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Ataques injustos

Veja empunhou bandeira da liberdade de maneira oportunista

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É inegável o avanço alcançado por nosso país no campo da livre expressão das idéias. Neste sentido, é louvável que a imprensa fiscalize e critique a ação estatal e, até mesmo, as opções políticas adotadas pelos ocupantes eventuais de cargos eletivos no âmbito do Poder Executivo.

Inaceitável, contudo, é valer-se Veja do trauma nacional da supressão de direitos e garantias legados de um período de exceção apenas recentemente superado para omitir atos conspurcatórios da honra alheia, empunhando, de maneira oportunista, a bandeira das liberdades democráticas.

Somente a ignorância jurídica ou um estreito conceito de democracia pode compactuar com o ataque aos próprios alicerces do edifício democrático. Em países liberais desenvolvidos — como os Estados Unidos, que Veja tanto exalta —, é corriqueira a convocação de jornalistas pelos órgãos públicos para a prestação de informações. Não se tem notícia de que veículos como Newsweek, Washington Post ou The New York Times, ao verem-se na contingência de terem seus articulistas ou repórteres intimados, divulguem estarem sendo vítimas de perseguição governamental.

Que fará Veja quando seus repórteres forem chamados a prestar declarações em juízo? Também atacará o Poder Judiciário? Acaso haja fiscalização trabalhista na sua sede, alegará tratar-se de "armação" do governo federal? Se o Corpo de Bombeiros resolver efetuar uma visita de rotina para verificar o estado dos extintores de incêndio do prédio em que funciona o semanário, será uma afronta ao direito de informar, perpetrado pelo governo fluminense, agora aliado de Lula?

Uma das diferenças entre países desenvolvidos (como os Estados Unidos) e países tupinambás — para usar uma expressão contida na última edição de Veja, na designação do Brasil — é que, naqueles, pessoas e entidades não se colocam acima das instituições, acatando-as.

Veja, clara e abertamente, filiou-se à candidatura tucana para à Presidência da República. Na insuspeita qualidade de não-marxista, de não-petista e de auto-assumido conservador, não compreendo como sua linha editorial permitiu tal postura de amesquinhamento jornalístico, tão equivocada quanto incompatível com a responsabilidade de um veículo de comunicação de massas.

Segundo creio, o compromisso primeiro e maior do jornalismo deveria ser com a verdade. Todavia, em adotando tal postura, menos ainda entendo a imputação de parcialidade formulada por Veja em face de servidores e órgãos públicos. Contudo, quando se desce ao nível da descontextualização de fatos, da manipulação de dados e da generalização de meias-verdades, torna-se difícil manter ou recuperar a credibilidade. E como “a melhor defesa é o ataque”, a posição de "coitadismo" de Veja diante dos órgãos oficiais avulta muito mais como estratégia do que como autêntica advertência em face de pretenso autoritarismo.

A possibilidade de crítica política que conquistamos a duras penas e ao custo de algumas vidas é uma vitória democrática. Algo bem diverso é a prática jornalística socialmente descompromissada, que admite até mesmo a injúria em face de profissionais sérios, ocupantes de cargos públicos relevantes, que enfrentam toda a sorte de dificuldades no desempenho de seu mister e que estão, agora, submetidos ao destroçamento moral, diante dos injustos ataques de Veja.

E surpreende o adesismo conveniente de certos vultos destacados. Vergonhosa a postura pública do presidente da OAB ao asseverar que a PF desrespeita advogados, sem citar nenhum fato concreto (algo que faria corar causídicos da estirpe de um Rui Barbosa). Pusilânimes as assinaturas de parlamentares em notinhas reproduzidas em Veja (amanhã, tais personagens poderão ser as vítimas, mas quem se importa? Por hoje, garantiu-se a exposição gratuita na mídia).

A história cobrará a coerência de muita gente. A liberdade de imprensa é uma instituição cara demais à democracia para ser tomada em vão por jornalistas irresponsáveis. Veja recorre, cada vez mais, a uma postura raivosa, sofista e rasteira. A Polícia Federal é um órgão constitucional permanente. Eles passarão, mas não a necessidade de uma força pública corajosa e atuante, como o DPF. Tampouco esmorecerá a luta do povo brasileiro, dos verdadeiros democratas, pela consolidação de nossas instituições. Somos maiores. Não nos encontramos no mesmo plano. Recusamo-nos a descer ao nível da sujeira e da mentira, freqüentado por alguns destes "jornaleiros".

Gustavo Schneider é delegado da Polícia Federal.

Revista Consultor Jurídico, 9 de novembro de 2006, 19h26

Comentários de leitores

12 comentários

Há um a diferença determinante entre a Veja e a...

Luciana (Advogado Autônomo)

Há um a diferença determinante entre a Veja e a Carta Capital: a primeira esconde-se sob o manto da neutralidade para convencer os incautos de que é imparcial, que não tem lado, mas a realidade mostra que tem sim; a segunda sequer tenta enganar os incautos, pois deixa clara sua posição política, neste caso, favorável à reeleição de Lula. Sou a favor da verdade, não é proibido, nem feio e nem um crime que órgãos da imprensa apóiem este ou aquele candidato, o que é de uma hipocrisia atroz é apoiar "debaixo dos panos", como faz a Veja para induzir os desavisados a acreditarem sem pensar no que está escrito em suas páginas. Essas jornalistas da Veja são umas "perebas" que fazem escândalo sem motivo, pois, pelo que li da inquirição e pelo que já acompanhei de depoimentos na PF, não houve nenhuma agressão. Por outro lado, foi até bom que isso tenha acontecido, pois a Veja, assim como a Folha e outros órgãos da imprensa, têm acesso privilegiado à PF e agora a cria se voltou contra o criador, vamos ver se, doravante, alguns elementos da PF continuarão a dar informações privilegiadas - como sempre fizeram - à revista que desancou a instituição em que trabalham. As máscaras caem numa velocidade absurda.

Dr. Gustavo, corajoso e honesto o seu artigo. S...

Armando do Prado (Professor)

Dr. Gustavo, corajoso e honesto o seu artigo. Suas palavras recolocam o papel leviano que Veja assumiu nos últimos 2 anos, agravados nos 2 últimos meses. Veja se desmoralizou. Restou-lhe o apoio da elite "branca e bronca" de S. Paulo, insuficiente para mantê-la como uma grande revista nacional. Seu fim se avizinha, o que é triste pelo seu passado. Ninguém está acima da lei e das instituições. E a Polícia Federal passou a ser o orgulho do povo brasileiro que vibra com cada ação efetiva no "andar de cima". Ontem mesmo, burladores de ações financeiras foram pegos "com a mão na botija". É isso que queremos, não prisão de pobres coitadas que tentaram furtar manteiga, xampoo, etc.

Casualmente encontrei esta matéria hoje mesmo e...

cesarakg (Funcionário público)

Casualmente encontrei esta matéria hoje mesmo em um grupo de discussões na Internet, acho que tem alguma relevância com o assunto ora em pauta: "A reação à condenação do sociólogo e colunista de Carta Maior Emir Sader no processo de injúria movido pelo senador Jorge Bornhausen (PFL-SC) motivou uma extensa corrente de solidariedade no Brasil e no exterior. Ela se materializa num abaixo-assinado com mais de 10 mil nomes, entre eles Antonio Candido, Chico Buarque, Oscar Niemeyer, Eduardo Galeano, István Mèszáros, entre outros. A sentença envolve um ano de detenção, em regime aberto, conversível à prestação de serviços à comunidade e à perda de seu cargo de professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). A condenação foi motivada por um artigo publicado na Carta Maior em 28 de agosto do ano passado. O colunista se referia a uma manifestação pública do senador feita dois dias antes. Ao ser questionado em um evento com empresários se estava desencantado com a crise política, Bornhausen respondeu: `Desencantado? Pelo contrário. Estou é encantado, porque estaremos livres dessa raça pelos próximos 30 anos`. A `raça` a que se referia o senador era o PT e a esquerda. `Ao impor a pena de prisão e a perda do emprego conquistado por concurso público, é um recado a todos os que não se silenciam diante das injustiças`, diz o texto assinado por dezenas de intelectuais. Segundo eles, numa total inversão de valores, o que se quer com uma condenação como essa é impedir o direito de livre-expressão, numa ação que visa intimidar e criminalizar o pensamento crítico. É também uma ameaça à autonomia universitária, que assegura que essa instituição é um espaço público de livre pensamento. Ao impor a pena de prisão e a perda do emprego conquistado por concurso público, é um recado a todos os que não se silenciam diante das injustiças." Fonte:Gilberto Maringoni (jornalista) Extraído da página www.agenciacartamaior.com.br

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