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O caseiro e a verdade

Francenildo provou que o lado mais fraco é o da mentira

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Um grupo apartidário, composto por pessoas e entidades como o Movimento do Ministério Público Democrático; Associação dos Advogados de São Paulo; Associação dos Funcionários Públicos de São Paulo; Associação Paulista do Ministério Público; Centro Acadêmico XI de Agosto, Instituto dos Advogados de São Paulo; seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil; Pensamento Nacional das Bases Empresariais; Conectas, Direitos Humanos e Ilanud, decidiu, diante dos fatos e das tentativas de acobertamento da verdade, conclamar por uma forte ação contra a impunidade e pela ética.

Afirmava-se e reafirma-se ser a apuração e a indicação das responsabilidades dos envolvidos o único desfecho que os cidadãos brasileiros podem aceitar. Não bastava a indignação, era necessária uma ação.

O mensalão comprometera o processo democrático, ao se buscar a formação de uma base governista sem compartilhar o poder com outros partidos, passando a cooptar a vontade da Câmara dos Deputados, sob a lei do silêncio, por via de dinheiro vivo.

Foram feitos dois atos públicos em São Paulo, na Faculdade de Direito da USP. No primeiro, em 31 de agosto de 2005, em manifesto, requeria-se, além da investigação precisa e segura dos fatos, uma reforma política que garantisse a plenitude do processo democrático. Medidas concretas para o controle dos gastos eleitorais foram, efetivamente, propostas ao Tribunal Superior Eleitoral.

O segundo ato, em dezembro de 2005, foi de apoio ao trabalho das comissões parlamentares de inquérito, ato ao qual compareceu o relator Osmar Serraglio.

Durante os meses de janeiro e fevereiro, arrefeceram-se as investigações. O Planalto respirou e pensou que tudo seria um mar de impunidade, ao som de sambinha malandro como o que inspirou a dança da deputada abre-alas do bloco dos sem decoro. Marqueteiros anunciaram que a questão ética era indiferente ao eleitorado. Não é e não será.

Surge, no entanto, em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, uma entrevista do caseiro da casa dos prazeres da república de Ribeirão Preto, o Francenildo Costa.

Convocado para depor na CPI dos Bingos, foi calado por Mandado de Segurança, no qual se chega a considerar que, por suas condições culturais, não teria como contribuir para o esclarecimento dos fatos.

Não bastou o silêncio imposto pela Justiça, que desqualificou sua condição de homem humilde. Era necessário desqualificá-lo moralmente. Quebrou-se, com tranqüilidade, o seu sigilo bancário. Precipitadamente festejou-se o encontro de depósitos de R$ 25 mil e raciocinou-se com os próprios padrões éticos: “foi comprado”. Estava salva a república de Ribeirão Preto. A violação do sigilo pelos subordinados diretos do ministro da Fazenda, em defesa de sua santa e imaculada pessoa, que substitui a verdade pela mentira dita com fleuma, seria pecado venial, diante do pecado mortal da compra da declaração do caseiro por inimigos do ministro.

Aí estava a salvação da lavoura, e desmascarada a “trama” para prejudicar o ministro mentiroso. A reeleição vinha garantida como subproduto da descoberta da falcatrua que levara Francenildo a depor e contar a verdade.

O tiro saiu pela culatra. O homem simples era honesto. Recebera a importância de seu pai. E mais, era e é corajoso, tal como seu advogado, Wlicio Chaveiro Nascimento.

Este homem simples, figura exemplar do brasileiro humilde, inteligente e verdadeiro em suas manifestações, foi submetido ao mais puro arbítrio do Estado. Não contentes em violar o sigilo bancário, no final do dia 16 de março, deu-se para um órgão de imprensa a tarefa de espalhar a calúnia. E mais. Para intimidar o caseiro e dar ares de legitimidade à acusação leviana e criminosa, em ação rápida, o Coaf, sempre omisso com relação aos milhões que transitaram no mensalão, oficia à Polícia Federal. Essa representação do Coaf baseou-se em comunicação do Sisbacen, do dia seguinte à quebra do sigilo, dia 17, na qual se aventou a possibilidade de ocorrência de delito de lavagem de dinheiro.

Um rastilho de indignação percorre o Brasil. A falta de ética levou ao autoritarismo, e nós do Movimento “Da indignação à Ação”, fiéis aos propósitos declarados no manifesto de 31 de agosto do ano passado, não poderíamos deixar de passar à ação possível: prestar solidariedade a esse brasileiro perseguido pelas autoridades fazendárias e policiais por ter ousado, com seu baixo nível cultural, dizer as verdades incômodas ao poderoso do instante.

Abriu-se a Francenildo Costa uma tribuna livre, no salão nobre da Ordem dos Advogados de São Paulo. Neste dia 30 de março, às 11 horas, um pouco de nossa dignidade ferida foi resgatada. Veio de um caseiro modesto o exemplo de honestidade que nos mobilizou a dizer, em alto e bom som, que não estamos asfixiados pela mistura de corrupção e arrogância que tomou conta do país.

Por fim, grita-se contra as pressões que recaíram sobre o deputado Osmar Serraglio para omitir em seu relatório menção a outros mensaleiros, a ex-ministros e ao próprio presidente da República.

Esquecem os governistas da lição dada pelo caseiro Francenildo que, singelamente, disse estar provado que o lado mais fraco não é o do caseiro é o da mentira. Esquecem da frase dele: “duro é falar mentira que você tem de ficar pensando. A verdade é fácil”. Disse mais Francenildo, no ato público na OAB, sobre o presidente: “É um trabalhador que quer sujar a bandeira dos trabalhadores.”

Enquanto os mentirosos pensam, e pretendem sujar a nação, nós agimos por meio da palavra: homenageamos a verdade na pessoa de Francelino e denunciamos o embuste do governo, patrocinado pelo presidente da República, que pretende instaurar o reino da mentira.

Miguel Reale Júnior é advogado em São Paulo e ex-ministro da Justiça.

Revista Consultor Jurídico, 31 de março de 2006, 16h05

Comentários de leitores

10 comentários

No Brasil a maioria é pobre, quero dizer pobre ...

Gervasio (Advogado Autônomo)

No Brasil a maioria é pobre, quero dizer pobre no sentido de falta de dinheiro, mas se tem uma coisa boa nos brasileiros menos abastados é o dizer a verdade. Nos interrogários os Juizes antes do inicio do interrogatório adverte a testemunha que deve dizer a verdade, e pode ter certeza na grande maioria das vezes o pobre coitado diz a verdade. Por outra banda é comum aos mais abastados sempre afirmarem eu não sei de nada, estão armando para mim, pobre caseiro!!!

Caro Comentarista. O que me deixou chateado ...

Hwidger Lourenço (Professor Universitário - Eleitoral)

Caro Comentarista. O que me deixou chateado em sua participação foi uma espécia de "justificação" da corrupção. Seja do PT, do PSDB, ou dos incas venusianos, não importa, a corrupção é inaceitável sob todos os aspectos, e uma suposta "tolerância" por parte do povo não justifica sua existência, ainda mais praticada por que, por anos, colocou-se acima do bem e do mal. Quanto a questão do patrulhamento, sei bem o que é isso. Em 20 anos de enfrentamento ao PT, e tudo o que ele representa, já ouvi muitas barbaridades....Mas, quando escolhemos um lado, não podemos nos abater por essas bobagens. O que me deixa triste, porém, é saber que eu estava certo, e que um governo Lula/PT seria uma enorme tragédia para o País. Abração

Caro Hwidger Lourenço Ferreira (Estudante de Di...

Comentarista (Outros)

Caro Hwidger Lourenço Ferreira (Estudante de Direito), A opção por usar um nick na postagem dos comentários é algo absolutamente normal em sites de discussão no mundo todo, pois - ao contrário do alardeado "manto do anonimato - nada mais objetiva que evitar certos "patrulhamentos". Lembre-se sempre que as idéias e as opiniões, desde que não ofensivas, são mais importantes que os nomes de seus autores, pois a discussão é o fermento da sabedoria. No mais, quanto à pesquisa que citei, vale lembrar a velha e ainda insuperável verdade: contra fatos não há argumentos!

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