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Premissa para o futuro

Ao permitir resolução anti-nepotismo, STF definiu poderes do CNJ

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A decisão do Supremo Tribunal Federal de declarar constitucional a resolução do Conselho Nacional de Justiça que proíbe o nepotismo toma contornos históricos não só por afirmar os valores republicanos da impessoalidade e da moralidade administrativa, mas também porque consolida o âmbito de atuação do conselho, indica suas atribuições e delimita sua competência.

Criado com a Emenda Constitucional 45 para exercer a função de planejar, regular e controlar o Poder Judiciário, o Conselho Nacional de Justiça já surgiu cercado de polêmicas. Logo após seu nascimento, enfrentou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, proposta pela Associação dos Magistrados Brasileiros, que questionava sua compatibilidade com o princípio da separação dos Poderes (diante da existência de membros da Advocacia, do Ministério Público e de cidadãos na composição do órgão) e com o princípio da federação (diante da possibilidade de expedição de atos regulamentares de cumprimento obrigatório pelas Justiças Estaduais).

Superados os incidentes de inconstitucionalidade, diante da manifestação do Supremo Tribunal Federal, que assegurou a existência do órgão e afastou qualquer indício de afronta às cláusulas pétreas em sua vigência, o Conselho Nacional de Justiça iniciou suas atividades e expediu resoluções no sentido de padronizar e harmonizar a prática de alguns atos administrativos nos tribunais pátrios.

Regulamentou os critérios de acesso aos tribunais por juízes de primeira instância, determinou o que seria “atividade jurídica” para fins de concurso para ingresso nas carreiras da magistratura e do Ministério Público, desenvolveu metodologias de estatística para compilar e sistematizar dados sobre o funcionamento da Justiça e, por fim, decretou o fim do nepotismo nos quadros funcionais do Poder Judiciário.

Esta última atuação do conselho foi responsável por sua presença, mais uma vez, nas barras do Supremo Tribunal Federal. Em razão da infinidade de liminares que contestavam a constitucionalidade da resolução do conselho que exigia a exoneração de parentes dos magistrados dos órgãos judiciais, a Associação dos Magistrados Brasileiros, desta vez, impetrou uma Ação Declaratória de Constitucionalidade para preservar a competência do órgão e a validade do ato normativo.

A discussão jurídica repercutiu nos meios de comunicação de massa como uma polêmica acerca da legalidade de manter ou não parentes nos cargos. No entanto, a questão em debate não se resume a esta matéria, aparentemente central, que suscitou argumentos e manifestações apaixonadas. A importância da controvérsia vai além e deságua na disputa sobre os limites da atuação do Conselho Nacional de Justiça no exercício de suas competências. Se a questão aparente é a lisura da contratação de parentes para cargos em comissão, a discussão de fundo envolve a própria legitimidade do conselho como órgão de organização e normatização da Justiça.

O centro do debate na ação de constitucionalidade foi: cabe ao conselho proibir o nepotismo, por meio de uma resolução, se não há lei que o faça? Cabe a este órgão expedir atos normativos que exijam a exoneração de servidores, sem autorização legal expressa? Enfim, qual a extensão dos atos exarados por esta instituição?

A decisão do Supremo foi afirmativa e entendemos que assiste razão ao órgão, sem deixar de ressaltar o novo paradigma criado e estabelecido. A Constituição Federal estabelece que cabe ao Conselho Nacional de Justiça “zelar pela autonomia do Poder Judiciário e pelo cumprimento do Estatuto da Magistratura, podendo expedir atos regulamentares, no âmbito de sua competência, ou recomendar providências” (sem grifo no original) e “zelar pela observância do artigo 37 e apreciar, de ofício ou mediante provocação, a legalidade dos atos administrativos praticados por membros ou órgãos do Poder Judiciário, podendo desconstituí-los, revê-los ou fixar prazo para que se adotem as providências necessárias ao exato cumprimento da lei, sem prejuízo da competência do Tribunal de Contas da União” (sem grifo no original).

Ora, o texto constitucional não deixa dúvidas, portanto, que cabe ao Conselho Nacional de Justiça expedir atos normativos, de caráter primário, quando seu objetivo for “zelar pela observância do artigo37”, que estabelece que a administração pública, inclusive a dos tribunais, pauta-se pela legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

Logo, não se faz necessária uma lei para a regulamentação do texto constitucional que intermedeie a atuação do conselho neste terreno, porque a própria Carta Magna delega ao órgão a competência para fazer valer seus mandamentos, quando se trata da concretização dos princípios do artigo 37 na seara do Poder Judiciário.

Esta constatação, respaldada pelo Supremo Tribunal Federal, é mais significativa do que parece à primeira vista. Se foi a premissa maior para a declaração de constitucionalidade da resolução que vedou o nepotismo, também servirá de respaldo para outros atos do conselho que visem resguardar a administração dos tribunais e garantir sua adequação aos vetores constitucionalmente estabelecidos. A atuação futura do órgão será respaldada e pautada por esta legitimação, ou seja, a partir de agora, fica assegurada a constitucionalidade dos atos normativos do conselho que visem regular os princípios constitucionais de administração, independentemente de lei prévia.

Portanto, mais do que garantir a moralidade, enfrentar o problema antigo do nepotismo e respaldar o caráter republicano do serviço judicial, a decisão do Supremo teve a importância de pautar o caminho pelo qual o Conselho Nacional de Justiça deverá seguir para realizar, com maturidade e responsabilidade, seu papel institucional de fazer aplicar os valores constitucionais nas atividades do Poder Judiciário brasileiro.

 é advogado, sócio do escritório Bottini & Tamasauskas Advogados, professor de Direito da USP e membro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça.

Revista Consultor Jurídico, 15 de março de 2006, 14h53

Comentários de leitores

2 comentários

CONFIRMANDO O QUE EU DISSE, LEIAM, TAMBÉM, A CA...

LUCIANA PRADO (Serventuário)

CONFIRMANDO O QUE EU DISSE, LEIAM, TAMBÉM, A CARTA DE PIRACICABA (EM JORNAL DO JUDICIÁRIO N° 238 22/Fevereiro/2006 Página 2 FRASES http://www.sintrajud.org.br/), ABAIXO TRANSCRITA: Carta de Piracicaba Wilson Trevizam, Anália Monteiro e outros* Solicitamos ao Sintrajud que interceda junto à Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados para incluir as emendas aprovadas na 12ª Plenária Nacional da Fenajufe referentes à manutenção dos valores dos cargos em comissão (CJs) e funções comissionadas (FCs) constantes da Lei 10.475/2002, desconsiderando a redação do parágrafo único do artigo 19 e anexos III e IV do PL 5845/05. A Lei 10.475/2002, numa visão acertada e moralizadora, após vitoriosa greve da categoria, manteve congeladas as FCs e CJs, valorizando a carreira e coibindo maiores gastos com cargos comissionados. Todos sabem que a distribuição dessas verbas é feita sem critérios objetivos e democráticos e que esses cargos são preenchidos muitas vezes sem concurso, incentivando o apadrinhamento, nepotismo e assédio moral – um dos maiores problemas do Judiciário. É importante frisar que o Poder Judiciário já gasta mais de 60% da sua folha de pagamento com FCs e CJs, mesmo com os valores congelados. Além disso, o servidor concursado ocupante de cargo de confiança deixa de receber a verba extra quando se aposenta – outra desvantagem do reajuste em questão. O Sintrajud, em nota oficial publicada na internet, afirma: “a palavra final sobre a proposta que tramita na Câmara dos Deputados foi do STF, que não acatou uma série de pedidos de alterações formuladas pelos servidores”. É inadmissível que, sob o falso pretexto de não prejudicar o andamento do PCS, sejam desprezadas nossas próprias reivindicações. Consideramos um verdadeiro escândalo o reajuste de até 154% nos cargos de confiança, como, por exemplo, um CJ-4 que, excluindo salários e eventuais incorporações, passará de R$ 2.986,00 para R$ 7.596,00 ou de R$ 7.791,00 para R$ 11.686,76 no caso dos não concursados. Basta analisarmos a tabela do futuro PCS e constataremos que nossos salários terão reajustes bem inferiores, além de sofrerem o desgaste do parcelamento aprovado na CTASP. Repudiamos também que 20% das FCs e 50% dos CJs possam ser preenchidos sem concurso público. Defendemos que os ocupantes de cargos em confiança sejam 100% servidores efetivos do Judiciário Federal e do mesmo órgão. Por tudo issoé imprescindível manter congelados os valores das FCs e CJs. Nas inúmeras assembléias realizadas em Piracicaba o reajuste das FCs e dos CJs e seu preenchimento sem concurso foram rejeitados por unanimidade, com base nas resoluções do 4º Congresso do Sintrajud, que desaprovaram o reajuste dos cargos de confiança, a falta de critérios objetivos para seu preenchimento e todo o “PCS do Jobim”. Wilson Trevizam, Anália Monteiro, Daniella Basílio Gonçalves, Elcian Granado e José Antonino Carniello, servidores da JF/Piracicaba

Cargos e funções comissionadas - tanto para con...

LUCIANA PRADO (Serventuário)

Cargos e funções comissionadas - tanto para concursados como para não concursados -, têm servido para privilegiar funcionários de desempenho medíocre, que, além de não trabalhar (e ficar o tempo todo fofocando para conseguir verbas ou cargos/funções melhores), perseguem outros servidores (os que tem desempenho melhor), nivelando sempre por baixo o serviço público. São uma mão invisível que impede a melhora da qualidade desses serviços. Mesmo sem ter contato direto com os bastidores das repartições, é possível perceber a magnitude dos problemas que o pagamento de tais verbas causa. O nepotismo sob a forma de gratificações, seja lá a que título for, é nojento e tem que acabar. Algumas engordam o salário em bem mais de 12 mil reais mensais (fora o salário normal). Em nenhuma empresa do mundo se paga gratificações a título de absolutamente nada. O PCS III do Judiciário Federal, por exemplo, se aprovado, vai aumentar em 154% as já absurdas funções comissionadas. Funcionários públicos estão sendo pagos duplamente (salário + gratificações) com o NOSSO dinheiro. Tais gratificações são pagas mesmo quando o servidor falta (por meio das substituições) e não devem existir nem para os concursados - pode ter certeza de que vão dar um jeitinho de recontratar os comissionados dispensados (que provavelmente vão prestar concurso, passar na mão grande e ganhar função comissionada). Assim como os cargos em comissão, as funções comissionadas também ocorrem por apadrinhamento e indicação e, na prática, são conseguidos por métodos inescrupulosos e pouco transparentes, servindo, somente, para criar um clima de guerra entre os servidores. Como são de livre provimento e exoneração, ao invés de trabalhar e "servir ao público" como deveriam, os servidores ficam fazendo política e tentando puxar o tapete alheio. Quem trabalha não tem valor, apenas quem puxa o saco melhor. Pessoas incompetentes e incapazes são premiadas apenas por serem amigos do rei. Um cargo, por insignificante que seja, é capaz de triplicar o salário e tem gente que mata a mãe para conseguir uma função. Além disso, muita coisa errada é encoberta e relevada a troco de função comissionada. Verdadeiros crimes acontecem sem que o público se dê conta - o que a OPERAÇÃO ANACONDA demorou anos para descobrir já era de pleno conhecimento de servidores (devidamente "engraxados"). Bons funcionários públicos, que trabalham bastante, acabam perseguidos em razão do medo que seus chefes têm de perderem as funções. É o ASSÉDIO MORAL, conduta tida como normal no Judiciário Federal e que tem deixado doentes centenas de servidores públicos perseguidos por seus chefes. O Judiciário Federal, que costuma julgar duramente processos de assédio moral interpostos por pessoas comuns, ainda não se deu conta dos problemas dessa prática junto aos próprios funcionários. Como resultado, há servidores doentes, aposentados por invalidez e até que se suicidaram em razão do assédio sofrido. A conseqüência do assédio moral é mais desperdício de dinheiro público pois exige tratamento médico, licenças, pagamento de aposentadorias, etc. Exemplos dessa situação podem ser lidos nos desabafos abaixo, em: http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=326904&tid=19795506 http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=4689749&tid=2439844758353586430&start=1 http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=425344&tid=8940566&na=2&nst=5 http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=4428525&tid=2447408674652731417&start=1 http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=1072868&tid=19880175&start=1 http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=326904&tid=19795506&start=1 http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=979620&tid=17869278 Verbas de gabinete, funções comissionadas, cargos comissionados e privilégios relacionados TÊM que acabar, não importando qual a desculpa que se dê para sua continuidade. É dinheiro público que está escoando direto para o ralo, dinheiro que deve ser gasto para melhorar as condições da população e não para pagar poucos privilegiados.

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