAZ DE ANDRADE (Advogado Sócio de Escritório - Trabalhista)

Parabéns ao CONJUR e ao entrevistado, Dr. Luiz Kignel pela excelente e esclarecedora entrevista.

Empresas têm um ciclo de vida! Nascem, crescem ...

Band (Médico)

Empresas têm um ciclo de vida! Nascem, crescem e morrem! Às vezes já na primeira geração, outras na segunda ou terceira! Culpar a administração pode revelar a origem de alguns casos, mas a verdade é que o mercado muda, as demandas mudam, as tecnologias mudam e a concorrência não fica parada!

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