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Libertação feminina

Só haverá igualdade se acabar tripla jornada da mulher

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Em 8 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher. São tantos os eventos, palestras, homenagens e reivindicações que, nos últimos anos, o dia passou a ser semana. Diante disso, é pertinente falarmos da mulher também hoje.

Com os avanços já conquistados e com o arrefecimento do movimento feminista, muitas pessoas perguntam qual o espaço que falta às mulheres conquistar. Está claro que, embora várias medidas tenham sido tomadas para promover a cidadania feminina, inclusive com importantes e definitivas alterações legais, a verdadeira igualdade ainda parece distante.

Se, por um lado, as mulheres assumiram funções importantes na esfera profissional e alcançaram posições sociais de respeito, por outro lado, na vida familiar, quase tudo continua como antes. As tarefas domésticas ainda recaem exclusivamente sobre as costas da esposa-mãe que, além de trabalhar fora para pagar as despesas da casa, tem de arcar com a responsabilidade de cuidar dos filhos, preparar a comida, lavar, passar, limpar.

Interessante observar que a disposição para a luta e a coragem de enfrentar os obstáculos que guiaram as revolucionárias desde o começo do século passado parecem não existir quando o embate tem de ser travado em casa. Sim, porque muitos poucos serão os homens dispostos a dividir o serviço doméstico e a atenção com os filhos espontaneamente. A grande maioria precisará ser instada a isso e de maneira enérgica.

Enquanto não houver igualdade de direitos e deveres no âmbito familiar, as mulheres continuarão sendo exploradas e oprimidas. Terão chances menores na competição profissional pelo simples fato de que não poderão dispor do mesmo tempo para o trabalho fora do lar que seu concorrente homem. A dupla ou tripla jornada de trabalho da mulher precisa acabar para que a igualdade de gênero se instale sem distorções.

Outro passo que precisa ser dado é no sentido da libertação dos padrões de beleza inalcançáveis que vêm sendo impostos como valor primordial para que as mulheres sejam aceitas e respeitadas.

É importante lembrar que a sociedade patriarcal estabeleceu que as mulheres não têm nenhum outro valor que não seja a beleza. Precisam ser bonitas e nada mais para agradar aos homens e gerar seus filhos. Depois dos filhos, o corpo se modifica, a idade chega, a rotina do casamento deixa as mulheres desanimadas e tristes. Feias. Por essa razão, a partir da meia-idade, as mulheres perdem poder e respeitabilidade. Além disso, a repressão patriarcal envelhece as mulheres antes do tempo.

Desde que o mundo ocidental mudou e a cidadania feminina passou a ser reconhecida, seria razoável supor que a beleza iria adquirir uma posição secundária na escala de prioridades. Não foi o que aconteceu.

Há quem interprete a supervalorização da estética corporal como uma reação patriarcal à emancipação feminina. A americana Susan Faludi escreveu um livro — Backlash — defendendo essa tese. De outra parte, há quem credite o fato à indústria da beleza, que fatura milhões com a paranóia de perfeição e juventude.

Seja qual for a causa, a verdade é que urge fazer alguma coisa para colocar a beleza no seu devido lugar. Caso contrário, as mulheres continuarão enfraquecidas, porque magras demais, ou doentes, porque anoréxicas, preocupadas com dietas e plásticas. É evidente que essa situação é obstáculo à emancipação. Se só o que conta são seios e nádegas, a sexualidade está prejudicada, pois não depende de peitos grandes nem de traseiros proeminentes. Acresce que ninguém consegue continuar jovem quando a idade chega. As exigências de beleza são uma forma de agressão física e psicológica bastante grave.

Algumas manifestações sutis de violência podem ser mais devastadoras do que os ataques físicos diretos. Combatê-las é o que nos falta para que se complete o processo de libertação feminina.

 é procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, autora de vários livros, dentre os quais “A paixão no banco dos réus” e “Matar ou morrer — o caso Euclides da Cunha”, ambos da editora Saraiva. Foi Secretária Nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça no governo FHC.

Revista Consultor Jurídico, 13 de março de 2006, 13h39

Comentários de leitores

3 comentários

Interessante o artigo da procuradora Luiza, mas...

Landel (Outro)

Interessante o artigo da procuradora Luiza, mas cabem aí algumas ponderações. Muito se tem falado sobre a libertação feminina, especialmente por parte das mulheres que dizem representar o feminismo. Mas que libertação é essa afinal? Essa dos trabalhos do lar? Sem dúvida alguma o caminho dessa libertação está aberto a qualquer mulher que o deseje. Ela pode escolher entre duas alternativas para isso: a primeira é sair para trabalhar no mesmo horário do seu marido, sem preocupações com esse trabalho que no Brasil é tradicionalmente exercido por uma doméstica. Se bem que a concordância de uma mulher em impôr um mísero salário para uma outra mulher fazer o trabalho que ela considera representativo da opressão masculina, ao invés de convencê-la a nunca mais fazer tal coisa assim que ela bata à sua porta parece uma contradiçào com a busca da libertaçào dessa suposta opressão. Será que a procuradora não desfruta dos préstimos de uma oprimida representante da classe que ela pretende defender e libertar? A outra alternativa é também sair para trabalhar junto com seu marido e explicar à sua prole de olhos esbugalhados, que se virem sozinhos indo e voltando da escola, com as roupas, refeições e tudo o mais, o que com certeza já inculcará na mente da pimpolha do casal que a libertaçào feminina chegou para ficar. E que voltarão mais à noite, cansados e que depois de cada um lavar e passar sua roupa em justa divisão de trabalho, cairão cada uma na sua cama, libertos enfim dos papéis de opressor e oprimida. Uma das coisas interessantes da vida doméstica em países como os EUA é que sim, os homens também dividem o trabalho doméstico com suas mulheres que trabalham fora com eles. Aliás, para os estudantes de classe média alta que fazem intercâmbio cultural lá, acostumados com o trabalho das domésticas aqui em suas casas, uma das surprêsas não muito agradáveis é terem que pegar no cabo da vassoura, alternando a ajuda no trabalho doméstico de arrumaçào e outras coisas. A doméstica lá é figura de filmes. Por outro lado temos a questão dos padrões de beleza, vistos também pelas feministas desde a década de 70 como outro selo da opressão masculina. Pensemos num surrealista cenário espiritual pré-nascimento, como advogam certas correntes religiosas, onde a futura mulher é instada a escolher uma forma física que terá aqui neste malfadado planeta de machos opressores. Se lhe oferecerem a possibilidade de escolher entre encarnar como a Cinderela ou como a Bruxa mesmo que bondosa, já sabemos qual será sua escolha. Acredito que se a pedido dos leitores, a procuradora esvaziar sua bolsa, veremos entre seus pertences esmaltes, batons, pinças e pós para maquilagens, tudo para embelezá-la, mas nada para enfeiá-la. Aliás nesse ponto parece que apesar das prédicas feministas os salões de beleza e isso qualquer um pode verificar a qualquer hora, andam lotados de mulheres querendo se tornarem mais belas do que já são e a maioria pouco aquinhoada pela beleza querendo ao menos sair mais favorecida pelos mais modernos recursos dos cosméticos e plastificantes mais diversos. Não encontrarão porém nenhum salão de feiúra, de onde as mulheres possam sair parecidas com a feminista Betty Friedan, que se tinha talvez boas idéias, tinha infelizmente uma feiúra de dar medo. Os padrões de beleza, segundo assevera a procuradora são forçados por uma sociedade machista. Nada mais distante da verdade. São forçados únicamente pelo desejo e louvável desejo da maioria das mulheres de serem belas e se não o forem, terem ajuda, seja química ou médica para que assim sejam. Ou acham que as indústrias de beleza gastam milhões por ano pesquisando produtos de beleza para depois verem se alguma mulher os compra? Ao contrário gastam em pesquisa porque lucram bilhões em vendas depois. E a maioria dessas empresas tem como chefes...uma mulher, ao invés do implacável macho opressor a ditar como será a moda e a beleza das oprimidas e compulsórias compradoras de seus produtos. E que dizer de revistas como 'Boa Forma', 'Cláudia', 'Marie Claire', 'Elle', 'Nova' e outras, com artigos e receitas infáliveis para garantir a beleza das mulheres, na pele e na roupa e que são vendidas aos milhares, algumas com mais de 20 anos de sucesso nas vendas? Parece que se as feministas bradam contra a beleza como sinal da opressão masculina, bradam cada vez com menos audiência. Outro sinal disso é a presença maciça de mulheres em clínicas de estética. Procurem e não vão achar nenhuma clínica de anti-estética. E ainda seguindo essa corrente, o Brasil é um dos países com expressivo número de operações plásticas para finalidades de embelezamento, desde um retoque no narizinho até a conhecida lipoaspiração. Como nenhuma mulher é obrigada por lei a fazer isso e boa parte até junta economias para tais cirurgias, vemos o quanto a beleza é desejada, mas não só pelos homens. Porém nisso tudo, falando em opressão, as feministas de hoje deveriam fazer uma reedição das manisfestações da década de 70 em Nova Iorque, quando elas queimavam sutiãs e calcinhas, gritando que eram as maiores representações da opressão masculina e da submissão feminina. Que as feministas se juntem em praça pública, queimando com alegria seus cheques de pensão alimentícia e as leis que os garantem e exigindo mudanças nos processos de separação, para que elas possam também ter a liberdade e igualdade de pagarem essa pensão, darem seus carros e suas casas para os seus antigos opressores, agora transformados em felizes oprimidos, a darem grunhidos de satisfação em sua nova condição. Aí sim poderemos verificar que novos tempos terão chegado na relaçào entre os maldosos machos opressores e as pobres mulheres oprimidas.

O texto é realmente de extrema relevância. Esqu...

Marcos (Advogado Assalariado - Empresarial)

O texto é realmente de extrema relevância. Esqueceu a autora, apenas, do fato de que, via de regra, os homens são criados por mulheres. Assim, e desculpando-me pelo raciocínio excessivamente simplista, a mentalidade masculina avançará, e muito, quando as mulheres, mães que são, resolverem educar seus filhos de forma apropriada, mais preparados para as mudanças que acontecem, sobretudo no que se refere à reestruturação de responsasbilidades e afazeres domésticos. É evidente que o assunto envolve uma série de outras circunstâncias sócio-culturais, mas, sem sombra de dúvidas, um grande avanço se dará quando as mulheres se derem conta do imenso poder de influência que têm, ao invés de aguardarem mudanças na sociedade que entendem, equivocadamente, ser "patriarcal".

Dra. Luiza N. Eluf, Está de parabéns pelo ar...

Meldireito (Advogado Autônomo - Família)

Dra. Luiza N. Eluf, Está de parabéns pelo artigo que representa a realidade da mulher no Brasil e no mundo. Até quando nós mulheres continuaremos nos deixar levar pelo que a sociedade machista e patriarcal determina para a mulher? Já passou do tempo de nós mulheres nos mobilizarmos e arregaçarmos as mangas e dizer: Não! Chega! Para que alcancemos o devido valor e reconhecimento vai depender de nossa postura frente à tudo isso exposto pela Dra Luiza. Não abaixarmos a cabeça mais e levantarmos mostrando o que a mulher sempre teve e terá de melhor. A nossa força e capacidade interior!

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